BRASIL RESILIENTE! A resiliência é uma capacidade universal que permite que uma pessoa, um grupo ou uma comunidade previnam, minimizem ou superem os efeitos prejudiciais da adversidade. A resiliência pode transformar ou fazer mais forte as vidas daquelas pessoas que são resilientes (The International Resilience Project)
Definition of resilience
"In the context of exposure to significant adversity, resilience is both the capacity of individuals to navigate their way to the psychological, social, cultural, and physical resources that sustain their well-being, and their capacity individually and collectively to negotiate for these resources to be provided in culturally meaningful ways" (www.resilienceproject.org)
sexta-feira, 8 de abril de 2011
terça-feira, 29 de março de 2011
Influências genéticas no processo de resiliência individual
Reginaldo Branco da Silva
Nos últimos anos estudos sobre resiliência que tem levado em conta a análise de condições multifatoriais para chegar a conclusões do por que algumas pessoas sucumbem a situações de adversidade, e outras não, mostram o equívoco de análises que se baseiam somente em características individuais como fatores de enfrentamento e superação de situações de tensão. Levar em conta também os fatores comunitários, culturais, ambientais e genéticos facilita a abordagem nos estudos sobre resiliência, bem como a intervenção como promoção de possibilidades de enfrentamento (coping), tirando das costas do indivíduo a responsabilidade única pelo sucesso ou insucesso na superação das situações de adversidade.
Este texto é sobre a defesa da participação dos aspectos biológicos no processo de resiliência, mais ainda, sobre como a plasticidade cerebral influencia, e é influenciada, pelos aspectos sociais, culturais, espirituais e psicológicos do indivíduo; ou seja, como o cérebro muda e pode ser mudado pelas experiências do dia a dia. Essa plasticidade tem, comprovadamente, um componente genético importante na sua construção e é vista como um dinâmico processo do sisterma nervoso central (CNC) que orquestra constantemente alterações neuroquímicas, estruturais e funcionais em resposta à experiência. De fato, tem sido sugerido que a plasticidade do cérebro humano é um dos mecanismos centrais que definem o sucesso evolutivo da espécie humana.
O progresso continuado das pesquisas sobre as experiências de enfrentamento que os indivíduos realizam e como os componentes biológicos, mormente a genética, atuam facilitando ou dificultando essas experiências permitem que se tenha uma imagem mais abrangente e sofisticada do processo de resiliência. No entanto, é preciso ter claro que essa perspectiva não deve ser interpretada erroneamente como se a resiliência fosse um fruto somente da biologia. Além disso, a inclusão de medidas biológicas da pesquisa em resiliência não deve dar ouvidos a cientistas que pensam que isso seria voltar para o momento em que alguns defendiam a ideia de que havia crianças ´invulneráveis´ (CHICHETTI & BLENDER, 2006, p. 250). Por tudo isso, tem havido cientistas que tem fechado os olhos à importância da genética e não incorporado esse componente em seus estudos sobre os determinantes da resiliência, não levando em conta que o conhecimento da variação genética pode auxiliar na identificação de quais indivíduos seriam mais vulneráveis aos efeitos adversos e quais as função protetoras por genes estariam presentes, através da investigação da interação gene × meio ambiente (G × E). Essa negação pode aumentar a possibilidade de serem apontados fatores emocionais em determinados casos de resiliência que na verdade são obtidos por fatores genéticos (Rutter, 2007, p. 497).
A participação dos componentes biológicos como determinantes do processo de resiliência é evidenciada na função do sistema neural e neuroendócrino em relação ao enfrentamento da adversidade, e pesquisas sobre genética molecular podem revelar os elementos genéticos que servem como proteção para os indivíduos que experimentam tensões significativas, tais como crianças que sofrem maus tratos familiares, abandono, violência sexual, etc. Além disso, uma poderosa ferramenta para a identificação dos genes da vulnerabilidade e da proteção poderá ser em breve utilizada, que é o mapa de haplótipos humanos, “o que permitirá fornecer informações valiosas sobre a variação genética individual que, em interação com experiências ambientais específicas, podem levar a distúrbio mental ou resiliência, respectivamente” (CHICHETTI & BLENDER, 2006, p. 250).
A análise múltifatorial enfatiza a importância fundamental das inter-relações de diversos fatores em seus estudos, não relegando os resultados a um único fator, o biológico ou psicológico, por exemplo, nas pesquisas sobre resiliência. Assim como a expressão do gene altera o comportamento social, as experiências psicossociais alteram a expressão do gene. Exemplo são os maus tratos a crianças, que exercem transformações no desenvolvimento do cérebro, modificando sua expressão gênica, sua estrutura e seu funcionamento, assim como alterações na expressão gênica induzidas pelo aprendizado e pelas experiências sociais e psicológicas produzem mudanças nos padrões de conexões neuronais e sinápticas e na função das células nervosas. “Tais modificações neuronal e sináptica não só exercem um papel proeminente em iníciar e manter as mudanças de comportamento que são provocadas pela experiência, mas também contribuem para as bases biológicas da individualidade, assim como evidenciam indivíduos que estão sendo diferentemente afetados por experiências semelhantes, independentemente da sua valência” (CHICHETTI & BLENDER, 2006, p. 251). No entanto, nada é determinístico, pois é provável que a experiência de abuso e negligência de crianças possa exercer efeitos diferentes sobre a estrutura, função e organização neurobiológicas em crianças maltratadas que deram a volta por cima e superaram essa dificuldade, do que em crianças maltratadas que não se recuperaram psicologicamente.
Há pequeno, mas crescente, corpo de resultados de estudos genéticos moleculares em que as variações genéticas particulares foram encontradas associadas com acentuadas diferenças na suscetibilidade a determinados fatores de risco. Como exemplos dessa interação gene-meio ambiente (GxE) estão os resultados da investigação de Caspi (CASPI et. alli, 2002, p. 851), sugerindo que essa interação ajuda a explicar porque algumas crianças maltratadas, mas não outras, desenvolvem comportamentos anti-sociais através do efeito que essas experiências de adversidade exercem sobre o desenvolvimento do sistema neurotransmissor. Esses achados permitem explicar parcialmente porque nem todas as vítimas de maus tratos repetem esses maus tratos quando crescem e produzem evidências epidemiológicas de que os genótipos podem moderar a sensibilidade das crianças para as agressões do meio ambiente. Estudos sobre essas associações são citados por Rutter (RUTTER, 2007 p. 492), sobre transmissão genética do uso de álcool e outras drogas e por Chichetti e Blender (CHICHETTI & BLENDER, 2004, p. 17.326), em que a resposta de um indivíduo às agressões ambientais é moderada pela sua composição genética.
Essas investigações de análises de múltiplos níveis podem revelar os elementos genéticos que estão probabilisticamente associados às conseqüências do mau desenvolvimento e da psicopatologia, e, alternativamente, os genes que servem como função de proteção para os indivíduos que experimentam adversidade significativa (CHICHETTI & BLENDER, 2004, p. 17.325). As evidências surgidas sobre a influência dos fatores genéticos servem para destacar a importância de se considerar a ampla variedade de possíveis mecanismos de mediação e moderação na resiliência. Será essencial distinguir com vistas ao entendimento da resiliência quais indivíduos, por causa do seu genótipo, podem responder de forma mais competente e vantajosa às adversidades em condições ótimas de desenvolvimento.
Rutter (RUTTER, 2007 p. 494) aponta que os genes não operam em apenas um caminho, situando quatro pontos dessa questão: primeiro, os genes que afetam E (meio ambiente) podem não ser os mesmos que fornecem o principal efeito sobre o transtorno principal; e o G (fatores genéticos) que carrega o risco de P (fenótipo psicológico) pode não ser o mesmo G que cria a susceptibilidade para E (meio ambiente); segundo, o efeito precisa estar somente (ou principalmente) no ambiente de criação; terceiro, existem algumas circunstâncias em que pode haver transmissão intergeracional de experiências adversas maternas, um efeito que servirá para simular a transmissão genética; e quarto, assume-se que a interação gene-meio ambiente passiva (considerada puramente genética) envolve riscos ambientais que afetam todas as crianças da mesma forma.
Futuras pesquisas sobre resiliência com bases biológicas terão o desafio de tentar relacionar a plasticidade neural a fenômenos particulares de comportamento, tentando encontrar associações entre comportamentos e alterações específicas nos processos neurais, provocadas por fosforilação e expressão de genes. Para isso, é de suma importância que as investigações sobre os correlatos e determinantes
de adaptação resiliente comecem a incorporar métodos de genética molecular e neurobiológicos em suas ferramentas de medição predominantemente psicológicas. Por exemplo, postular se algumas das dificuldades apresentadas por pessoas que sofreram adversidades significativas em suas vidas são irreversíveis, ou se existem períodos sensíveis particulares, quando é mais provável que a plasticidade neural e comportamental ocorra. Embora o debate continue em torno da veracidade dos modelos da intereção gene-meio ambiente, e futuros estudos são necessários antes que essas hipóteses possam ser definitivamente confirmadas, existem fortes indicações de uma associação direta entre variações genéticas e consequências na saúde mental (KIM-COHEN & GOLD, on line, p. 4).
Do ponto de vista da intervenção, três conclusões inter-relacionadas que derivam da visão geral dos efeitos GxE são importantes: 1- É evidente que alguns riscos podem ser geneticamente determinados, porém, exercem seus efeitos através de diversos mediadores ambientais; 2- De forma análoga, alguns mediadores ou moderadores podem parecer moldados pelo ambiente, quando na realidade são em grande parte influenciados geneticamente; e 3- É uma ressalva importante para o segundo, isto é, mesmo atributos sujeitos a fortes influências genéticas não são necessariamente fixos ou imutáveis para as intervenções (efeitos genéticos são probabilísticos, não deterministas ...) (RUTTER, 2007, p. 502).
Por fim, é necessário lembrar que não há garantias de que mesmo crianças de lares amorosos irão desenvolver resiliência de forma tranqüila. Certas crianças podem nascer com uma grande capacidade para resiliência, em oposição a outros jovens que, mesmo quando providos de amor, uma boa educação e atividades comunitárias, podem debater-se com situações típicas de adversidade. Por exemplo, crianças defrontadas com problemas como depressão, ansiedade e dificuldades para aprendizagem, todos com uma forte base biológica (genética), travarão uma grande luta para se tornarem resilientes. Não é que biologia seja destino, mas ela tem uma grande influência no desenvolvimento da criança.
BIBLIOGRAFIA
BROOKS, R., GOLDSTEIN, S. Nurturing resiliente in our children, McGraw Hill, NY, 2003;
CASPI, A. et alli. Role of Genotype in the Cycle of Violence in Maltreated Children, Science, vol 297 2 August 2002;
CICCHETTI, D., BENDER, J. A multiple-levels-of-analysis approach to the study of developmental processes inmaltreated children, PNAS December 14, 2004 vol. 101 no. 50;
CICCHETTI, D., BENDER, J. A Multiple-Levels-of-Analysis Perspective on Resilience Implications for the Developing Brain, Neural Plasticity, and Preventive Interventions, Ann. N.Y. Acad. Sci. 1094: 248–258 (2006). C 2006 New York Academy of Sciences.doi: 10.1196/annals.1376.029;
KIM-COHEN, J., GOLD, A. Gene–Environment Interactions and Resilience, disponível em www.psychologicalscience.org/journals/cd/18_3_inpress/kim-cohen.pdf, acessado em 20 de março de 2011;
RUTTER, M. Genetic Influences on risk and protection, implications for understanding resilience, in LUTHAR, S. (editor), RESILIENCE AND VULNERABILITY, adaptation in the context of childhood adversities, Cambidge University Press, New York, 2007.
quinta-feira, 24 de março de 2011
domingo, 20 de março de 2011
A resiliência do povo japonês
After a Disaster, What Defines a Country's Resilience?
By Dr. Sheri Fink Wednesday, Mar. 16, 2011
The unfolding crisis in Japan is marked by uncertainty, but seasoned emergency responders have a clear mission: to promote resilience in survivors. Resilience, in this sense, is a metaphor for the quality of an elastic object that springs back into shape after being deformed. Resilient people and communities are those that recover readily from trauma.
In the acute phase of a disaster, fostering resilience has more to do with social than psychological assistance. Not long ago, it was common to find therapists rushing to a disaster zone, engaging survivors in a discussion about the trauma they had just experienced, and sometimes indiscriminately dispensing sedatives. So-called "critical incident stress debriefing," which still has its adherents, has fallen out of vogue. It's "been found to be ineffective," says Dr. Leslie Snider, a psychiatrist and senior technical adviser for the War Trauma Foundation in the Netherlands. What about Japan's psychological scars?
Research and experience have led experts to focus instead on promoting social interventions that decrease stress and restore a sense of control, safety and normality whenever possible. That includes ensuring that survivors have social support and access to information about the emergency. It also means arming people with practical knowledge about how to help themselves and those around them, a sort of emotional first aid that anyone can offer to a neighbor, friend or loved one. Helping others "is good for the people being helped as well as the people providing that help," says Dr. Irwin Redlener, director of the National Center for Disaster Preparedness at Columbia University's Mailman School of Public Health. "The more people know what they're supposed to do and what they can expect, the more capable they will be in responding to a disaster."
By the measure of self-help, the Japanese have already shown great signs of resilience, which benefits from good disaster preparedness. The government is working with private companies such as supermarkets to increase food aid to disaster survivors. Hundreds of disaster medical teams have been deployed, and many localities are drawing upon pre-existing agreements to aid each other in times of need. Many regular citizens have also stepped forward to assist, including offering private buildings to shelter the displaced.
With an estimated 15,000 people still missing, reuniting family members with surviving relatives as quickly as possible, and bringing those without families into social networks, is also important for recovery, particularly among children. "Having a buffering adult who's protective, who's reassuring and is confident, can help children get through the most traumatic situations relatively unscathed," Redlener says.
The United Nations estimates that about half a million people have moved to evacuation centers in Japan, almost half of them from areas around nuclear plants. Aid workers from the nonprofit organization Save the Children USA have set up a play area in one center in Sendai and are planning for more. "The most simple interventions really change lives," says Deb Barry, global director for child protection at the organization.
Save the Children trains disaster-affected volunteers to staff these "child friendly spaces" in emergencies. The idea is to give children a safe place to be kids. Barry says she has seen "children who just literally don't speak, who are really afraid of things, even the sound of a truck going by because it reminds them of an earthquake. All the sudden, [they] get this confidence back where they can really express themselves."
Quickly restarting school may be an even stronger way to promote resilience in children. "In Japan, children's lives are very structured," Barry says. "We're already getting a sense children want to be back in school."
Cultural insights like that are important for responders from overseas. The Japanese government has officially accepted assistance from 14 countries, and hundreds of international relief and search and rescue workers have already arrived. In particular, acts of mourning and recovery often draw on specific religious and spiritual practices and beliefs; in Japan, naming and identifying those who have died will be particularly important. When it comes to offering counseling, Japanese nationals are the best ones to provide it, says Yukie Osa, a professor of sociology at Rikkyo University in Tokyo and board chair of the Association for Aid and Relief, Japan. "It will be difficult for foreigners," she says. "The culture will be very different."
Osa, whose organization is assisting survivors in Japan after having provided emergency relief around the world, including in war-ravaged Afghanistan and after the 2004 tsunami in Indonesia, says Japanese people are used to giving overseas disaster aid, not getting it. "It's our first time to be helped," she says, but with such a vast area of devastation, ongoing displacement, harsh weather, and some places yet to be reached, the help is welcome. "I think people are ready to receive foreign assistance." She adds: "It's not only the goods, but also the people that are a help."
A recent newscast showed Pakistani residents of Japan cooking boiled rice for displaced people in a school. "The Pakistani person interviewed said, 'Since we were helped by Japanese people five years ago when the earthquake hit [Pakistan], now it is our turn to help Japanese people,'" Osa says. A child eating food in the gymnasium said that the curry was spicy, but delicious. "She was smiling," Osa says. "It was a very touching scene."
Psychiatrist Snider says that profound events lead not only to losses, but also to unexpected gains, including new knowledge and skills. "Our lives are all about how we make meaning of events," she says. "How we pull the thread of our life's story through a very tragic or significant event is particularly important, because [the event] becomes a part of that life story." Promoting resilience, she said, is about helping survivors search for and find their own meaning.
Dr. Fink is a Pulitzer Prize-winning investigative journalist, author of War Hospital: A True Story of Surgery and Survival, and a Senior Fellow at the New America Foundation and at the Harvard Humanitarian Initiative. She has worked with humanitarian aid organizations in more than a half dozen emergencies in the U.S. and overseas.
quinta-feira, 17 de março de 2011
Resiliência em crianças
QUESTÃO
Eu tenho um filho de dez anos de idade e observando-o eu poderia dizer que ele é resiliente. Se ele perde um jogo, ele treina duas vezes mais na semana seguinte. Se ele não se sai bem em um teste, ele gastará tempo extra estudando para o próximo. Mas eu também noto que ele às vezes rebaixa seus colegas de equipe quando eles cometem algum erro. Uma vez ele comentou o quanto era estúpida uma garota de sua classe, pois ela tirava somente C nas provas. Se por um lado ele parece resiliente, eu não entendo por que ele faz troça dos outros.
RESPOSTA
Você levantou um ponto interessante. Nós acreditamos que se as crianças são resilientes, elas não tem a necessidade de rebaixar seus colegas. Ser resiliente não significa sentir-se superior ou melhor do que os outros. Na verdade, a nosso ver, resiliência está associada com uma grande empatia, cuidado e compaixão. Resiliência não equivale à insensibilidade. As crianças que enfrentam e superam as adversidades não deixam de ser afetadas por suas experiências; na verdade, são bastante afetadas. Todavia, possuindo uma mentalidade resiliente e, em particular, tendo certos suportes à sua disposição durante os tempos de adversidade, elas serão capazes de transformar essas experiências negativas em conseqüências positivas, momentos em que geralmente serão mais compreensivos e tolerantes com seus colegas.
Baseado na sua descrição, seu filho parece possuir muitas qualidades resilientes. Ele enxerga os erros como desafios e aceita que se ele não se sair bem em algo é sua responsabilidade trabalhar de forma mais intensa para ter sucesso na próxima vez. Nós suspeitamos, ainda, que seu filho desenvolveu uma razoável auto-disciplina e ilhas de competência. Devido às poucas informações que temos sobre ele, não estamos certos se suas auto-expectativas são muito altas, dando lugar para que coloque muita pressão sobre si mesmo para alcançar o sucesso. Contudo, o que parece mais aparente é que, qualquer seja o motivo, seu filho não está demonstrando um componente essencial da mentalidade resiliente, algo que desejamos que você possa ajudá-lo a desenvolver, que é a empatia. Indivíduos empáticos são capazes de “se colocar no lugar do outro” (walk in the shoes of others). Eles se identificam com os sentimentos, pensamentos e atitudes dos outros e não diriam para seus colegas o que não desejariam que fosse dito a eles. Devido aos sucessos que ele tem vivenciado, nós acreditamos que seu foco enquanto mãe deveria ser nutrir empatia em seu filho.
Qual a melhor maneira de se fazer isso? Começando por tentar entender e refletir a partir da perspectiva de seu filho. Não confundir empatia com desistência, estrago ou indecisão. Poderia parecer que neste ponto seu filho está puxando alguém para o seu padrão: se ele comete um erro ou não se sai bem, ele se dedica mais para um melhor desempenho. Isso é bom se ele não colocar muita pressão sobre si mesmo para vencer. Se este é o caso, você poderia ajudá-lo a desenvolver expectativas mais realistas e descobrir que todo mundo comete erros e a melhor maneira de aprender a partir deles é não se sentir humilhado ou intimidado pelos outros. De uma forma não acusatória, você pode se perguntar como que uma colega de equipe que comete um erro ou uma colega de classe que só tira nota C se sente e o que seu filho diria a eles como forma de encorajamento.
Muitas vezes quando nos engajamos nesse tipo de conversa nossos filhos irão responder que é o caso particular de um colega de classe que sempre faz tudo errado e é incapaz de melhorar. Novamente, a empatia deveria ser nossa linha mestra, tentando ajudar seu filho a entender que embora ele possua as habilidades para aprender a partir de suas performances mal sucedidas e atingir altos escores, outros não conseguem. Lembre-se que ensinar empatia leva tempo, semelhante a reforçar qualquer um dos componentes de uma mentalidade resiliente (Tradução livre de Nurturing resilience in our children, Robert Brooks & Sam Goldstein, 2003, p. 9-11).
domingo, 13 de março de 2011
segunda-feira, 7 de março de 2011
Resiliência e mecanismos de proteção da criança e do adolescente
Viver num mundo em que as demandas são cada vez mais intensas e as adversidades exigem respostas prontas e diferentes pode ser demasiado para a maioria das pessoas. Essas situações acabam gerando tensão, rebaixamento da imunidade e, conseqüentemente, adoecimento físico. Dependendo da estrutura do sujeito, esses enfrentamentos cotidianos podem causar algum tipo de transtorno psíquico (leves e passageiros ou graves e duradouros), exigindo tratamento adequado.
As crianças e os adolescentes, além de sofrerem tensão indireta, através da tensão dos adultos, levando-as também a algum tipo de adoecimento, sofrem também das demandas dos adultos sobre elas, possuem suas próprias exigências e tentam se adaptar a essas situações. A intensidade da tensão sobre elas e a forma como reagem e tentam responder ao ambiente em que vivem vai depender da constituição desse mesmo ambiente, de como ele cobra, mas apóia, de como ele impõe um viver, mas também o ensina, de como oprime, mas ao mesmo tempo alivia.
A sociedade muda o tempo todo, mas ao mesmo tempo tenta se conservar. Novos aspectos sociais, culturais, econômicos, jurídicos são introduzidos no cotidiano das pessoas; no entanto, parte da sociedade luta para manter velhos hábitos, velhas regras, antigas visões de como as pessoas devem se comportar, causando um embate acalorado, e algumas vezes violento, entre os grupos inovadores e os grupos conservadores.
Dentro do campo das idéias inovadoras está o conceito de resiliência, demonstrando que adaptar-se à realidade não é ceder totalmente a ela, submeter-se, usar somente respostas prontas e universais, acreditar no que a maioria impõe como crença: é sim encontrar seu próprio caminho em meio às turbulências pessoais e sociais, construindo suas próprias respostas e mantendo-se vivo, em todos os sentidos.
A resiliência mostra ainda que o foco nas potencialidades é a melhor maneira de promover enfrentamentos saudáveis e adequados às adversidades do dia-a-dia e da vida como um todo; as pessoas possuem fraquezas e às vezes ficam presas a elas, sem enxergarem, e não permitindo que se enxerguem nelas, suas fortalezas e como fazer uso adequado delas. Esse novo jeito de olhar, surgido a partir dos anos 80, permite visualizar que, independentemente da adversidade presente em algumas situações, existem mecanismos protetores que logram proteger os sujeitos, criando neles a possibilidade de ser tanto vulneráveis aos efeitos da adversidade quanto resistir e construir positivamente a partir dela, revertendo seu caráter de negatividade.
Os estudos de resiliência em geral, portanto também com crianças e adolescentes, apontam sempre para uma dualidade que movimenta a vida do sujeito, balançando ora para o saudável, ora para o adoecimento. Essa dualidade gira entre o que se considera risco e o seu oposto, proteção. Afirma que existem fatores de risco e sua contraposição, fatores de proteção, atuando sempre na vida do sujeito. Mostra ainda que esses fatores são flutuantes, não atuam por si mesmos, mas necessitam estar intrincados e contextualizados, levando-se em conta a cultura, o tempo e a estrutura da comunidade em que o sujeito vive. Ou seja, que um risco não é em si mesmo, mas é dentro de certas prerrogativas; que a proteção não é em si mesma, mas sempre focada. Ambos possuem uma construção social, variando de época e de cultura.
O que o conceito de risco indica é que existem fatores que podem predispor o sujeito para o adoecimento; o que o conceito de proteção indica é que existem influências que modificam e melhoram a resposta de uma pessoa a uma situação de adversidade e operam em pontos críticos durante a vida do sujeito (no caso dos fatores de proteção, não significa necessariamente que eles representem somente experiências agradáveis; eles modificam de forma positiva a resposta do sujeito, mas não necessariamente diminuindo seu sofrimento). Nesse cenário, a resiliência é considerada como o resultado final de mecanismos de proteção que não eliminam os riscos experimentados, mas encorajam o indivíduo a lidar efetivamente com a situação e a sair fortalecido da mesma.
O que as pesquisas mostram é que diferentes fatores interagem entre si ao longo do tempo, alterando a trajetória do sujeito. Nesse sentido, opta-se por utilizar os termos mecanismos de risco e mecanismos de proteção, mecanismo tendo essa idéia de algo que está sempre em movimento, em ebulição, dando voltas, fixando-se, confluindo-se e mobilizando-se. São esses mecanismos que vão apontar se determinados fatores em um determinado sujeito (indivíduo, família ou comunidade), com sua cultura, no seu tempo, serão considerados ou não como risco; se numa determinada família, para uma determinada criança, se alguns fatores podem ser considerados de proteção ou não.
Mecanismos são processos que ligam determinado risco às suas conseqüências, possibilitando sua compreensão mesmo quando as conseqüências variam, permitindo essa visão de duas maneiras: como mediadores (nesse caso os mecanismos são dinâmicos e não diretamente observáveis) ou moderadores (amplificando, reduzindo ou mudando a direção da correlação entre riscos e respostas). Nem sempre isso é claro para o observador, pois os mecanismos de risco envolvem uma rede complexa de acontecimentos anteriores e posteriores ao evento-chave (por exemplo, uma tentativa de suicídio do adolescente e todos os fatores que o levaram a esse momento).
Considera-se importante identificar os mecanismos de risco e mecanismos de proteção como forma de antecipar resultados negativos ou positivos no processo de desenvolvimento da criança e do adolescente, não se esquecendo de levar em conta os fatores culturais e comunitários com relação a que tipo de variável se considera risco ou proteção. Talvez o mais adequado fosse investigar os mecanismos situacionais e do desenvolvimento que possam indicar o modo como os fatores de risco e de proteção funcionam, pois esses fatores atuam em momentos e em situações pontuais da existência do sujeito, exigindo dele uma resposta que geralmente não é contextualizada, mas fruto de suas experiências com situações de adversidade anteriores, pois tanto a vulnerabilidade quanto a proteção são processos interativos que se relacionam com momentos específicos da vida de cada pessoa, assim como acontece com a resiliência. A resiliência e a vulnerabilidade são, portanto, resultados de combinações entre os variados processos de risco e de proteção que interagem em contextos específicos da vida de cada um.
Apesar dessas considerações colocadas pelos estudiosos de resiliência, podem-se apontar alguns mecanismos de risco e mecanismos de proteção que podem ser gerais, aceitos em todas as comunidades e em todas as culturas, e girando em torno das crianças e dos adolescentes. Mecanismos familiares, da escola, da comunidade proximal são os mais citados.
Nesse sentido, pode-se afirmar o seguinte: mesmo em meio a adversidades constantes, as crianças e adolescentes que se desenvolvem adequadamente são aquelas que contam com laços afetivos positivos com pelo menos um cuidador familiar (um dos pais, um irmão, avós ou pais substitutos); experienciam poucos e curtos distanciamentos de seu cuidador primário, principalmente durante o primeiro ano de vida; encontram apoio emocional na comunidade, geralmente de um professor, de amigos íntimos ou de um pastor ou padre; possuem atributos individuais, como flexibilidade, confiança e capacidade para buscar apoio na família ou na comunidade; e possuem sentido de humor e de criatividade. Os fatores individuais e os familiares ou comunitários sem complementam, pois nada adianta uma criança ter habilidades pessoais se não consegue respostas positivas no ambiente em que vive.
Dinamicamente isso representa os cuidados constantes dirigidos às crianças e aos adolescentes por seus responsáveis (em todos os níveis de sua sociabilidade), as expectativas positivas neles depositadas, suas relações de apego seguro, a coesão entre os membros da família, a existência de pelo menos um tutor de resiliência interessado no cuidado da criança e do adolescente, capaz de substituir, momentânea ou permanentemente, os seus responsáveis diretos.
Podemos citar ainda alguns fatores de risco familiares, tais como comunicação crítica exagerada e falta de respeito, indução de sentimentos de culpa como forma de controle, supervisão deficiente por parte dos pais, falta de limites ou limites não claros, etc; e seus opostos, funcionando como fatores de proteção, como paternidade democrática, adultos sempre acessíveis, responsáveis e atentos às necessidades das crianças e dos adolescentes, regras claras e realistas, expectativas altas, porém apropriadas à idade, fortalecimento do autocontrole, da competência social e da auto-estima, etc.
Por fim, pensando em medidas de prevenção de adoecimento de crianças e adolescentes, uma intervenção psicossocial deve considerar os fatores proximais de uma forma integral, ou seja, visualizar não somente os atributos do indivíduo, mas também da família, da escola e da comunidade como um todo.
O papel da comunidade e da sociedade deve sempre ser levado em conta e ser cobrado, pois essas medidas preventivas para serem exitosas dependem que o desenvolvimento da criança e do adolescente se dê em um ambiente em que eles possam experimentar, calculando os riscos e ao mesmo tempo sendo protegidos pelo seu entorno.
Para promover a resiliência em crianças e adolescentes é possível de se identificar quatro mecanismos gerais de proteção que podem ser fortalecidos por meio de intervenções: 1-reduzir os mecanismos de risco; 2-reduzir as reações em cadeia que aumentam a possibilidade de outras crises; 3-fortalecer os mecanismos protetores e reduzir as vulnerabilidades; 4-encorajar a estima e a eficácia familiares e individuais com o enfrentamento bem sucedido do problema.
Podemos citar como características da criança e do adolescente resiliente a capacidade de enfrentar de forma pró-ativa os problemas cotidianos, controle adequado das emoções em situações difíceis, demonstrando otimismo e persistência frente ao fracasso, habilidade para manejar de maneira construtiva a dor, a frustração e outros sentimentos perturbadores, habilidade para obter apoio dos demais e para estabelecer amizades duradouras no cuidado e apoio mútuos, competência nas áreas social, escolar e cognitiva, que lhes permitem enfrentar criativamente os problemas, uma maior autonomia e capacidade de observação e sentido de humor.
QUEM DESEJAR A BIBLIOGRAFIA UTILIZADA PARA A TECITURA DESTE TEXTO É SÓ ME PEDIR
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Coping e Resiliência
Podemos definir resiliência como um conjunto de respostas do sujeito (indivíduo, família ou comunidade) a situações de adversidade, sendo que essa adversidade pode ser experienciada de maneira diferente por diferentes sujeitos, gerando diferentes formas do sujeito se posicionar. Essa resiliência nunca é diretamente percebida, mas inferida a partir dos componentes de uma “adaptação positiva” (limpando o ranço ideológico dessa expressão), em função de um jogo de força entre mecanismos de risco e mecanismos de proteção. Essa adaptação é fruto de características individuais (psicológicas, fisiológicas, genéticas), familiares e sociais com o qual o sujeito pode contar frente às situações de adversidade.
Coping (cuja tradução ruim em português seria enfrentamento) pode, por sua vez, ser definido como um conjunto de habilidades cognitivas, comportamentais e sociais utilizadas na solução de conflitos internos ou externos, que surgem em situações de adversidade que sobrecarregam os recursos do sujeito (indivíduo, família ou comunidade). Essa definição supõe que o enfrentamento pode ser realizado através de ações voluntárias que podem ser aprendidas e, depois, abandonadas.
Nesse sentido, coping é um processo que permeia o sujeito em seu meio ambiente, em que o sujeito tenta administrar e não controlar a situação de adversidade, reavaliando constantemente essa situação e mobilizando esforços cognitivos e comportamentais para reduzir ou tolerar os componentes e as conseqüências da adversidade (composta por demandas internas e externas ao sujeito). Essa reavaliação depende da percepção que ele possui da situação e da interpretação que realiza da mesma, que podem ser afetadas pela disponibilidade de recursos a seu dispor.
Reforçando: devemos entender coping como sendo todos aqueles esforços que o sujeito realiza para manejar as demandas que causam tensão, independentemente do resultado. Nesse sentido, nenhuma estratégia é inerentemente melhor que a outra, considerando-se que a melhor forma de coping deve ser analisada em função do sujeito, da situação, do problema e da cultura.
As estratégias de coping podem ser classificadas em dois tipos, dependendo de sua função: focalizadas na emoção ou focalizadas no problema. O coping focalizado na emoção (atuação sobre uma fonte interna) é definido como um esforço para regular o estado emocional que é associado à situação de adversidade, sendo direcionado para o corpo ou para os sentimentos, objetivando alterar o estado emocional do sujeito (aceitar ou negar, expressar ou conter os sentimentos). Exemplo, contar até dez e respirar profundamente antes de tomar uma decisão rápida ou tentar entender a situação de outra forma. A função desse tipo de estratégia é reduzir a sensação física desagradável de um estado de tensão.
O coping focalizado no problema (agir sobre uma fonte externa) é uma tentativa de atuar sobre a causa da situação de adversidade, reduzindo ou eliminando sua ação (nesse sentido, é um tipo de confrontação). A função desta estratégia é alterar a tensão existente na relação entre o sujeito e seu ambiente. Exemplo: negociar para resolver um conflito interpessoal ou solicitar ajuda prática de outras pessoas.
Um dos componentes-chave de um efetivo enfrentamento é o sentimento de confiança no sujeito de que os obstáculos podem ser superados. Também importantes são os estilos de coping, ou seja, os tipos de estratégias de enfrentamento utilizadas pelo sujeito, por exemplo, de forma ativa ou passiva. Em geral, os estilos de coping têm sido mais relacionados a características de personalidade, enquanto as estratégias se referem a ações cognitivas ou de comportamento tomadas no curso de um episódio particular de tensão.
Conceitualmente, as estratégias de coping podem ser definidas em fisiológicas (lutar/fugir), cognitivas (como encarar a situação), comportamentais (relacionadas a processos mentais), aprendidas (a partir de modelos e de observação) e intencionadas (de forma voluntária e involuntária)
Finalizando, é preciso diferenciar coping de resiliência: o primeiro é um momento no tempo, a solução pontual de uma situação de tensão, enquanto que resiliência é a totalidade da experiência do sujeito. Uma soma de enfrentamentos bem sucedidos não necessariamente torna um sujeito resiliente.
Obs: quem desejar as fontes utilizadas para a confecção deste texto, pode me solicitar.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Psicologia dos Desastres e das Catástrofes e Resiliência
Reginaldo Branco da Silva
1- Desastres e catastrofes
Os desastres e as catástrofes não são fenômenos meramente naturais; eles apresentam também uma construção social, são frutos, de alguma forma, da ação do ser humano. O desenvolvimento econômico desenfreado, a deterioração ambiental, as crises econômicas, a má distribuição de renda e a desigualdade social afetam o cotidiano das pessoas e as suas escolhas, afetam a sua circulação pelo espaço físico e social, afetam sua segurança, gerando violência e incerteza. A escolha da ocupação da terra, do terreno não ocorre apenas pela paisagem, mas muito mais pela necessidade, às vezes pela única opção: o que foi deixado aos pobres, aos excluídos.
“O crescimento desordenado das cidades, a redução do estoque de terrenos em áreas seguras e sua conseqüente valorização provocam adensamentos dos estratos populacionais mais vulneráveis em áreas de riscos mais intensos” (Política Nacional de Defesa Civil, 2008, p. 5).
Pressionados pela ausência de recursos, a decisão por “invadir os locais disponíveis para os pobres” torna-se, na escala de privações, um posicionamento legítimo. O risco local torna-se pouco significativo diante da ameaça de desabrigo (sair da condição de risco através da remoção, mesmo com subsídios públicos para o pagamento do aluguel, não configura a situação de segurança almejada). A oportunidade de morar explica, em grande parte, o fato de as pessoas estarem em locais instáveis e precários. As pessoas escolhem a localização da moradia de acordo com as fontes de subsistência, com a redução de gastos, incluindo o pagamento do aluguel, livrando-os do pesadelo do despejo e da humilhação (Vargas, p. 103).
Essa escolha (forçada de alguma forma) do local de moradia onde ela não poderia estar, ou então pela falta de recursos políticos e econômicos para poder estar lá (já que o Estado geralmente se isenta nesse caso), produz um espaço e uma situação de vulnerabilidade (ou risco, para usar a classificação técnica e certamente ideológica da Defesa Civil) para o desastre. Ou seja, os menos favorecidos em todos os sentidos (socialmente, economicamente, culturalmente) são os mais atingidos pelas situações de desastres, pelo momento em si e pela dificuldade de se recuperar deles, inclusive psicologicamente (dificilmente pessoas com poder aquisitivo melhor são atingidos por desastres, mas pode ser que sim, principalmente em regiões serranas, onde se permite construir hotéis e mansões nas encostas das serras).
Além do mais, a população que escolhe essas “áreas de risco” para morar e viver é geralmente culpabilizada pelos desastres: pela própria ocupação, pelo desmatamento da área, pelo não cuidado com o lixo, entre outras acusações. Esse fato pode excluir ainda mais os excluídos ao pensar-se que, provocadores do desastre por ocuparem aquele espaço e insistirem em permanecer nele, não seriam merecedores de apoio governamental (o papel da mídia em espalhar esse tipo de pensamento é fundamental).
Qual é, então, a percepção de risco que se pode esperar das pessoas que ocupam áreas vulneráveis a desastres para construir suas vidas? Percebe-se que a vulnerabilidade individual e social é aprofundada pela negação do risco (provavelmente pela necessidade de se viver no local) ou seu desconhecimento, além de somar-se a outros fatores psicológicos que podem interferir na percepção de risco: sentimento de onipotência e pensamento mágico, levando à minimização da situação, falta de responsabilidade no desenvolvimento de planos, desqualificação, desestímulo, entre outros (Gómez, 2006, p. 72).
Podemos pensar que uma questão essencial relacionada à percepção e ao enfrentamento da adversidade é o desenvolvimento individual de um conjunto eficaz de respostas à adversidade, que inclui a avaliação inicial do evento e seus sentidos emocionais, a capacidade de regular as emoções frente a esse evento e regular a excitação para poder encontrar a resolução do problema, o que requer capacidade emocional e cognitiva da parte do sujeito. Porém, não podemos esquecer que essa capacidade individual de avaliação e enfrentamento é bastante condicionada pelo contexto social em que o sujeito vive e que lhe pode dar ou não essa condição (podemos questionar em que momento o cognitivo pode ser subestimado em função do emocional).
Precisamos levar em conta ainda que o aspecto social dos riscos pode variar consideravelmente conforme a sociedade, podendo ser influenciado por superstições, crenças religiosas e boatos, que tendem a apontar para um “culpado” pelo desastre, diluindo as responsabilidades. Esses fatores também incidem sobre a percepção do risco, diminuindo ou aumentando sua possibilidade.
Em todo caso, com certeza envolver o sujeito e a comunidade em atividades de prevenção pode levá-los a uma consciência maior sobre o local em que habitam. Isso não quer dizer necessariamente que essa percepção e a introjeção do risco seja igual a abandonar o local. O enraizamento, a identidade social, a proximidade com o trabalho, as amizades podem fazer com que o sujeito decida ficar e enfrentar o problema.
Além das atividades de avaliação e redução de riscos e de desastres, as ações de prevenção englobariam ainda programas de mudança cultural (mostrando que todos têm direitos e deveres relacionados com a segurança da comunidade contra desastres), treinamento de voluntários, empoderamento dessa comunidade com relação a seus direitos, educação para a saúde (incluindo a proteção da saúde mental), além de soluções físicas, como construção de muros de retenção, canaletas para escoamento de água, etc.
2- Psicologia dos desastres e das catastrofes
Para a atuação no momento do desastre e no a posteriori o ideal é que o grupo externo (Defesa Civil, Bombeiros, Exército, Prefeitura, etc) consiga formar grupos voluntários locais, cuja coordenação será dessa equipe de fora. “Quando a comunidade está desnorteada, uma tarefa essencial dos grupos externos será incentivar a ação das autoridades locais, do pessoal local de saúde e da comunidade, e ajudá-los a se organizarem, de modo que possam retomar o controle da situação” (OMS, 1989, p. 20). Isso faz com que a comunidade se sinta como participante da retomada de suas vidas, não simplesmente como alguém sendo assistido, recebendo assistência de forma passiva.
Um profissional de saúde mental pode e deve fazer parte dessa equipe externa que cuidará da população durante e/ou após um desastre ou uma catástrofe. O profissional não necessariamente precisa ser um psicólogo, mas para minhas considerações aqui vamos supor que seja ele. O psicólogo pode estar como voluntário ou como contratado pela Defesa Civil e deve receber um treinamento adequado para agir nessas situações. Tem, ainda, que estar sintonizado com o restante da equipe, pois pode ser que tenha que ajudar de outra forma, sem ser com apoio psicológico focado.
Um profissional de saúde mental pode e deve fazer parte dessa equipe externa que cuidará da população durante e/ou após um desastre ou uma catástrofe. O profissional não necessariamente precisa ser um psicólogo, mas para minhas considerações aqui vamos supor que seja ele. O psicólogo pode estar como voluntário ou como contratado pela Defesa Civil e deve receber um treinamento adequado para agir nessas situações. Tem, ainda, que estar sintonizado com o restante da equipe, pois pode ser que tenha que ajudar de outra forma, sem ser com apoio psicológico focado.
A função do psicólogo, quando intervém numa situação de desastre, não é realizar uma intervenção clínica- ainda que haja um efeito terapêutico-, mas sim intervir com a cidadania. “Nesse sentido, acredito que o trabalho tenha que ser sempre interdisciplinar, contínuo, mantido, porque as conseqüências são de longo prazo, e deve-se estar sempre articulado com as demais disciplinas que intervêm” (Gómez, 2006, p. 72) e para isso teria que haver uma adequação do papel do psicólogo, que seria adaptar-se a cenários pouco convencionais e mutantes, adaptar-se ao trabalho multidisciplinar, adaptar-se à variedade de discursos e modalidades de trabalho, trabalhar na comunicação, ter muita plasticidade e ter muita tolerância à frustração (Gómez, 2006, p. 76).
Pensando na questão da percepção de risco e no desastre ou catástrofe em si mesmos, a intervenção do profissional de saúde mental nessa situação seria ajudar a comunidade afetada a refletir sobre qual sentido tal evento adquire para ela, quando ele passa de um evento natural a um desastre humano e as conseqüências presentes e futuras na vida dessas pessoas. O que pode causar impacto nas pessoas não são o desastre e as perdas a que ele leva, mas sua representação, que é resultado do sentido que o sujeito ou a comunidade dá ao evento. O psicólogo, então, não valorizará a magnitude do desastre e a quantidade de estragos provocados por ele (o que talvez o restante da equipe multidisciplinar possa fazer), mas como as pessoas reagem de forma diferente a essa situação e o valor que dão a suas perdas. Isso é um sinal antecipado de como será a recuperação que esses sujeitos (indivíduos e comunidade) realizarão após o desastre.
Alguns aspectos nesse trabalho do psicólogo devem ser levados em conta. O primeiro deles é o tipo de pessoa a quem irá auxiliar, pois precisa pensar nas possibilidades dela suportar o desastre, a forma como o interpreta e sua possibilidade de se recuperar dele. Como exemplo, podemos pensar nas crianças (pela menor possibilidade de reação e fuga e pela incapacidade de entender o ocorrido), mulheres (sobretudo mães de crianças pequenas), idosos (pela debilidade física) e portadores de transtornos mentais.
No caso das crianças, elas apresentam uma vulnerabilidade especial diante do desastre, não somente por sua fragilidade física, mas também pelo ineditismo da situação enfrentada, o que pode gerar angústias, medos e traumas. Além do mais, a idade de desenvolvimento também pesa: “A Estratégia Internacional para a Redução de Desastres (EIRD/ ONU) afirma que as crianças que experimentam um evento traumático antes dos 11 anos têm três vezes mais probabilidade de desenvolver sintomas psicológicos do que aqueles que vivem seu primeiro trauma sendo adolescentes ou adultos” (Pavan, 2009, p. 111).
No caso das crianças, elas apresentam uma vulnerabilidade especial diante do desastre, não somente por sua fragilidade física, mas também pelo ineditismo da situação enfrentada, o que pode gerar angústias, medos e traumas. Além do mais, a idade de desenvolvimento também pesa: “A Estratégia Internacional para a Redução de Desastres (EIRD/ ONU) afirma que as crianças que experimentam um evento traumático antes dos 11 anos têm três vezes mais probabilidade de desenvolver sintomas psicológicos do que aqueles que vivem seu primeiro trauma sendo adolescentes ou adultos” (Pavan, 2009, p. 111).
O papel do psicólogo seria, juntamente com os pais, prover a criança de informação sobre a situação, não minimizando sua gravidade, mas colocando a possibilidade da recuperação, inclusive com pequenas tarefas que ela pode exercer. Se a criança estiver se sentindo culpada por algum motivo, dirimir esse seu sentimento de culpa, escutando sua narrativa sobre o acontecido.
Outro aspecto importante a ser levado em conta pelo psicólogo atuando em catástrofes é que, apesar de os efeitos físicos de uma catástrofe geralmente serem aparentes (mortes, casas destruídas, vilas inteiras soterradas ou arrastadas pelo vento ou pela água), os efeitos emocionais são mais difíceis de serem percebidos: medo, ansiedade, culpa, depressão e diversos outros sintomas podem passar despercidos- mesmo quando continuam por algum tempo depois do desastre-, acometendo as vítimas e a equipe de socorro.
Alguns dos efeitos emocionais ocorrem em resposta à vivência da situação de desastre, outros são respostas a longo prazo para os efeitos físicos, econômicos e socias causados por essa situação. A possibilidade desses efeitos ocorrerem, tanto durante quando após o desastre, pode ser diminúida se houver intervenção de profissionas habilitados para isso.
Talvez o choque principal sofrido pela sujeito no momento do desastre e num tempo razoável após sua ocorrência seja em relação ao desespero de ter perdido pessoas importantes e recursos materias imprescindíveis, o que pode levar ainda à desesperança, raiva, desconfiança, impotência e inconformismo, afetando a saúde mental da pessoa exposta ao desastre.
Como essas consequências oriundas da vivência do desastre podem apresentar variações culturais, religiosas, e outras, compreender essas nuances é importante para o profissional de saúde mental atuar no tratamento dos sintomas ou mesmo no planejamento de ações de prevenção a desastres e catástrofes. Assim como também se deve levar em conta os padrões de estrutura familiar e as divisões de classe, principalmente para as soluções a curto prazo pós-desastre, como por exemplo na oorganização do alojamento das pessoas que perderam suas casas. No Brasil, com profissionais brasileiros atuando, não creio que isso seja um problema maior, pois as variações culturais entre as regiões não são significativas nesse caso.
Alguns efeitos psicológicos consideráveis não aparecem senão depois de um tempo razoável do desastre ter acontecido, quando as pessoas começam a perceber melhor o que realmente ocorreu e algumas lembranças recomeçam a aparecer. É o momento em que surgem as depressões e ansiedades, não raro ocorrendo tentativas de suicídio (Ehrenreich, 2001, p. 12). Por isso é importante os profissionais se colocarem à disposição para uma busca de ajuda mesmo depois de terminado o trabalho de resgate.
Alguns fatores podem aumentar as possilidades de consequências psicológicas em pessoas que passaram por situações de desastres e devem ser levadas em conta nas ações de prevenção: a gravidade e o tipo de acidente, treinamento da população para sua ocorrência, vulnerabilidade social e econômica da população, etc. Por outro lado, existem fatores que diminuem a possibilidade da ocorrência desses transtornos, por exemplo o sujeito possuir uma rede importante de apoio social (família, igreja, amigos), experiência anterior com outros desastres, maiores possibilidades econômicas para se recuperar das perdas materiais, etc.
A grande maioria dessas respostas é normal nesses momentos de sobrecarga emocional, não podendo ser consideradas como transtornos mentais (e as próprias pessoas que as apresentam devem ser orientadas com relação a isso, pois podem pensar que estão enlouquecendo). É um sofrimento importante, mas deve ser contextualizado e pode até mesmo estar funcionando como um mecanismo de adaptação àquela situação difícil, física e emocionalmente. No entanto, o profissional deve oferecer assistência para diminuir as situações de pânico, desorientação e aflição, até para que as pessoas possam recuperar o controle e cooperar adequadamente no seu resgate e na segurança da comunidade. Essa assistência pode incluir conforto e consolo para as vítimas, ajudá-las a se reunir com suas famílias e sua comunidade, acompanhamento na identificação de mortos, busca por vaga em alojamentos, etc.
O psicólogo pode ainda oferecer auxílio durante e após o desastre na divulgação de informações corretas a respeito dos fatos, por exemplo, dirimindo boatos que podem atrapalhar o trabalho da equipe de resgate (boatos sobre saques, arrastões e vendas de órgãos dos mortos não comuns de serem espalhados). Pode ainda informar sobre a regulação dos alojamentos, a divisão das tarefas, sobre questões de higiene, alimentação, etc.
A destruição da própria comunidade onde o sujeito estava inserido é outra consequência dos desastres e das catástrofes: laços de amizade são rompidos, grupos de trabalho são desfeitos, comunidades religiosas deixam de existir. Ou seja, a identidade social do sujeito pode ser rompida e esse fato merece atenção dos profissionais de saúde mental que estão atuando nessa situação.
Outra possibilidade de atuação do psicólogo é no trabalho de saúde mental com a equipe de resgate, já que ela pode sofrer com essa experiência (retirada de corpos, longas horas sem dormir, identificação com as vítimas, sentimento de impotência e culpa, exposição à raiva e aparente ausência de gratidão das vítimas acabam sobrecarregando a capacidade de lidar com a situação) e merecem os mesmos cuidados psicológicos que os moradores do local. É preciso lembrar que mesmo nesses trabalhadores os efeitos podem ocorrer em longo prazo.
No caso da relação da equipe com a população durante o resgate, o psicólogo pode atuar no fortalecimento dos laços de cooperação, melhorar a confiança entre eles e aproximando a equipe com as lideranças locais. Isso não somente pode aumentar a efetividade do resgate durante o desastre atual como também ajudar na prevenção de desastres futuros (por exemplo, a equipe de resgate e os líderes locais podem ser treinados sobre as conseqüências psicológicas do enfrentamento dos desastres e até poder ajudar nessas situações).
A intervenção (com toda a ideologia que essa palavra pode carregar) do psicólogo no momento de crise pode ser realizada utilizando-se de um “conjunto de técnicas que visam a ajudar a pessoa em crise a adquirir controle sobre essa situação crítica. O apoio e a ajuda focada para tal momento podem evitar problemas posteriores. A intervenção em crise pode ser focada em uma pessoa, várias pessoas juntas ou em pequenos grupos (incluindo uma unidade familiar)” (Ehrenreich, 2001, p. 65). Identificar primeiramente os elementos da crise, clarificando-os para a pessoa ou grupo, levar a pessoa ou grupo a desenvolver estratégias de solução dos problemas e se mobilizar para essa solução são as etapas desse tipo de intervenção que pode ser utilizada durante os desastres.
É preciso lembrar que não somente os diretamente afetados pelo desastre (população local e equipe de resgate) podem ter reações psicológicas que precisam receber atenção. Nesse sentido uma rede de saúde mental pode ser acionada a ficar de prontidão na cidade e até em outros locais mais distantes para acompanhar esses casos.
Rodrigo Molina (Molina, 2006, p. 59) apresenta uma taxonomia do nível de vítimas, diferentes níveis de vitimização, de acordo com a proximidade dessas pessoas com o evento. Os níveis são os seguintes:
– Primeiro nível: pessoas que sofrem o impacto direto do desastre;
– Segundo nível: familiares diretos das vítimas do primeiro nível;
– Terceiro nível: integrantes das equipes de primeira resposta;
– Quarto nível: a comunidade envolvida no desastre;
– Quinto nível: aquelas que ficam sabendo do acontecimento;
– Sexto nível: aqueles que deveriam estar, mas não estavam no lugar do evento por diversos motivos.
3- Psicologia dos desastres e das catástrofes e resiliência
A primeira coisa a deixar clara é que resiliência não é a mera recuperação que o sujeito (indivíduo ou comunidade) consegue realizar após alguma adversidade, seja de que intensidade for. Recuperar-se de uma situação única, situada no tempo, não quer dizer que o sujeito tenha sido resiliente. Resiliência é sim a capacidade de se sair bem, e até melhor, de uma situação que pode extrapolar a capacidade do sujeito de lidar com as conseqüências físicas e psicológicas durante ou após essa situação, mas ela apresenta algumas características que fogem ao situacional e ao temporal.
O termo recuperação conota uma trajetória em que o funcionamento normal temporariamente dá lugar a psicopatologias aparentes ou latentes, geralmente por um período de vários meses e depois retorna ao nível anterior ao evento que causou a disfunção. Uma recuperação completa pode ser relativamente rápida ou pode demorar vários anos.
Em contrapartida, a resiliência reflete a capacidade de manter um equilíbrio estável e não é a simples ausência de psicopatologia. “Para julgar resiliência deve-se decidir (1) se o sujeito tem se exposto ao risco ou a uma adversidade significante e (2) se o sujeito (indivíduo ou comunidade) está funcionando efetivamente e fazendo o que lhe é esperado” (Masten & Obradovic, 1998, p3).
Uma revisão das pesquisas disponíveis sobre perda, violência e eventos que oferecem risco de morte indica claramente que a grande maioria de sujeitos expostos a tais eventos não apresentam perfis de sintomas crônicos e que muitos, em alguns casos a maioria, mostra um tipo de funcionamento saudável sugestivo de resiliência (Bonanno, 2004, p.3). Isso pode, contraditariamente, levar à crença de que essas pessoas que não apresentam transtornos após desastres, por exemplo, estariam justamente apresentando algum tipo de problema, por não reagirem como as pessoas esperam que elas reajissem.
Na verdade, estudos demonstram que a reação mais comum em face de desastres é a não apresentação de nenhum sintoma denotando transtorno psicológico (ansiedade, depressão, culpa, medo, etc), o que contraria o esperado por cientistas e leigos (Bonanno, 2005, p. 2).
Mudar percepções, compreensões, recursos, papéis e responsabilidades de todos relacionados ao desenvolvimento aumentam a probabilidade de influenciar a reação do ser humano para as catástrofes. Preparar uma vasta população para qualquer tipo de desastre requer uma perspectiva desenvolvimental em resiliência humana, risco e vulnerabilidade, assim como a integração de idéias sobre resiliência das ciências da comunicação, engenharia, computação, saúde pública, ecologia, etc.
Experiências e respostas das pessoas serão influenciadas pelo funcionamento dos sistemas em que elas estão incorporadas, e particularmente pelo comportamento das pessoas em quem elas confiam ou que funcionam como segurança em uma relação de apego. Todo planejamento para o desastre deve levar em conta o sistema de vinculação e como tais relacionamentos são prováveis de motivar comportamentos e proverem um sentido de segurança ao sujeito. Esse sistema de vinculação, além de ser importante principalmente para as crianças poderem recuperar-se psicologicamente de situações de adversidade, é um fator que pode proporcionar resiliência a essas crianças.
A resiliência individual (capacidade de resposta às situações de adversidade) pode ser incrementada se o indivíduo estiver inserido em uma comunidade resiliente, que pode ser avaliada levando-se em conta se ela consegue realizar uma análise crítica da situação, se estabelece redes de instituições solidárias de resposta aos problemas, se conta com a existência de normas e regras de convivência e se o espaço grupal é multiplicador dos fatores protetores que conduzem a comportamentos resilientes. Isso permite o estabelecimento de um processo dialético entre resiliência individual e resiliência comunitária, permitindo ao indivíduo reconhecer os pontos fortes da comunidade e se aproveitar deles.
BIBLIOGRAFIA
BONANNO, George, Loss and trauma, and human resilience, in American Psychologist, vol. 59, No. 1, 10-28, 2004;
BONANNO, George, Resilience in the Face of Potential Trauma, in American Psychologist, volume 14, number 3, 2005;
EHRENRECIH, John, Coping with disasters: a guidebook to psychosocial intervention, State University of New York, 2001;
GÓMEZ, Claudia, Saúde mental na gestão dos desastres: intervenção no cotidiano e nos eventos, in Seminário Nacional de Psicologia das emergências e dos desastres, Conselho Federal de Psicologia, Brasília, 2006;
MINISTÉRIO DA INTEGRAÇÃO NACIONAL, Política Nacional de Defesa Civil, Brasília, 2008;
MOLINA, Rodrigo, Psicologia das emergências e dos desastres: uma área em construção, in Seminário Nacional de Psicologia das emergências e dos desastres, Conselho Federal de Psicologia, Brasília, 2006;
ORGANIZAÇAO MUNDIAL DA SAÚDE, A atuação do pessoal local de saúde e da comunidade frente aos desastres naturais, Genebra, 1989;
PAVAN, Beatriz JC, O olhar da criança sobre o desastre: uma análise baseada em desenhos, in Valencio, Norma Et all (organizadores) Sociologia dos desastres, versão eletrônica, 2009;
MASTEN, Ann & OBRADOVIC, Jelena, Disaster preparation and recovery: lessons from research on resilience in human development, Ecology and Society 13(1): 9.
VARGAS, Dora, A Construção social da moradia de risco, in Valencio, Norma Et all (organizadores) Sociologia dos desastres, versão eletrônica, 2009.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Resiliência e Espiritualidade
Fatores de risco e fatores de proteção
O ser humano está inserido em cotidianos que oferecem diversos tipos de riscos, que podem ser maiores ou menores levando-se em conta o gênero, a classe social, a escolaridade e a política do lugar onde vive. Para se opor a esses riscos podem-se apresentar a ele diversos tipos de fatores de proteção: individuais (competência social, habilidade para solução de problemas, autonomia, sentido de objetivo e de futuro, etc), familiares (valores, cuidado, comunicação, etc) e sociais (saúde, educação, emprego, segurança, etc) dos quais ele pode fazer uso para superar as adversidades. Como o ser humano está inserido num mundo de fenômenos sociais, biológicos, psicológicos e espirituais, a espiritualidade (e as consequências dela) também se oferece como um fator de proteção, fazendo frente a diversos fatores de risco.
O que é espiritualidade
A primeira coisa a deixar claro é que espiritualidade é diferente de religião; melhor dito, ela é composta pela religião, ou seja, a religião é somente uma manifestação possível da espiritualidade. Assim, a espiritualidade não deve ser confundida com religião de qualquer tipo, não sendo essa necessária ao exercício daquela.
A espiritualidade é composta por um sistema de compartilhamento de valores, crenças, normas, diretrizes, geralmente dando sentido aos eventos que ocorrem no mundo (compreensíveis e não compreensíveis), principalmente aos eventos desafiadores; em relação a estes, permite obter-se confiança e otimismo no seu enfrentamento. Espiritualidade também permite ao sujeito compreender quando não pode levar uma tarefa adiante, a desistir do que não consegue ter controle.
A espiritualidade pode ser explicitada através do discurso e de rituais, compondo manifestações de fé, comunhão, expressando os valores, propostas e objetivos de vida, inspirando visão de futuro e de superação. Essas manifestações são suportadas por tradições culturais e religiosas, por ídolos e figuras míticas da história de vida do sujeito (indivíduo, família e comunidade).
Quanto à religião, está integrada na cultura, fazendo parte do dia-a-dia das pessoas, se manifestando tanto no público quanto no privado (dependendo da cultura e do desenvolvimento econômico e político local). Essa integração na cultura faz com que a religião gere crenças pessoais (otimismo, auto-estima, direção ao futuro), familiares (normas, crenças e ritos e valores espirituais) e comunitárias (normas, ritos e mitos, valores), facilitando seu circular pelo mundo.
Função da espiritualidade
A espiritualidade faz com que o sujeito entenda que as coisas não acontecem ao acaso, que descubra sentido e coerência na vida e sentido de propósito de futuro. Tendo caráter multidimensional e sendo dependente de recursos internos do sujeito, pode ser exercida de forma coerente ou não, de forma mais ou menos racional, sendo benéfica ou prejudicial ao sujeito.
A espiritualidade pode dar um sentido profundo à vida, um sentido de pertencimento a um todo maior, uma esperança abrangente que prevalece sobre tudo, tendo como base uma segurança íntima a partir do contato com o transcendente. Ela permite apreender a realidade com maior profundidade (mesmo as que ultrapassam nossa experiência física imediata), dando outro sentido às coisas que nos acontecem e que acontecem no mundo. Enfim, esse sentido da vida e motivos para viver derivados da espiritualidade permite ao sujeito encarar a realidade com mais otimismo, força interna e saúde em geral.
Espiritualidade e resiliência
Podemos afirmar que crenças globais (crenças religiosas, otimismo, motivação para a tarefa) podem funcionar como fatores de proteção, diminuindo o estresse frente aos riscos e aumentando a efetividade de enfrentamento das situações desafiadoras. O estabelecimento de laços sociais, espirituais e culturais permite buscar suportes, quando necessário, nos momentos de adversidade. A simples crença no transcendente, fazer parte de uma comunidade de fé, em que todos se suportam nos momentos de adversidade, possibilita um enfrentamento mais saudável e não isolado da situações difíceis, permitindo ao sujeito (indivíduo, família, comunidade) momentos de resiliência. Sujeitos mais resilientes estão mais ligados à espiritualidade e se declaram mais vinculados a algum tipo de religião.
Quanto à inserção religiosa, fazer parte de um grupo religioso possibilita que o sujeito tenha ajuda material (alimentos, roupas, emprego, empréstimos financeiros), social (rede de relações, regras, normas e práticas), emocional (sentido positivo da vida, otimismo, coerência) e espiritual (sentido transcendente, estabilidade na fé e orientação de vida). O grupo religioso pode fazer parte de um ambiente facilitador (juntamente com recursos pessoais, habilidades sociais e aspectos familiares), favorecendo a possibilidade de o sujeito recuperar-se de uma adversidade de uma forma mais saudável.
Além do mais, a ligação com líderes religiosos podem promover uma base segura (normas, regras e valores) ou vínculo afetivo (apoio emocional e espiritual). Tanto a religião quantos os líderes religiosos clamam pela responsabilidade e solidariedade e esse cotidiano sócio-espiritual sustenta uma rede cultural e social ampla de valores, dando segurança e sentido de pertencimento e conexão com outras pessoas, famílias e comunidades. Como complemento, os rituais tradicionais (incluindo a presença de entidades supernaturais – ancestrais, por exemplo, permitindo uma identidade étnica) estão associados a uma maior resiliência.
Pesquisas
Muitas pesquisas foram realizadas apontando a importância da espiritualidade e da religião no sentido de permitir uma saúde geral para o sujeito e aumentando sua inserção social e cultural na comunidade. No entanto, pesquisas ainda precisam ser feitas, por exemplo, para indicar se a espiritualidade e seu exercício efetivamente protegem jovens contra delinquência e violência, se é possível desenvolver competência espiritual para se desenvolver resiliência e se a espiritualidade e a religião e o apoio da igreja realmente funcionam como promotores de resiliência.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
domingo, 28 de novembro de 2010
As quatro ondas da pesquisa sobre resiliência
“Seguiram-se três ondas de investigação sobre a capacidade de resiliência no desenvolvimento humano, e uma quarta onda está agora em andamento. A primeira onda focava em descrição, com um investimento considerável em definir e medir a resiliência e na identificação das diferenças entre aqueles que se saíam bem e os que se saíam mal no contexto de adversidade ou risco de vários tipos. Essa primeira onda de investigação revelou um surpreendente grau de consistência nas qualidades pessoais, relacionamentos e recursos que previram resiliência, e estes potenciais fatores protetores mostraram forte poder de permanência em ondas posteriores da investigação.
A segunda onda mudou da descrição dos fatores ou variáveis associadas à capacidade de resiliência a um foco em processos, a perguntas tipo ´como´, com o objetivo de identificar e compreender processos específicos que podem levar à resiliência. Esse tipo de pesquisa continuou, embora com o aumento da atenção a múltiplos níveis de análise e processos neurobiológicos.
A terceira onda começou com esforços para testar idéias sobre processos de resiliência através de intervenção, mais notavelmente em experiências para promover a resiliência impulsionando processos de promoção ou de proteção, tais como parentalidade eficaz, engajamento escolar, e, mais recentemente, as habilidades de função executora.
A quarta onda dos estudos sobre resiliência é a integrativa, buscando englobar rápidos avanços no estudo dos genes, desenvolvimento neuro-comportamental e estatística para uma melhor compreensão dos complexos processos que levam à resiliência. Os estudos de quarta onda tem, por exemplo, explorado o papel dos polimorfismos genéticos como moderadores (vulnerabilidade ou influências protetoras) do risco ou da adversidade no desenvolvimento e o papel da plasticidade neural na resiliência.
Perspectivas de desenvolvimento desempenharam um papel central desde o início da investigação moderna sobre resiliência. A história da ciência da resiliência está intimamente ligada à história do surgimento da psicopatologia do desenvolvimento como uma estrutura para a compreensão e investigação dos problemas de comportamento humano ao longo da vida. Esses domínios inter-relacionados de atividades conceituais e empíricas compartilham muitas raízes e investigadores, bem como o foco principal no desenvolvimento. Estudiosos que estavam interessados na etiologia da psicopatologia (incluindo os pioneiros do estudo da resiliência) se interessavam em seguir o curso de desenvolvimento com relação à adaptação positiva e negativa. Muitos destes estudos, particularmente as investigações longitudinais, começaram na infância ou adolescência, épocas em que podem ocorrer mudanças rápidas, e ficou claro que uma perspectiva de desenvolvimento era útil e importante. Outra consequência desta história é que uma grande parte da pesquisa inicial sobre resiliência focalizava os anos mais precoces da existência do sujeito, embora alguns investigadores sempre focassem na adaptação positiva na vida adulta". (Ann S. Masten and Margaret O’Dougherty Wright, Resilience over the Lifespan, Developmental Perspectives on Resistance, Recovery, and Transformation, Handbook of Adult Resilience, ed. by John W. Reich, 2009 )
Abaixo o texto original
Three waves of research on resilience in human development followed, and a fourth wave is now under way (Masten, 2007; Wright & Masten, 2005). The first wave focused on description, with considerable investment in defining and measuring resilience, and in the identification of differences between those who did well and poorly in the context of adversity or risk of various kinds. This first wave of research revealed a surprising degree of consistency in qualities of people, relationships, and resources that predicted resilience, and these potential protective factors have shown robust staying power in later waves of research. The second wave moved beyond description of the factors or variables associated with resilience to a focus on processes, the “how” questions, aiming to identify and understand specific processes that might lead to resilience. This kind of research has continued, although with increasing attention to multiple levels of analysis and neurobiological processes (Cicchetti & Curtis, 2007). The third wave began with efforts to test ideas about resilience processes through intervention, most notably in experiments to promote resilience by boosting promotive or protective processes, such as effective parenting (e.g., Forgatch & DeGarmo, 1999; Wolchik et al., 2002), school engagement (e.g., Hawkins, Catalano, Kosterman, Abbott, & Hill, 1999), and more recently, executive function skills (Diamond, Barnett, Thomas, & Munro, 2007; Rueda, Rothbart, McCandless, Saccomanno, & Posner, 2005). The fourth wave of resilience studies is integrative, seeking to encompass rapid advances in the study of genes, neurobehavioral development, and statistics for a better understanding of the complex processes that lead to resilience (Masten, 2007). Fourth-wave studies, for example, have explored the role of genetic polymorphisms as moderators (vulnerability or protective influences) of risk or adversity in development (Kim-Cohen & Gold, 2009) and the role of neural plasticity in resilience (Cicchetti & Curtis, 2006, 2007).
Developmental perspectives played a central role from the outset of modern resilience research. The history of resilience science is closely linked to the history of the emergence of developmental psychopathology as a framework for understanding and investigating problems of human behavior over the life course (Cicchetti, 2006; Masten, 1989, 2006a). These interrelated domains of conceptual and empirical activity share many roots and investigators, as well as a core focus on development. Scholars who were interested in the etiology of psychopathology (including those who pioneered the study of resilience) were interested in following the course of development with respect to positive and negative adaptation. Many of these studies, particularly the longitudinal investigations, began in childhood or adolescence, when there is often rapid change, and it was clear that a developmental perspective was helpful and important. Another consequence of this history is that a large proportion of the initial research on resilience focused on the earlier part of the lifespan, although
some investigators always focused on positive adaptation in later life (e.g., Rowe & Kahn, 1987; Vaillant, 1977, 2002).
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