Definition of resilience

"In the context of exposure to significant adversity, resilience is both the capacity of individuals to navigate their way to the psychological, social, cultural, and physical resources that sustain their well-being, and their capacity individually and collectively to negotiate for these resources to be provided in culturally meaningful ways" (www.resilienceproject.org)

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Coping e Resiliência


Podemos definir resiliência como um conjunto de respostas do sujeito (indivíduo, família ou comunidade) a situações de adversidade, sendo que essa adversidade pode ser experienciada de maneira diferente por diferentes sujeitos, gerando diferentes formas do sujeito se posicionar. Essa resiliência nunca é diretamente percebida, mas inferida a partir dos componentes de uma “adaptação positiva” (limpando o ranço ideológico dessa expressão), em função de um jogo de força entre mecanismos de risco e mecanismos de proteção. Essa adaptação é fruto de características individuais (psicológicas, fisiológicas, genéticas), familiares e sociais com o qual o sujeito pode contar frente às situações de adversidade.

Coping (cuja tradução ruim em português seria enfrentamento) pode, por sua vez, ser definido como um conjunto de habilidades cognitivas, comportamentais e sociais utilizadas na solução de conflitos internos ou externos, que surgem em situações de adversidade que sobrecarregam os recursos do sujeito (indivíduo, família ou comunidade). Essa definição supõe que o enfrentamento pode ser realizado através de ações voluntárias que podem ser aprendidas e, depois, abandonadas.

Nesse sentido, coping é um processo que permeia o sujeito em seu meio ambiente, em que o sujeito tenta administrar e não controlar a situação de adversidade, reavaliando constantemente essa situação e mobilizando esforços cognitivos e comportamentais para reduzir ou tolerar os componentes e as conseqüências da adversidade (composta por demandas internas e externas ao sujeito). Essa reavaliação depende da percepção que ele possui da situação e da interpretação que realiza da mesma, que podem ser afetadas pela disponibilidade de recursos a seu dispor.

Reforçando: devemos entender coping como sendo todos aqueles esforços que o sujeito realiza para manejar as demandas que causam tensão, independentemente do resultado. Nesse sentido, nenhuma estratégia é inerentemente melhor que a outra, considerando-se que a melhor forma de coping deve ser analisada em função do sujeito, da situação, do problema e da cultura.

As estratégias de coping podem ser classificadas em dois tipos, dependendo de sua função: focalizadas na emoção ou focalizadas no problema. O coping focalizado na emoção (atuação sobre uma fonte interna) é definido como um esforço para regular o estado emocional que é associado à situação de adversidade, sendo direcionado para o corpo ou para os sentimentos, objetivando alterar o estado emocional do sujeito (aceitar ou negar, expressar ou conter os sentimentos). Exemplo, contar até dez e respirar profundamente antes de tomar uma decisão rápida ou tentar entender a situação de outra forma. A função desse tipo de estratégia é reduzir a sensação física desagradável de um estado de tensão.

O coping focalizado no problema (agir sobre uma fonte externa) é uma tentativa de atuar sobre a causa da situação de adversidade, reduzindo ou eliminando sua ação (nesse sentido, é um tipo de confrontação). A função desta estratégia é alterar a tensão existente na relação entre o sujeito e seu ambiente. Exemplo: negociar para resolver um conflito interpessoal ou solicitar ajuda prática de outras pessoas.

Um dos componentes-chave de um efetivo enfrentamento é o sentimento de confiança no sujeito de que os obstáculos podem ser superados. Também importantes são os estilos de coping, ou seja, os tipos de estratégias de enfrentamento utilizadas pelo sujeito, por exemplo, de forma ativa ou passiva. Em geral, os estilos de coping têm sido mais relacionados a características de personalidade, enquanto as estratégias se referem a ações cognitivas ou de comportamento tomadas no curso de um episódio particular de tensão.

Conceitualmente, as estratégias de coping podem ser definidas em fisiológicas (lutar/fugir), cognitivas (como encarar a situação), comportamentais (relacionadas a processos mentais), aprendidas (a partir de modelos e de observação) e intencionadas (de forma voluntária e involuntária)

Finalizando, é preciso diferenciar coping de resiliência: o primeiro é um momento no tempo, a solução pontual de uma situação de tensão, enquanto que resiliência é a totalidade da experiência do sujeito. Uma soma de enfrentamentos bem sucedidos não necessariamente torna um sujeito resiliente.

Obs: quem desejar as fontes utilizadas para a confecção deste texto, pode me solicitar.



quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Psicologia dos Desastres e das Catástrofes e Resiliência

Reginaldo Branco da Silva



1- Desastres e catastrofes


Os desastres e as catástrofes não são fenômenos meramente naturais; eles apresentam também uma construção social, são frutos, de alguma forma, da ação do ser humano. O desenvolvimento econômico desenfreado, a deterioração ambiental, as crises econômicas, a má distribuição de renda e a desigualdade social afetam o cotidiano das pessoas e as suas escolhas, afetam a sua circulação pelo espaço físico e social, afetam sua segurança, gerando violência e incerteza. A escolha da ocupação da terra, do terreno não ocorre apenas pela paisagem, mas muito mais pela necessidade, às vezes pela única opção: o que foi deixado aos pobres, aos excluídos.


“O crescimento desordenado das cidades, a redução do estoque de terrenos em áreas seguras e sua conseqüente valorização provocam adensamentos dos estratos populacionais mais vulneráveis em áreas de riscos mais intensos” (Política Nacional de Defesa Civil, 2008, p. 5).


Pressionados pela ausência de recursos, a decisão por “invadir os locais disponíveis para os pobres” torna-se, na escala de privações, um posicionamento legítimo. O risco local torna-se pouco significativo diante da ameaça de desabrigo (sair da condição de risco através da remoção, mesmo com subsídios públicos para o pagamento do aluguel, não configura a situação de segurança almejada). A oportunidade de morar explica, em grande parte, o fato de as pessoas estarem em locais instáveis e precários. As pessoas escolhem a localização da moradia de acordo com as fontes de subsistência, com a redução de gastos, incluindo o pagamento do aluguel, livrando-os do pesadelo do despejo e da humilhação (Vargas, p. 103).


Essa escolha (forçada de alguma forma) do local de moradia onde ela não poderia estar, ou então pela falta de recursos políticos e econômicos para poder estar lá (já que o Estado geralmente se isenta nesse caso), produz um espaço e uma situação de vulnerabilidade (ou risco, para usar a classificação técnica e certamente ideológica da Defesa Civil) para o desastre. Ou seja, os menos favorecidos em todos os sentidos (socialmente, economicamente, culturalmente) são os mais atingidos pelas situações de desastres, pelo momento em si e pela dificuldade de se recuperar deles, inclusive psicologicamente (dificilmente pessoas com poder aquisitivo melhor são atingidos por desastres, mas pode ser que sim, principalmente em regiões serranas, onde se permite construir hotéis e mansões nas encostas das serras).


Além do mais, a população que escolhe essas “áreas de risco” para morar e viver é geralmente culpabilizada pelos desastres: pela própria ocupação, pelo desmatamento da área, pelo não cuidado com o lixo, entre outras acusações. Esse fato pode excluir ainda mais os excluídos ao pensar-se que, provocadores do desastre por ocuparem aquele espaço e insistirem em permanecer nele, não seriam merecedores de apoio governamental (o papel da mídia em espalhar esse tipo de pensamento é fundamental).


Qual é, então, a percepção de risco que se pode esperar das pessoas que ocupam áreas vulneráveis a desastres para construir suas vidas? Percebe-se que a vulnerabilidade individual e social é aprofundada pela negação do risco (provavelmente pela necessidade de se viver no local) ou seu desconhecimento, além de somar-se a outros fatores psicológicos que podem interferir na percepção de risco: sentimento de onipotência e pensamento mágico, levando à minimização da situação, falta de responsabilidade no desenvolvimento de planos, desqualificação, desestímulo, entre outros (Gómez, 2006, p. 72).


Podemos pensar que uma questão essencial relacionada à percepção e ao enfrentamento da adversidade é o desenvolvimento individual de um conjunto eficaz de respostas à adversidade, que inclui a avaliação inicial do evento e seus sentidos emocionais, a capacidade de regular as emoções frente a esse evento e regular a excitação para poder encontrar a resolução do problema, o que requer capacidade emocional e cognitiva da parte do sujeito. Porém, não podemos esquecer que essa capacidade individual de avaliação e enfrentamento é bastante condicionada pelo contexto social em que o sujeito vive e que lhe pode dar ou não essa condição (podemos questionar em que momento o cognitivo pode ser subestimado em função do emocional).


Precisamos levar em conta ainda que o aspecto social dos riscos pode variar consideravelmente conforme a sociedade, podendo ser influenciado por superstições, crenças religiosas e boatos, que tendem a apontar para um “culpado” pelo desastre, diluindo as responsabilidades. Esses fatores também incidem sobre a percepção do risco, diminuindo ou aumentando sua possibilidade.


Em todo caso, com certeza envolver o sujeito e a comunidade em atividades de prevenção pode levá-los a uma consciência maior sobre o local em que habitam. Isso não quer dizer necessariamente que essa percepção e a introjeção do risco seja igual a abandonar o local. O enraizamento, a identidade social, a proximidade com o trabalho, as amizades podem fazer com que o sujeito decida ficar e enfrentar o problema.


Além das atividades de avaliação e redução de riscos e de desastres, as ações de prevenção englobariam ainda programas de mudança cultural (mostrando que todos têm direitos e deveres relacionados com a segurança da comunidade contra desastres), treinamento de voluntários, empoderamento dessa comunidade com relação a seus direitos, educação para a saúde (incluindo a proteção da saúde mental), além de soluções físicas, como construção de muros de retenção, canaletas para escoamento de água, etc.


2- Psicologia dos desastres e das catastrofes


Para a atuação no momento do desastre e no a posteriori o ideal é que o grupo externo (Defesa Civil, Bombeiros, Exército, Prefeitura, etc) consiga formar grupos voluntários locais, cuja coordenação será dessa equipe de fora. “Quando a comunidade está desnorteada, uma tarefa essencial dos grupos externos será incentivar a ação das autoridades locais, do pessoal local de saúde e da comunidade, e ajudá-los a se organizarem, de modo que possam retomar o controle da situação” (OMS, 1989, p. 20). Isso faz com que a comunidade se sinta como participante da retomada de suas vidas, não simplesmente como alguém sendo assistido, recebendo assistência de forma passiva.



Um profissional de saúde mental pode e deve fazer parte dessa equipe externa que cuidará da população durante e/ou após um desastre ou uma catástrofe. O profissional não necessariamente precisa ser um psicólogo, mas para minhas considerações aqui vamos supor que seja ele. O psicólogo pode estar como voluntário ou como contratado pela Defesa Civil e deve receber um treinamento adequado para agir nessas situações. Tem, ainda, que estar sintonizado com o restante da equipe, pois pode ser que tenha que ajudar de outra forma, sem ser com apoio psicológico focado.


A função do psicólogo, quando intervém numa situação de desastre, não é realizar uma intervenção clínica- ainda que haja um efeito terapêutico-, mas sim intervir com a cidadania. “Nesse sentido, acredito que o trabalho tenha que ser sempre interdisciplinar, contínuo, mantido, porque as conseqüências são de longo prazo, e deve-se estar sempre articulado com as demais disciplinas que intervêm” (Gómez, 2006, p. 72) e para isso teria que haver uma adequação do papel do psicólogo, que seria adaptar-se a cenários pouco convencionais e mutantes, adaptar-se ao trabalho multidisciplinar, adaptar-se à variedade de discursos e modalidades de trabalho, trabalhar na comunicação, ter muita plasticidade e ter muita tolerância à frustração (Gómez, 2006, p. 76).


Pensando na questão da percepção de risco e no desastre ou catástrofe em si mesmos, a intervenção do profissional de saúde mental nessa situação seria ajudar a comunidade afetada a refletir sobre qual sentido tal evento adquire para ela, quando ele passa de um evento natural a um desastre humano e as conseqüências presentes e futuras na vida dessas pessoas. O que pode causar impacto nas pessoas não são o desastre e as perdas a que ele leva, mas sua representação, que é resultado do sentido que o sujeito ou a comunidade dá ao evento. O psicólogo, então, não valorizará a magnitude do desastre e a quantidade de estragos provocados por ele (o que talvez o restante da equipe multidisciplinar possa fazer), mas como as pessoas reagem de forma diferente a essa situação e o valor que dão a suas perdas. Isso é um sinal antecipado de como será a recuperação que esses sujeitos (indivíduos e comunidade) realizarão após o desastre.


Alguns aspectos nesse trabalho do psicólogo devem ser levados em conta. O primeiro deles é o tipo de pessoa a quem irá auxiliar, pois precisa pensar nas possibilidades dela suportar o desastre, a forma como o interpreta e sua possibilidade de se recuperar dele. Como exemplo, podemos pensar nas crianças (pela menor possibilidade de reação e fuga e pela incapacidade de entender o ocorrido), mulheres (sobretudo mães de crianças pequenas), idosos (pela debilidade física) e portadores de transtornos mentais.



No caso das crianças, elas apresentam uma vulnerabilidade especial diante do desastre, não somente por sua fragilidade física, mas também pelo ineditismo da situação enfrentada, o que pode gerar angústias, medos e traumas. Além do mais, a idade de desenvolvimento também pesa: “A Estratégia Internacional para a Redução de Desastres (EIRD/ ONU) afirma que as crianças que experimentam um evento traumático antes dos 11 anos têm três vezes mais probabilidade de desenvolver sintomas psicológicos do que aqueles que vivem seu primeiro trauma sendo adolescentes ou adultos” (Pavan, 2009, p. 111).


O papel do psicólogo seria, juntamente com os pais, prover a criança de informação sobre a situação, não minimizando sua gravidade, mas colocando a possibilidade da recuperação, inclusive com pequenas tarefas que ela pode exercer. Se a criança estiver se sentindo culpada por algum motivo, dirimir esse seu sentimento de culpa, escutando sua narrativa sobre o acontecido.


Outro aspecto importante a ser levado em conta pelo psicólogo atuando em catástrofes é que, apesar de os efeitos físicos de uma catástrofe geralmente serem aparentes (mortes, casas destruídas, vilas inteiras soterradas ou arrastadas pelo vento ou pela água), os efeitos emocionais são mais difíceis de serem percebidos: medo, ansiedade, culpa, depressão e diversos outros sintomas podem passar despercidos- mesmo quando continuam por algum tempo depois do desastre-, acometendo as vítimas e a equipe de socorro.


Alguns dos efeitos emocionais ocorrem em resposta à vivência da situação de desastre, outros são respostas a longo prazo para os efeitos físicos, econômicos e socias causados por essa situação. A possibilidade desses efeitos ocorrerem, tanto durante quando após o desastre, pode ser diminúida se houver intervenção de profissionas habilitados para isso.


Talvez o choque principal sofrido pela sujeito no momento do desastre e num tempo razoável após sua ocorrência seja em relação ao desespero de ter perdido pessoas importantes e recursos materias imprescindíveis, o que pode levar ainda à desesperança, raiva, desconfiança, impotência e inconformismo, afetando a saúde mental da pessoa exposta ao desastre.


Como essas consequências oriundas da vivência do desastre podem apresentar variações culturais, religiosas, e outras, compreender essas nuances é importante para o profissional de saúde mental atuar no tratamento dos sintomas ou mesmo no planejamento de ações de prevenção a desastres e catástrofes. Assim como também se deve levar em conta os padrões de estrutura familiar e as divisões de classe, principalmente para as soluções a curto prazo pós-desastre, como por exemplo na oorganização do alojamento das pessoas que perderam suas casas. No Brasil, com profissionais brasileiros atuando, não creio que isso seja um problema maior, pois as variações culturais entre as regiões não são significativas nesse caso.


Alguns efeitos psicológicos consideráveis não aparecem senão depois de um tempo razoável do desastre ter acontecido, quando as pessoas começam a perceber melhor o que realmente ocorreu e algumas lembranças recomeçam a aparecer. É o momento em que surgem as depressões e ansiedades, não raro ocorrendo tentativas de suicídio (Ehrenreich, 2001, p. 12). Por isso é importante os profissionais se colocarem à disposição para uma busca de ajuda mesmo depois de terminado o trabalho de resgate.


Alguns fatores podem aumentar as possilidades de consequências psicológicas em pessoas que passaram por situações de desastres e devem ser levadas em conta nas ações de prevenção: a gravidade e o tipo de acidente, treinamento da população para sua ocorrência, vulnerabilidade social e econômica da população, etc. Por outro lado, existem fatores que diminuem a possibilidade da ocorrência desses transtornos, por exemplo o sujeito possuir uma rede importante de apoio social (família, igreja, amigos), experiência anterior com outros desastres, maiores possibilidades econômicas para se recuperar das perdas materiais, etc.


A grande maioria dessas respostas é normal nesses momentos de sobrecarga emocional, não podendo ser consideradas como transtornos mentais (e as próprias pessoas que as apresentam devem ser orientadas com relação a isso, pois podem pensar que estão enlouquecendo). É um sofrimento importante, mas deve ser contextualizado e pode até mesmo estar funcionando como um mecanismo de adaptação àquela situação difícil, física e emocionalmente. No entanto, o profissional deve oferecer assistência para diminuir as situações de pânico, desorientação e aflição, até para que as pessoas possam recuperar o controle e cooperar adequadamente no seu resgate e na segurança da comunidade. Essa assistência pode incluir conforto e consolo para as vítimas, ajudá-las a se reunir com suas famílias e sua comunidade, acompanhamento na identificação de mortos, busca por vaga em alojamentos, etc.


O psicólogo pode ainda oferecer auxílio durante e após o desastre na divulgação de informações corretas a respeito dos fatos, por exemplo, dirimindo boatos que podem atrapalhar o trabalho da equipe de resgate (boatos sobre saques, arrastões e vendas de órgãos dos mortos não comuns de serem espalhados). Pode ainda informar sobre a regulação dos alojamentos, a divisão das tarefas, sobre questões de higiene, alimentação, etc.


A destruição da própria comunidade onde o sujeito estava inserido é outra consequência dos desastres e das catástrofes: laços de amizade são rompidos, grupos de trabalho são desfeitos, comunidades religiosas deixam de existir. Ou seja, a identidade social do sujeito pode ser rompida e esse fato merece atenção dos profissionais de saúde mental que estão atuando nessa situação.


Outra possibilidade de atuação do psicólogo é no trabalho de saúde mental com a equipe de resgate, já que ela pode sofrer com essa experiência (retirada de corpos, longas horas sem dormir, identificação com as vítimas, sentimento de impotência e culpa, exposição à raiva e aparente ausência de gratidão das vítimas acabam sobrecarregando a capacidade de lidar com a situação) e merecem os mesmos cuidados psicológicos que os moradores do local. É preciso lembrar que mesmo nesses trabalhadores os efeitos podem ocorrer em longo prazo.


No caso da relação da equipe com a população durante o resgate, o psicólogo pode atuar no fortalecimento dos laços de cooperação, melhorar a confiança entre eles e aproximando a equipe com as lideranças locais. Isso não somente pode aumentar a efetividade do resgate durante o desastre atual como também ajudar na prevenção de desastres futuros (por exemplo, a equipe de resgate e os líderes locais podem ser treinados sobre as conseqüências psicológicas do enfrentamento dos desastres e até poder ajudar nessas situações).


A intervenção (com toda a ideologia que essa palavra pode carregar) do psicólogo no momento de crise pode ser realizada utilizando-se de um “conjunto de técnicas que visam a ajudar a pessoa em crise a adquirir controle sobre essa situação crítica. O apoio e a ajuda focada para tal momento podem evitar problemas posteriores. A intervenção em crise pode ser focada em uma pessoa, várias pessoas juntas ou em pequenos grupos (incluindo uma unidade familiar)” (Ehrenreich, 2001, p. 65). Identificar primeiramente os elementos da crise, clarificando-os para a pessoa ou grupo, levar a pessoa ou grupo a desenvolver estratégias de solução dos problemas e se mobilizar para essa solução são as etapas desse tipo de intervenção que pode ser utilizada durante os desastres.


É preciso lembrar que não somente os diretamente afetados pelo desastre (população local e equipe de resgate) podem ter reações psicológicas que precisam receber atenção. Nesse sentido uma rede de saúde mental pode ser acionada a ficar de prontidão na cidade e até em outros locais mais distantes para acompanhar esses casos.


Rodrigo Molina (Molina, 2006, p. 59) apresenta uma taxonomia do nível de vítimas, diferentes níveis de vitimização, de acordo com a proximidade dessas pessoas com o evento. Os níveis são os seguintes:
– Primeiro nível: pessoas que sofrem o impacto direto do desastre;
– Segundo nível: familiares diretos das vítimas do primeiro nível;
– Terceiro nível: integrantes das equipes de primeira resposta;
– Quarto nível: a comunidade envolvida no desastre;
– Quinto nível: aquelas que ficam sabendo do acontecimento;
– Sexto nível: aqueles que deveriam estar, mas não estavam no lugar do evento por diversos motivos.


3- Psicologia dos desastres e das catástrofes e resiliência


A primeira coisa a deixar clara é que resiliência não é a mera recuperação que o sujeito (indivíduo ou comunidade) consegue realizar após alguma adversidade, seja de que intensidade for. Recuperar-se de uma situação única, situada no tempo, não quer dizer que o sujeito tenha sido resiliente. Resiliência é sim a capacidade de se sair bem, e até melhor, de uma situação que pode extrapolar a capacidade do sujeito de lidar com as conseqüências físicas e psicológicas durante ou após essa situação, mas ela apresenta algumas características que fogem ao situacional e ao temporal.


O termo recuperação conota uma trajetória em que o funcionamento normal temporariamente dá lugar a psicopatologias aparentes ou latentes, geralmente por um período de vários meses e depois retorna ao nível anterior ao evento que causou a disfunção. Uma recuperação completa pode ser relativamente rápida ou pode demorar vários anos.


Em contrapartida, a resiliência reflete a capacidade de manter um equilíbrio estável e não é a simples ausência de psicopatologia. “Para julgar resiliência deve-se decidir (1) se o sujeito tem se exposto ao risco ou a uma adversidade significante e (2) se o sujeito (indivíduo ou comunidade) está funcionando efetivamente e fazendo o que lhe é esperado” (Masten & Obradovic, 1998, p3).


Uma revisão das pesquisas disponíveis sobre perda, violência e eventos que oferecem risco de morte indica claramente que a grande maioria de sujeitos expostos a tais eventos não apresentam perfis de sintomas crônicos e que muitos, em alguns casos a maioria, mostra um tipo de funcionamento saudável sugestivo de resiliência (Bonanno, 2004, p.3). Isso pode, contraditariamente, levar à crença de que essas pessoas que não apresentam transtornos após desastres, por exemplo, estariam justamente apresentando algum tipo de problema, por não reagirem como as pessoas esperam que elas reajissem.


Na verdade, estudos demonstram que a reação mais comum em face de desastres é a não apresentação de nenhum sintoma denotando transtorno psicológico (ansiedade, depressão, culpa, medo, etc), o que contraria o esperado por cientistas e leigos (Bonanno, 2005, p. 2).


Mudar percepções, compreensões, recursos, papéis e responsabilidades de todos relacionados ao desenvolvimento aumentam a probabilidade de influenciar a reação do ser humano para as catástrofes. Preparar uma vasta população para qualquer tipo de desastre requer uma perspectiva desenvolvimental em resiliência humana, risco e vulnerabilidade, assim como a integração de idéias sobre resiliência das ciências da comunicação, engenharia, computação, saúde pública, ecologia, etc.


Experiências e respostas das pessoas serão influenciadas pelo funcionamento dos sistemas em que elas estão incorporadas, e particularmente pelo comportamento das pessoas em quem elas confiam ou que funcionam como segurança em uma relação de apego. Todo planejamento para o desastre deve levar em conta o sistema de vinculação e como tais relacionamentos são prováveis de motivar comportamentos e proverem um sentido de segurança ao sujeito. Esse sistema de vinculação, além de ser importante principalmente para as crianças poderem recuperar-se psicologicamente de situações de adversidade, é um fator que pode proporcionar resiliência a essas crianças.


A resiliência individual (capacidade de resposta às situações de adversidade) pode ser incrementada se o indivíduo estiver inserido em uma comunidade resiliente, que pode ser avaliada levando-se em conta se ela consegue realizar uma análise crítica da situação, se estabelece redes de instituições solidárias de resposta aos problemas, se conta com a existência de normas e regras de convivência e se o espaço grupal é multiplicador dos fatores protetores que conduzem a comportamentos resilientes. Isso permite o estabelecimento de um processo dialético entre resiliência individual e resiliência comunitária, permitindo ao indivíduo reconhecer os pontos fortes da comunidade e se aproveitar deles.



BIBLIOGRAFIA



BONANNO, George, Loss and trauma, and human resilience, in American Psychologist, vol. 59, No. 1, 10-28, 2004;



BONANNO, George, Resilience in the Face of Potential Trauma, in American Psychologist, volume 14, number 3, 2005;



EHRENRECIH, John, Coping with disasters: a guidebook to psychosocial intervention, State University of New York, 2001;



GÓMEZ, Claudia, Saúde mental na gestão dos desastres: intervenção no cotidiano e nos eventos, in Seminário Nacional de Psicologia das emergências e dos desastres, Conselho Federal de Psicologia, Brasília, 2006;



MINISTÉRIO DA INTEGRAÇÃO NACIONAL, Política Nacional de Defesa Civil, Brasília, 2008;



MOLINA, Rodrigo, Psicologia das emergências e dos desastres: uma área em construção, in Seminário Nacional de Psicologia das emergências e dos desastres, Conselho Federal de Psicologia, Brasília, 2006;



ORGANIZAÇAO MUNDIAL DA SAÚDE, A atuação do pessoal local de saúde e da comunidade frente aos desastres naturais, Genebra, 1989;



PAVAN, Beatriz JC, O olhar da criança sobre o desastre: uma análise baseada em desenhos, in Valencio, Norma Et all (organizadores) Sociologia dos desastres, versão eletrônica, 2009;



MASTEN, Ann & OBRADOVIC, Jelena, Disaster preparation and recovery: lessons from research on resilience in human development, Ecology and Society 13(1): 9.



VARGAS, Dora, A Construção social da moradia de risco, in Valencio, Norma Et all (organizadores) Sociologia dos desastres, versão eletrônica, 2009.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Resiliência e Espiritualidade

Fatores de risco e fatores de proteção

O ser humano está inserido em cotidianos que oferecem diversos tipos de riscos, que podem ser maiores ou menores levando-se em conta o gênero, a classe social, a escolaridade e a política do lugar onde vive. Para se opor a esses riscos podem-se apresentar a ele diversos tipos de fatores de proteção: individuais (competência social, habilidade para solução de problemas, autonomia, sentido de objetivo e de futuro, etc), familiares (valores, cuidado, comunicação, etc) e sociais (saúde, educação, emprego, segurança, etc) dos quais ele pode fazer uso para superar as adversidades. Como o ser humano está inserido num mundo de fenômenos sociais, biológicos, psicológicos e espirituais, a espiritualidade (e as consequências dela) também se oferece como um fator de proteção, fazendo frente a diversos fatores de risco.

O que é espiritualidade

A primeira coisa a deixar claro é que espiritualidade é diferente de religião; melhor dito, ela é composta pela religião, ou seja, a religião é somente uma manifestação possível da espiritualidade. Assim, a espiritualidade não deve ser confundida com religião de qualquer tipo, não sendo essa necessária ao exercício daquela.

A espiritualidade é composta por um sistema de compartilhamento de valores, crenças, normas, diretrizes, geralmente dando sentido aos eventos que ocorrem no mundo (compreensíveis e não compreensíveis), principalmente aos eventos desafiadores; em relação a estes, permite obter-se confiança e otimismo no seu enfrentamento. Espiritualidade também permite ao sujeito compreender quando não pode levar uma tarefa adiante, a desistir do que não consegue ter controle.

A espiritualidade pode ser explicitada através do discurso e de rituais, compondo manifestações de fé, comunhão, expressando os valores, propostas e objetivos de vida, inspirando visão de futuro e de superação. Essas manifestações são suportadas por tradições culturais e religiosas, por ídolos e figuras míticas da história de vida do sujeito (indivíduo, família e comunidade).

Quanto à religião, está integrada na cultura, fazendo parte do dia-a-dia das pessoas, se manifestando tanto no público quanto no privado (dependendo da cultura e do desenvolvimento econômico e político local). Essa integração na cultura faz com que a religião gere crenças pessoais (otimismo, auto-estima, direção ao futuro), familiares (normas, crenças e ritos e valores espirituais) e comunitárias (normas, ritos e mitos, valores), facilitando seu circular pelo mundo.

Função da espiritualidade

A espiritualidade faz com que o sujeito entenda que as coisas não acontecem ao acaso, que descubra sentido e coerência na vida e sentido de propósito de futuro. Tendo caráter multidimensional e sendo dependente de recursos internos do sujeito, pode ser exercida de forma coerente ou não, de forma mais ou menos racional, sendo benéfica ou prejudicial ao sujeito.

A espiritualidade pode dar um sentido profundo à vida, um sentido de pertencimento a um todo maior, uma esperança abrangente que prevalece sobre tudo, tendo como base uma segurança íntima a partir do contato com o transcendente. Ela permite apreender a realidade com maior profundidade (mesmo as que ultrapassam nossa experiência física imediata), dando outro sentido às coisas que nos acontecem e que acontecem no mundo. Enfim, esse sentido da vida e motivos para viver derivados da espiritualidade permite ao sujeito encarar a realidade com mais otimismo, força interna e saúde em geral.

Espiritualidade e resiliência

Podemos afirmar que crenças globais (crenças religiosas, otimismo, motivação para a tarefa) podem funcionar como fatores de proteção, diminuindo o estresse frente aos riscos e aumentando a efetividade de enfrentamento das situações desafiadoras. O estabelecimento de laços sociais, espirituais e culturais permite buscar suportes, quando necessário, nos momentos de adversidade. A simples crença no transcendente, fazer parte de uma comunidade de fé, em que todos se suportam nos momentos de adversidade, possibilita um enfrentamento mais saudável e não isolado da situações difíceis, permitindo ao sujeito (indivíduo, família, comunidade) momentos de resiliência. Sujeitos mais resilientes estão mais ligados à espiritualidade e se declaram mais vinculados a algum tipo de religião.

Quanto à inserção religiosa, fazer parte de um grupo religioso possibilita que o sujeito tenha ajuda material (alimentos, roupas, emprego, empréstimos financeiros), social (rede de relações, regras, normas e práticas), emocional (sentido positivo da vida, otimismo, coerência) e espiritual (sentido transcendente, estabilidade na fé e orientação de vida). O grupo religioso pode fazer parte de um ambiente facilitador (juntamente com recursos pessoais, habilidades sociais e aspectos familiares), favorecendo a possibilidade de o sujeito recuperar-se de uma adversidade de uma forma mais saudável.

Além do mais, a ligação com líderes religiosos podem promover uma base segura (normas, regras e valores) ou vínculo afetivo (apoio emocional e espiritual). Tanto a religião quantos os líderes religiosos clamam pela responsabilidade e solidariedade e esse cotidiano sócio-espiritual sustenta uma rede cultural e social ampla de valores, dando segurança e sentido de pertencimento e conexão com outras pessoas, famílias e comunidades. Como complemento, os rituais tradicionais (incluindo a presença de entidades supernaturais – ancestrais, por exemplo, permitindo uma identidade étnica) estão associados a uma maior resiliência.

Pesquisas

Muitas pesquisas foram realizadas apontando a importância da espiritualidade e da religião no sentido de permitir uma saúde geral para o sujeito e aumentando sua inserção social e cultural na comunidade. No entanto, pesquisas ainda precisam ser feitas, por exemplo, para indicar se a espiritualidade e seu exercício efetivamente protegem jovens contra delinquência e violência, se é possível desenvolver competência espiritual para se desenvolver resiliência e se a espiritualidade e a religião e o apoio da igreja realmente funcionam como promotores de resiliência.

domingo, 28 de novembro de 2010

As quatro ondas da pesquisa sobre resiliência

“Seguiram-se três ondas de investigação sobre a capacidade de resiliência no desenvolvimento humano, e uma quarta onda está agora em andamento. A primeira onda focava em descrição, com um investimento considerável em definir e medir a resiliência e na identificação das diferenças entre aqueles que se saíam bem e os que se saíam mal no contexto de adversidade ou risco de vários tipos. Essa primeira onda de investigação revelou um surpreendente grau de consistência nas qualidades pessoais, relacionamentos e recursos que previram resiliência, e estes potenciais fatores protetores mostraram forte poder de permanência em ondas posteriores da investigação.

A segunda onda mudou da descrição dos fatores ou variáveis associadas à capacidade de resiliência a um foco em processos, a perguntas tipo ´como´, com o objetivo de identificar e compreender processos específicos que podem levar à resiliência. Esse tipo de pesquisa continuou, embora com o aumento da atenção a múltiplos níveis de análise e processos neurobiológicos.

A terceira onda começou com esforços para testar idéias sobre processos de resiliência através de intervenção, mais notavelmente em experiências para promover a resiliência impulsionando processos de promoção ou de proteção, tais como parentalidade eficaz, engajamento escolar, e, mais recentemente, as habilidades de função executora.

A quarta onda dos estudos sobre resiliência é a integrativa, buscando englobar rápidos avanços no estudo dos genes, desenvolvimento neuro-comportamental e estatística para uma melhor compreensão dos complexos processos que levam à resiliência. Os estudos de quarta onda tem, por exemplo, explorado o papel dos polimorfismos genéticos como moderadores (vulnerabilidade ou influências protetoras) do risco ou da adversidade no desenvolvimento e o papel da plasticidade neural na resiliência.

Perspectivas de desenvolvimento desempenharam um papel central desde o início da investigação moderna sobre resiliência. A história da ciência da resiliência está intimamente ligada à história do surgimento da psicopatologia do desenvolvimento como uma estrutura para a compreensão e investigação dos problemas de comportamento humano ao longo da vida. Esses domínios inter-relacionados de atividades conceituais e empíricas compartilham muitas raízes e investigadores, bem como o foco principal no desenvolvimento. Estudiosos que estavam interessados na etiologia da psicopatologia (incluindo os pioneiros do estudo da resiliência) se interessavam em seguir o curso de desenvolvimento com relação à adaptação positiva e negativa. Muitos destes estudos, particularmente as investigações longitudinais, começaram na infância ou adolescência, épocas em que podem ocorrer mudanças rápidas, e ficou claro que uma perspectiva de desenvolvimento era útil e importante. Outra consequência desta história é que uma grande parte da pesquisa inicial sobre resiliência focalizava os anos mais precoces da existência do sujeito, embora alguns investigadores sempre focassem na adaptação positiva na vida adulta". (Ann S. Masten and Margaret O’Dougherty Wright, Resilience over the Lifespan, Developmental Perspectives on Resistance, Recovery, and Transformation, Handbook of Adult Resilience, ed. by John W. Reich, 2009 )

Abaixo o texto original

Three waves of research on resilience in human development followed, and a fourth wave is now under way (Masten, 2007; Wright & Masten, 2005). The first wave focused on description, with considerable investment in defining and measuring resilience, and in the identification of differences between those who did well and poorly in the context of adversity or risk of various kinds. This first wave of research revealed a surprising degree of consistency in qualities of people, relationships, and resources that predicted resilience, and these potential protective factors have shown robust staying power in later waves of research. The second wave moved beyond description of the factors or variables associated with resilience to a focus on processes, the “how” questions, aiming to identify and understand specific processes that might lead to resilience. This kind of research has continued, although with increasing attention to multiple levels of analysis and neurobiological processes (Cicchetti & Curtis, 2007). The third wave began with efforts to test ideas about resilience processes through intervention, most notably in experiments to promote resilience by boosting promotive or protective processes, such as effective parenting (e.g., Forgatch & DeGarmo, 1999; Wolchik et al., 2002), school engagement (e.g., Hawkins, Catalano, Kosterman, Abbott, & Hill, 1999), and more recently, executive function skills (Diamond, Barnett, Thomas, & Munro, 2007; Rueda, Rothbart, McCandless, Saccomanno, & Posner, 2005). The fourth wave of resilience studies is integrative, seeking to encompass rapid advances in the study of genes, neurobehavioral development, and statistics for a better understanding of the complex processes that lead to resilience (Masten, 2007). Fourth-wave studies, for example, have explored the role of genetic polymorphisms as moderators (vulnerability or protective influences) of risk or adversity in development (Kim-Cohen & Gold, 2009) and the role of neural plasticity in resilience (Cicchetti & Curtis, 2006, 2007).

Developmental perspectives played a central role from the outset of modern resilience research. The history of resilience science is closely linked to the history of the emergence of developmental psychopathology as a framework for understanding and investigating problems of human behavior over the life course (Cicchetti, 2006; Masten, 1989, 2006a). These interrelated domains of conceptual and empirical activity share many roots and investigators, as well as a core focus on development. Scholars who were interested in the etiology of psychopathology (including those who pioneered the study of resilience) were interested in following the course of development with respect to positive and negative adaptation. Many of these studies, particularly the longitudinal investigations, began in childhood or adolescence, when there is often rapid change, and it was clear that a developmental perspective was helpful and important. Another consequence of this history is that a large proportion of the initial research on resilience focused on the earlier part of the lifespan, although
some investigators always focused on positive adaptation in later life (e.g., Rowe & Kahn, 1987; Vaillant, 1977, 2002).

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O humor como fator de resiliência

Quando se analisa a resiliência (não necessariamente pessoas resilientes), pode se observar que ela é fruto de um multivariado sistema de crenças, atitudes, movimentos, memória, afetos (no sentido de afetar e ser afetado). Esse sistema, por sua vez, é fruto de fatores individuais (inteligência, bom humor, espiritualidade, competência, sociabilidade, auto-estima, etc) e sociais (família continente, escola acolhedora, rituais comunitários e religiosos, certa quantidade de amigos, perspectivas de futuro, etc). Essa junção de características individuais e sociais que se tornam fatores de proteção faz com que o sujeito consiga superar as adversidades com maior facilidade e, apesar de ser ferido por elas, consegue aprender e muitas vezes se sair melhor do que estava antes.

Dentre esses fatores de proteção o senso de humor pode representar um grande aliado com relação à perspectiva lançada sobre as adversidades. É uma perspectiva porque cada sujeito reage diferentemente a cada problema, e o mesmo sujeito poder reagir diferentemente ao mesmo problema em cada época e em cada contexto de sua vida. Essa forma de reagir é importante, pois ela dá o tom do enfrentamento (coping) que o sujeito realiza em relação à adversidade, aumentando sua chance de superação. Mas como o humor ajudaria nisso?

O humor é um procedimento defensivo, agindo como fator de proteção, uma espécie de ajustamento psíquico, ajudando na aceitação madura dos fatos da vida, perspectivando as adversidades, permitindo ao sujeito tomar distância dos problemas, observando-os com outro olhar e encontrando soluções adequadas para eles. Essa perspectiva permite que o problema seja encarado de forma não trágica, mas sim de forma dramática, enlaçando o sujeito e tornando-o ator da situação, ou seja, alguém que sofre, mas também pode atuar na sua solução. Trata-se de transformar uma percepção que machuca em representação que faz sorrir, segundo Cyrulnik, em encontrar aspectos positivos em situações que nem imaginávamos que pudessem existir.

Essa passagem da tragédia (algo determinado e sem solução aparente, que leva à paralisia operante) ao drama (ação e possibilidade de mudanças) pode ser tanto causa como consequência da resiliência (difícil definir quando é uma coisa e outra).

A possibilidade de usar o humor (ou seu sentido) como arrefecimento da desgraça, da dor, ocorre desde a infância e geralmente é grafada, “ensinada” pelos pais. A mãe que assopra o machucado da criança e diz que “já passou” transforma a dor (tragédia) em uma cena dramática carregada de outro sentido, o que alivia a sensação da criança, transformando a situação em algo mais suportável, positiva, marcada pelo afeto. Essas cenas são gravadas pela criança e usadas mais tarde como molde frente às situações difíceis, tornando-as risíveis e mais leves.

Ser bem humorado facilita os relacionamentos, atrai mais pessoas, mas também exige um gasto maior de energia. Enfrentar todas as situações de bom humor e conseguir reduzir as tensões das situações conflituosas não é para todos. Rir de sua própria desgraça é uma arte e quem consegue isso ganha uma força interior maior. Essa capacidade de usar o humor é bem vinda no mundo dos adultos, mas não é bem vista por todos. E há pessoas que usam o humor somente como defesa, de forma destrutiva, atacando os outros de forma irônica, tentando obter algum ganho com isso; não creio que esse tipo de humor seja o que leva a pessoa a se tornar resiliente: pode até reduzir suas tensões internas com essas atitudes, mas também estará afastando as pessoas de seu convívio.

Existem muitas teorias (psicológicas, sociológicas, filosóficas) que explicam o humor e sua função e algumas delas até podem “ensinar” as pessoas a serem bom humoradas, a usar o senso de humor a seu favor, mas creio que isso tem que vir desde criança mesmo. Um dia escrevo um pouco mais sobre essas teorias.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A resiliência dos mineiros chilenos

Como não poderia deixar de ser, tem muita gente comentando sobre a resiliência dos mineiros chilenos, a capacidade de superação que apresentaram em meio a tanta adversidade. Apesar de tudo, se mantiveram otimistas, cuidaram da saúde e acreditaram em algo superior a eles. Outro fator que deve ter contribuído bastante para terem suportado tanto tempo aquela situação foi a confiança em um líder, de quem acatavam as regras para a convivência e acreditavam que os conduziriam para fora daquele local.
O vídeo abaixo foi realizado no dia 26 de agosto, três dias depois de se descobrir que ainda estavam vivos.


segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Off Topic: Viagem a Buenos Aires – Apontamentos Pessoais

- Haviam me dito que há mais livrarias em Buenos Aires que no Brasil inteiro. O que observei é que há poucas livrarias grandes, com grande oferta de títulos. O que há são pequenas livrarias, muitas especializadas, e livrarias que são na verdade apenas papelarias. No entanto, gostei de duas grandes livrarias, onde encontrei títulos sobre resiliência em espanhol; uma delas tinha até uma estantezinha própria sobre esse tema, mas com pouca diversidade de títulos.
- Em Buenos Aires não há hipermercados, mas sim pequenos mercados, geralmente controlados por chineses, ofertando de tudo: produtos enlatados, verduras e legumes, bebidas, produtos de limpeza, etc. Há uma rede de mercado francesa presente, mas somente com lojas tipo express.
- Pelas minhas andanças vi apenas duas academias. E não se pode dizer que quem mora em BsAs esteja exatamente dentro do peso médio....
- Nos restaurantes não encontrei feijão; arroz também é coisa rara. Parece que o povo retira todo carbohidrato que precisa de batatas e trigo (pães e massas). Também senti o tempero (salsa) um tanto fraco, parece que falta sal.
- Em um restaurante pedi “sopa inglesa” pensando que seria uma sopa de legumes, mas o que veio foi um doce parecido com bolo. Não tinha reparado que estava na lista de postres (sobremesas).
- Buenos Aires não parece ser uma cidade envelhecida, vi pouca concentração de idosos. Com relação aos jovens, percebi que não usam muito jeans, não usam boné e nem gel no cabelo, comparados com os de São Paulo, é claro.
- Vi poucos negros em BsAs (resultado do “ar” europeu e da falta de tráfico de escravos negros para lá?).
- Apesar deles comerem pizza em qualquer lugar e em qualquer momento, não vi muita oferta de azeite nas mesas. Também não vi ketchup e mostarda.
- Cerveja os portenhos não tomam nas mesas em copo como nós. Eles compram uma garrafa grande e ficam bebendo do gargalho pelas ruas. Depois descartam a garrafa em qualquer lugar. As mesas foram feitas para o vinho e para o café. O primeiro bom e barato; o segundo, apenas bom.
- O refrigerante que reina é a coca-cola, com anúncios em todos os lugares. E é cara, cerca de 9 pesos (4,50 reais). Água engarrafada está quase o mesmo preço da coca.
- Os moradores de rua começam a aparecer à noite. Eu os vi mais no Centro da Cidade. Flanelinhas também vi alguns, principalmente próximos do Obelisco. Serão portenhos ou de países vizinhos?
- Os argentinos gostam muito de hóquei. Na semana passada estava sendo finalizado um campeonato mundial de hóquei na grama feminino.
- O trânsito é tranqüilo comparado com o de São Paulo. As avenidas são largas e arborizadas. O que notei foi que mesmo quando o farol fica verde para o pedestre ocorre conflito, pois também fica verde para os carros que vem da direita. No entanto, os motoristas dão preferência para quem está a pé para cruzar a via.
- Durante a semana senti a cidade meio vazia à noite, ao contrário do fim de semana, quando a cidade enche de dia e de noite.
- Quase não tem policiamento na rua... precisa? Vi relato de alguns crimes pela TV.
- Não vi postos de saúde e hospitais. Não sei como é o sistema de saúde em BsAs.
- A economia da Argentina tem certa dependência do Brasil. E eles estão contentes com o crescimento da economia brasileira, apesar de nesse momento mais importarem produtos do que exportarem para o Brasil.
- O transporte público é precário, a frota de ônibus é antiga e mal cuidada. Mas tem linhas para todos os pontos da cidade. Não andei de ônibus e nem mesmo de taxi. Preferi percorrer a cidade a pé. Andei um pouco de metrô, que também é antigo (primeira linha é de 1913!), que também está um tanto mal cuidado e com sujeira (a pior é a linha Retiro-Constitución). A passagem é barata (1,10 pesos = 55 centavos de real), parcialmente subsidiada pelo Estado).
- Há muitos cães em BsAs, mas poucos donos recolhem o cocô, que ficam pelas calçadas.
- Os homens se beijam no rosto para se cumprimentarem com uma tranqüilidade bem maior que a dos brasileiros.

sábado, 7 de agosto de 2010

RESILIÊNCIA E IDEOLOGIA

Quando pensamos no conceito de resiliência, ou mais exatamente em suas definições, devemos tomar cuidado com suas armadilhas, muitas vezes imperceptíveis, e que precisam ser clareadas e evitadas. Se bem que resiliência possa ser definida de diversas formas, dependendo da “corrente” que estuda e aplica esse conceito, da área em que é aplicada (nos campos comportamental, cognitivo, social e educacional da psicologia, psicologia positiva, psicologia do desenvolvimento, administração, teoria do trauma, teoria dos desastres, etologia, auto-ajuda e tantos outros), temos que estar atentos às formulações, e, portanto, nas suas aplicações que podem levar a uma estereotipia, à discriminação, a um “status quo”, que no seu conjunto poderíamos denominar de ideologia, seja a ideologia subjacente ao conceito, seja quanto à ideologia presente na avaliação de pessoas “resilientes” (como competentes e não competentes, adaptadas ou não adaptadas), seja na aplicação de projetos de adaptação de pessoas e comunidades ao pensamento corrente, ideologicamente bipartida, essa adaptação, em “vencedores” e “perdedores”.

Quanto à ideologia subjacente ao conceito de resiliência, o pensamento vulgar tende a intensificar a idéia de que resiliência é uma habilidade facilmente reconhecível (ou sua presença ou sua ausência), através de características na sua maior parte próprias do indivíduo (esquecendo o sujeito social e moral), por suas manifestações psicológicas, emocionais e sociais (inteligente, sociável, otimista, humorado, religioso, negociador, esforçado, etc), situados em um único ponto de sua vida (negando, além do contexto, a história de vida do sujeito). Extrair o indivíduo do seu meio e classificá-lo é um erro crasso, pois nos impede de enxergar suas habilidades “in loco”. Esse erro não é cometido somente por pessoas leigas, mas também por estudiosos que não avaliam essa questão de uma forma muito clara.

Também é afirmado que é possível desenvolver-se resiliência nos indivíduos (até mesmo em cursos que podem durar somente algumas horas!), apontando não só que esses indivíduos não são resilientes, mas também que precisam ser! Nesse caso, está claro que ser resiliente aqui é sinônimo de vencedor e competente e não resiliente quer dizer perdedor e não competente, reforçando essa bipolaridade em prol de um e em prejuízo do outro. Claro que é possível, e necessário, promover a resiliência, mas não se faz isso dizendo ao indivíduo sobre como ele deve agir, no que ele deve investir, e sim mostrando a ele como o ambiente em que vive (de trabalho, familiar, religioso, de lazer) e como alguns traços de sua personalidade influenciam na sua capacidade de enfrentar as adversidades, que esse ambiente deve mudar junto com ele, o que nem sempre é possível, e que sua resiliência é fruto de sua história de vida e da história social do meio onde vive e circula. Ou seja, que resiliente é menos o indivíduo e mais sua evolução e sua historização.

No que diz respeito à ideologia que aparece na avaliação de competências, o perigo aqui é o de novamente ser subestimado o ambiente em que o sujeito vive. Não é coerente comparar, nessa avaliação, um sujeito de um determinado contexto com outro de um contexto totalmente diferente. Por exemplo, comparar as habilidades de um adolescente pobre com um adolescente rico e dizer que aquele é menos resiliente que este é apontar uma ideologia de dominação que vige em nossa sociedade, de uma visão dos ricos sobre os pobres, do “norte sobre o sul”. É possível que aquele adolescente pobre com menos habilidades seja resiliente na sua comunidade e que o adolescente rico, mesmo com suas habilidades, seja considerado não resiliente no seu meio social. Se as qualidades que levam um indivíduo a ser caracterizado como resiliente são aquelas que se baseiam em seus comportamentos observáveis e que estão ou não de acordo com a ordem estabelecida socialmente, corremos sério risco de taxar de não resiliente aqueles que são rebeldes, questionam as ordens, as leis e as injustiças sociais, muitas dessas atitudes que não são aplaudidas pelo público e muitas vezes tecnicamente catalogadas de patológicas, refletindo uma visão do dominador sobre o dominado (o adolescente, pela sua dinâmica, corre seriamente esse risco!). E, talvez pior de tudo, que resiliente seria o indivíduo acomodado a essas diferentes condições de exploração, abuso, negligência e dominação na sociedade. Assim, dentro dessa visão, pode ocorrer um sério risco de o indivíduo que não estiver inserido dentro de um modelo de família vigente (heteronormativa, nuclear, etc), que não esteja de acordo com todos as crenças de sua comunidade ou que não estabeleça laços sociais considerados saudáveis ser taxado de não competente, não adaptado e não resiliente.

E não devemos esquecer que essas avaliações de competências (sociais, familiares, acadêmicas, emocionais, etc) geralmente são realizadas por profissionais que não deixam de repetir de certa forma a ideologia vigente na sociedade, ou seja, pode ocorrer aí um viés na maneira como enxergam o comportamento do indivíduo dentro da ótica das normas vigentes, podendo até mesmo aparecer uma visão deturpada daqueles que sucumbem como tendo alguma deficiência ou estando fragilizados, sendo seus fracassos na superação das adversidades atribuídos a uma fraca força de vontade ou pureza espiritual insuficientes. E é bom lembrar que uma avaliação do desenvolvimento do sujeito, dentro do chamado desenvolvimento normal, provém de pesquisas e escritos geralmente produzidos em sociedades desenvolvidas, com populações anglo-saxões, heteronormativas e dentro de determinadas culturas e que foram generalizadas para outras sociedades.

Outro mote ideológico na avaliação de resiliência é imaginar que os grupos focais para essa avaliação tenham que ser necessariamente aqueles grupos que supostamente possuem maiores riscos e se confrontam com maiores adversidade, e que, portanto, teriam um maior grau de sofrimento (e não raramente podendo ser vistos como uma ameaça para aquela sociedade onde se situam). Entre estes estariam os que vivem em comunidades pobres, os afro-descendentes ou de outras etnias que não a caucasiana, as chamadas famílias desestruturadas, os usuários de álcool e outras drogas e tantos outros grupos marginalizados. Não se pode dizer que os resilientes serão os mais fortes, os mais inteligentes, os mais bem nutridos e os melhores relacionados socialmente; essas qualidades podem não levar necessariamente à resiliência, enquanto que uma pessoa sem nenhum recurso pode ser obrigada a criar estratégias defensivas e buscar apoios nos mais diversos campos que a levam a se tornar resiliente. Nesse sentido, o espanto de leigos, e mesmo de pesquisadores, pelo número de pessoas resilientes que são encontradas nessas populações marginalizadas! E, em verdade, resiliência é algo muito comum, não se devendo imaginar que é resiliente quem somente tem todas as ferramentas, e as ideais, para superar as adversidades. Quando um sujeito não se torna resiliente, não quer dizer que ele é incompetente ou que se entrega aos seus problemas; quer dizer apenas que não encontrou em si mesmo e em seu ambiente as ferramentas para superar as adversidades de sua vida. A resiliência, assim, não é necessariamente o relato de sucesso, mas é a história do enfrentamento do sujeito com as adversidades que o confrontam. Resiliência não é estática, o sujeito não sendo resiliente o tempo todo e em todas as situações de adversidade. Portanto, é preciso reconhecer que mesmo os que sucumbem devem ter também suas qualidades reconhecidas e valorizadas.

O perigo maior parece estar na ideologia que carrega os projetos de aplicação de resiliência. Devemos, principalmente, ser cuidadosos para que o conceito de resiliência não seja usado para sustentar a ideologia vigente, usada meramente para a adaptação do sujeito (indivíduo ou comunidade) à sociedade, sem questionamentos quanto às iniqüidades que esse sujeito sofre, sem pensar também em mudar o meio social desse sujeito para diminuir sua vulnerabilidade e permitir que ele possa viver de forma mais saudável. Ou seja, a resiliência não deve ser usada como mais uma forma de legitimar a exploração capitalista e o aumento da desigualdade entre as pessoas. Ao se formular projetos de promoção de resiliência deve-se prestar atenção aos objetivos que procuram fomentar a equidade entre pessoas e comunidades, fortalecer os fatores de proteção, diminuir os riscos do sujeito e melhorar a qualidade de vida das pessoas.
Resta uma questão: qual a utilidade científica do conceito de resiliência, com todos esses senões, com todas as críticas teóricas e ideológicas que se faz contra ele? Mesmo com todos esses cuidados a tomar, a resiliência, na sua amplidão, pode ser usada de forma efetiva para teorizar, avaliar e promover as habilidades do sujeito no enfrentamento das adversidades. Mas como evitar essas armadilhas nesse processo?

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Conceito simplificado de resiliência

Apesar de discordar de algumas partes dessa conceitualização de resiliência, pois está focada somente no indivíduo e carrega um tanto de ideologia, esse vídeo em forma de slides torna fácil entender o que vem a ser esse conceito.

sábado, 3 de julho de 2010

O traumatismo e sua representação

De modo que todo estudo sobre a resiliência deveria abordar três planos:

1- Aquisição de recursos internos impregnados no temperamento, já nos primeiros anos, no decorrer das interações precoces pré-verbais, explicará a maneira de reagir diante das agressões da existência, estabelecendo tutores de desenvolvimento mais ou menos sólidos.

2- A estrutura da agressão explica os estágios do primeiro golpe, o ferimento ou a falta. Mas o significado que esse golpe irá adquirir mais tarde na história do ferido e em seu contexto familiar e social é que irá explicar os efeitos devastadores do segundo golpe, aquele que produz o traumatismo.

3- finalmente, a possibilidade de encontrar lugares de afeto, de atividades e de palavras que a sociedade dispõe, às vezes, em torno do ferido oferece os tutores de resiliência que lhe permitirão retomar um desenvolvimento inflectido pelo ferimento.

Esse conjunto, constituído por um temperamento pessoal, um significado cultural e um apoio social, explica a surpreendente variabilidade dos traumatismos.

(Boris Cyrulnik, Os Patinhos Feios, Ed. Martins Fontes, SP, 2004, p. 7, trad. Monica Stahel)

segunda-feira, 7 de junho de 2010

VISÕES SOBRE A RESILIÊNCIA


Durante todos esses anos de leitura, percebi que existem várias formas de se encarar a resiliência: como processo, como resultado, como conceito, como pesquisa, como enfoque, e muitos outros. Abaixo algumas dessas visões.
Resiliência como papel: o papel da resiliência é desenvolver a capacidade humana de enfrentar, vencer e sair fortalecido de situações adversas e transformado.
Resiliência como processo: a resiliência resulta da dinâmica entre os fatores de risco e os fatores de proteção
Resiliência como capacidade: resiliência força interna de superação das adversidades, numa relação constante entre o sujeito e seu meio.
Resiliência como conceito: resiliência como a capacidade de superação das adversidades.
Resiliência como estudo: pesquisa sobre o processo de superação em meio a adversidades.
Resiliência como promoção de processos: possibilidade de dispor para o sujeito fatores de proteção para que não sucumba em meio aos fatores de risco.
Resiliência como enfoque: nova forma de enxergar o sujeito em situação de risco, focando suas qualidades e potencialidades.
Resiliência como conduta: a forma como o sujeito supera as adversidades e se revigora com elas.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Resiliência como processo

“A noção de processo permite entender a adaptação resiliente em função da interação dinâmica entre múltiplos fatores de risco e de resiliência, os quais podem ser familiares, bioquímicos, fisiológicos, cognitivos, afetivos, biográficos, socioeconômicos, sociais e/ou culturais. A noção de processo descarta definitivamente a concepção de resiliência como um atributo pessoal e incorpora a idéia de que a adaptação positiva não é uma tarefa apenas da criança, mas que família, escola, comunidade e sociedade devem prover recursos para que a criança possa se desenvolver mais plenamente”
(Francisca Infante, A resiliência como processo: uma revisão da literatura recente, in Resiliência: descobrindo as próprias fortalezas, Aldo Melillo, Elbio Néstor Suárez Ojeda e Colaboradores, Ed. Artmed, Porto Alegre, 2005, p. 30, tradução de Valério Campos).

domingo, 25 de abril de 2010

Resiliência Familiar

As famílias de hoje e de amanhã são caracterizadas por uma crescente diversidade nos padrões de estrutura, sexo, orientação sexual, cultura, classe e ciclo de vida. Os debates sobre o futuro da família atingiram um ponto de ansiedade vulnerável quanto à vida contemporânea na era pós-moderna. As famílias estão lutando com perdas reais e simbólicas na medida em que os arranjos familiares se alteram e o mundo que as cerca se modifica. Muitas se sentem à deriva em seus próprios botes salva-vidas em um mar turbulento. Os mitos da família ideal aumentam a sensação de deficiência e fracasso das famílias em transição. Há uma sensação disseminada de desorganização e confusão sobre a própria estrutura e significado dos relacionamentos familiares – sobre o que é “normal” (isto é, típico e possível de ser esperado) na vida familiar e como construir famílias “saudáveis” (isto é, com um bom funcionamento). Desorientadas e inseguras, muitas lutam para se manter dentro dos padrões familiares e também questionam os modelos familiares idealizados do passado que não se ajustam a sua situação, necessidades e desafios atuais. No entanto, muitas famílias hoje estão mostrando uma notável resiliência, extraindo o melhor de suas situações e inventando novos modelos de conexão humana.
(WALSH, Froma, Fortalecendo a Resiliência Familiar, Ed. Roca, SP, 2005, p. 34)

terça-feira, 13 de abril de 2010

PREVENÇÃO ÀS DST/AIDS COM FOCO NOS MECANISMOS DE PROTEÇÃO

Quando se realiza ações de prevenção às DST/aids geralmente se focaliza as falhas, as dificuldades e a falta de recursos da pessoa e da comunidade para conseguirem se proteger da possibilidade da infecção, ignorando os mecanismos que elas podem apresentar para potencializar essa proteção. A escuta é para os erros já cometidos, os riscos corridos, os abusos apresentados (uso de álcool e outras drogas, violência, múltiplas parcerias, pobreza, etc), ou seja, para os fatores de risco que são apresentados.

É preciso pensar que a aplicação dos fatores de risco nos projetos de prevenção muitas vezes leva à identificação, rotulagem e estigmatização das pessoas, suas famílias e suas comunidades, gerando culpa e hiper-responsabilização, por não terem conseguido enxergar ou fazer uso dos mecanismos de proteção a que têm acesso em todas as esferas em que eles podem ser encontrados.

Reconhecer e valorizar os esforços do sujeito (individual ou coletivo), mesmo que tenha falhado em alguns aspectos, pode ajudar a melhorar os seus próximos passos para se proteger. Ainda, realizar uma análise da resiliência desse sujeito para lidar com as adversidades da vida e sair fortalecido de situações difíceis pode indicar suas fortalezas e possibilidades de realizar prevenção para uma série de infecções. Assim, auto-estima adequada, bom humor, espiritualidade, autonomia, boa rede social, bom relacionamento familiar, inclusão social são potencialidades que podemos reconhecer no sujeito para protegê-los da infecções por DST/aids.

A seguir, algumas questões para se levar em conta nas três esferas onde se encontram os mecanismos de proteção de que o sujeito pode fazer uso.

1- Esfera individual
A- Informação: é preciso reconhecer as potencialidades do sujeito para buscar informação e fazer uso racional dela. Nesse sentido, não basta o sujeito acessar informação, mas perceber como ela pode se usada como proteção. Para se ler uma informação deve se levar em conta a capacidade cognitiva do sujeito, seus preconceitos, seu foco de vida no momento e a linguagem usada pelo informante. Por exemplo, o sujeito pode saber que a camisinha diminui os riscos da infecção pelo HIV, mas mesmo assim permitir que outras questões ou dificuldades impeçam seu uso (o tesão do momento, a vontade de transar sem, ceder ao apelo da parceria para o não uso, realizar penetração sem ter a camisinha disponível para não perder a oportunidade, etc). É preciso reconhecer e incentivar a capacidade do sujeito de buscar informação, degluti-la e fazer uso adequado dela, usando todas as tecnologias necessárias para isso.

B- Diálogo: pode-se incentivar o sujeito a melhorar a comunicação com a parceria, principalmente em relacionamentos fixos e/ou monogâmicos. O uso efetivo da comunicação permite que se reconheçam os desejos, limites e fortalezas do outro e que se possam negociar as regras do relacionamento, se ele será aberto ou fechado, com uso ou não do preservativo, com uso de métodos anticoncepcionais, com prática de fantasias eróticas, com enfrentamento de conflitos, etc. Fortalecer a escuta do sujeito para as demandas da parceria fará com que as crises do relacionamento sejam resolvidas com maior brevidade e que o casal cresça com essas situações, além de aumentar a possibilidade da prática de sexo mais seguro.

C- Saúde integral: é preciso reconhecer e incentivar no sujeito sua capacidade para o cuidado com sua saúde integral. Estimular a realização de papanicolao, mamografia e auto-exame das mamas é uma forma de fazer com que a mulher consiga prevenir uma série de doenças e também aprenda a conhecer melhor o seu corpo. Estimular o auto-exame dos mamilos e dos testículos e a realização de exame de próstata a partir da idade indicada permite ao homem prevenir cânceres que atingem esses órgãos. A ambos, principalmente aos adolescentes, é preciso incentivar uma higiene adequada dos órgãos genitais, com o objetivo de evitar inflamações e abertura de portas de entrada para agentes infecciosos.

2- Esfera social
A- Laços sociais: é preciso reconhecer e estimular no sujeito sua capacidade para estabelecer laços sociais, sua facilidade de fixar relações, sejam elas familiares, no trabalho, escola, igreja e na comunidade em geral. Isso fortalece suas chances de buscar recursos para se proteger quando estiver frente à possibilidade de contrair DST/aids e outra infecções, informando-se melhor sobre as formas de transmissão e proteção, retirando preservativos e buscando tratamento. Quanto à comunidade, estimular o contato com outras comunidades e com projetos bem sucedidos de prevenção, reconhecer lideranças e incentivar sua capacitação pode aumentar o laço social da comunidade consigo mesma e com o social ampliado.

B- Questões de gênero: pode-se aumentar no sujeito sua capacidade de compreensão da diferença cultural entre os sexos, percebendo como a questão de gênero pode interferir em seus relacionamentos, dificultando o acesso aos cuidados com a saúde integral. Mostrar-lhe ainda que discutir essa questão pode contribuir para a melhora do relacionamento conjugal, permitindo-lhe repensar as dificuldades na negociação do sexo seguro, na divisão da responsabilidade pela anticoncepção e reconhecer situações de violência que podem ocorrer no relacionamento

3- Esfera Governamental
A- Pensamento crítico: é preciso reconhecer e estimular no sujeito o uso do pensamento crítico, permitindo que perceba quais são as questões políticas envolvidas no seu cuidado com a saúde (que dificultam ou facilitam o acesso aos serviços de saúde) e qual sua contribuição enquanto cidadão para essa questão. Conhecer os serviços públicos de seu bairro, informar sua comunidade a respeito, participar de conselhos gestores é uma forma que possui de se apropriar das decisões que interferem diretamente no seu bem-estar, de sua família e de sua comunidade.
B- Proposição: conhecer, questionar e se mobilizar permite ao sujeito propor à esfera governamental projetos de prevenção às DST/AIDS e de saúde em geral na sua comunidade e lutar para que eles sejam executados.

Um sujeito resiliente não é apenas aquele que consegue superar suas dificuldades e aprender com elas, mas também aquele que consegue compartilhar seu aprendizado com outros sujeitos e formar uma rede de apoio. Isso importa muito para os projetos de prevenção que pretendem trabalhar com as fortalezas do sujeito, com o seu “dar a volta por cima” e não somente com sua possibilidade de queda.

domingo, 11 de abril de 2010

VOLTA POR CIMA
Paulo Vanzolini

Chorei
Não procurei esconder
Todos viram, fingiram
Pena de mim não precisava
Ali onde eu chorei
Qualquer um chorava
Dar a volta por cima que eu dei
Quero ver quem dava
Um homem de moral
Não fica no chão
Nem quer que mulher
Lhe venha dar a mão
Reconhece a queda
E não desanima
Levanta, sacode a poeira
E dá a volta por cima

quinta-feira, 1 de abril de 2010

CONSTRUÇÃO DE RESILIÊNCIA NO PROCESSO EDUCATIVO FORMAL

Educar não é uma tarefa das mais simples, principalmente quando a mensagem que se transmite para essa finalidade não é clara, sustentada e contextualizada. Paulo Freire mostrou muito bem isso no seu ensino. Nesse sentido, o educador precisa se despojar: de seus preconceitos, de sua sabedoria, de seus achismos, mesmo de seus cientificismos. Ele precisa se abrir para uma nova criatura que aporta com seu desejo de aprender e descobrir o mundo. Sim, o professor é um porto, com suas regras, suas formalidades; mas também é um mundo novo, servindo apenas de ancoragem, sabendo que o educando veio e também irá partir no momento oportuno.

Educar um jovem é tarefa ainda mais complicada, pois ele já possui algo firme e constituído, sua personalidade está a meio caminho de torná-lo que é ou quer ser, seu raciocínio é lógico e abstrato, ou seja, age, mas também reflete. Porque reflete, questiona, causando mal estar quando se opõe à autoridade instituída (à instituição escolar, ao diretor, ao professor, ao inspetor, às vezes a outros colegas). Sim, o jovem é bastante competente para se opor à autoridade, ao mesmo tempo em que pede um pouco de ordem. Como reagir da forma como ele deseja?

Mesmo criticando e questionando o saber que se lhe outorga, o jovem costuma aceitar desafios. Isso é importante, pois a partir desse ponto podemos desafiá-lo a construir algo positivo, a buscar seu próprio conhecimento, a estabelecer regras que se coadunem com as da autoridade, aprendendo a negociar, a se posicionar politicamente, a questionar de forma amadurecida.

Essa oportunidade de investimento deve ser oferecida a todos os jovens, independentemente de seu interesse, de seu grau de inteligência, de seu grau social, de sua referência de contexto. Assim, não se deve abandonar os jovens que não amadurecem de acordo com o pré-estabelecido, ou aqueles muito sofridos, que muitas vezes achamos que não renderá como queremos, pois negativamos algumas situações, como estado de pobreza, miséria afetiva, família desestruturada e adicções sem fim, dando o jovem por perdido.

Volto a reforçar a importância do professor como alguém que pode reconhecer as potencialidades dos jovens e focar sua atuação nesses pontos positivos, pois eles podem apontar para a capacidade desses jovens de superação de suas dificuldades, mostrando que eles possuem resiliência e que esta pode ser promovida no campo da educação formal. Nesse sentido, os professores podem se tornar tutores de resiliência, fomentadores de descobertas e ações que tornem seus educandos vencedores, não só na área da educação, mas também na afetiva, tornando-os aptos para a vida, adaptando-se em sua sociedade (limpando todo o ranço ideológico que podem conter as palavras “vencedor” e “adaptação”).

Sabemos o quanto pode ser complicado o professor ir além do papel de quem ensina, tornando-se um educador para a vida. Em muitos contextos ele pode se perder entre ser um representante da lei (com conhecimentos, regras, punições e controlador do tempo) e um elo entre o educando e a sociedade. Mas ser um educador, melhor ainda ser um tutor de resiliência, permite que entre em contato afetivo com esses jovens, perceba suas necessidades e suas potencialidades e seja uma ponte para o crescimento deles.