Definition of resilience

"In the context of exposure to significant adversity, resilience is both the capacity of individuals to navigate their way to the psychological, social, cultural, and physical resources that sustain their well-being, and their capacity individually and collectively to negotiate for these resources to be provided in culturally meaningful ways" (www.resilienceproject.org)

domingo, 4 de setembro de 2011

RESILIÊNCIA COMUNITÁRIA


A resiliência comunitária, essa capacidade sustentada de uma comunidade para suportar e superar as adversidades de todos os tipos, tem se tornado uma questão política fundamental nos últimos anos. No entanto, não existe muita clareza com relação a qual é o processo a ser percorrido pela comunidade para se tornar resiliente, ou seja, quais as ferramentas para ela se recuperar rapidamente de um desastre. Sabemos que comunidades pobres e mais vulneráveis tendem a se recuperar de forma lenta; no entanto, dependendo do seu acesso a recursos sociais, sua recuperação pode ser acelerada.

A expansão do conceito de resiliência do nível familiar para o nível da comunidade tem apresentado algumas dificuldades, pois esse desenvolvimento tem ocorrido bem recentemente e apresenta uma tendência de se ver a resiliência comunitária como somente o fato da comunidade estar promovendo a resiliência das famílias e dos indivíduos que a compõem.

Maior atenção foi sendo dada à comunidade como uma fonte de fatores protetores, conforme a teoria da resiliência evoluiu. Em particular, o suporte social tem sido bem explorado, pesquisado e documentado, sendo localizado fora dos limites da família imediata, ou seja, as pessoas tem buscado recurso na família estendida, nas comunidades religiosas, na comunidade local, na comunidade do trabalho, etc.

Dentro da comunidade, a função do apoio social é operar na redução do estresse, melhorando o ajuste entre a pessoa e o meio ambiente. Isso ocorre de duas maneiras principais: quando uma pessoa recebe incentivo para sua auto-confiança e suporte emocional ela consegue se adaptar melhor às agressões ambientais, experimentando menos estresse; e uma pessoa que tenha suporte de rede (e, portanto, um sentido de participação na tomada de decisões) está em melhor posição para assumir o controle do estresse e alterar o estressor ambiental. Ou seja, as pessoas que recebem suporte social são teoricamente mais capazes do que pessoas que não recebem para se adaptar e/ou modificar estressores ambientais, acomodando-se mais facilmente ao ambiente. Isso resulta em melhor ajuste e funcionamento psicossocial.

É preciso ter em conta que resiliência comunitária implica o contínuo desenvolvimento da capacidade da comunidade para compreender suas vulnerabilidades e refinar habilidades que a auxiliem para prevenir, suportar e mitigar o estresse de um incidente qualquer, recuperar-se de uma forma que retorne a um estágio de auto-suficiência e ao menos ao mesmo nível de funcionamento social de antes do incidente e usar o conhecimento de uma resposta anterior para fortalecer sua habilidade de suportar o próximo incidente.

A saúde física e psicológica da população são componentes-chave da resiliência comunitária que, se estiverem inadequadas, afetam diretamente a vulnerabilidade da comunidade antes do desastre e sua capacidade de recuperação. Outros componentes são: comunicação efetiva sobre o risco; nível de integração social de organizações governamentais e não governamentais em planejar, responder e se recuperar; e a conectividade social dos membros da comunidade (CHANDRA et all, 2011).

Nesse sentido, para desenvolver sua resiliência, a comunidade deve obter a participação ativa dos seus membros no planejamento das atividades em geral e, principalmente, nos eventos de prevenção, desenvolver redes sociais (incluindo um senso de pertencimento e envolvimento e integração com a vizinhança), criar planos e programas para encaminhar e suportar as necessidades funcionais de indivíduos em risco (incluindo crianças) e colocar em funcionamento planos que respondam efetivamente às necessidades de saúde física e psicológica dos membros da comunidade no pós-desastre (enfatizando a parceria entre as organizações, incluindo um plano de prevenção integrado, com exercícios e acordos).

A educação na oomunidade é um processo contínuo em que a comunidade adquire conhecimento sobre os papéis, responsabilidades e expectativas para a preparação individual, bem como as maneiras como os indivíduos podem trabalhar em conjunto com outros membros da comunidade para responder e se recuperar de um incidente qualquer.

Outras estratégias para a comunidade se comunicar eficazmente com seus membros em situação de risco incluem o seguinte:

• Trabalhar as normas e crenças individuais na elaboração de mensagens de comunicação de risco;

• Identificar fontes confiáveis de informação e incentivar a comunicação aberta durante uma crise;

• Identificar e treinar membros da comunidade e usá-los para transmitir mensagens de saúde pública durante uma crise;

• Construir a confiança antes de um desastre através de parcerias com a comunidade.

A resiliência de uma comunidade repousa sobre sua capacidade de aproveitar seus próprios recursos internos frente às adversidades, sendo também capaz de rapidamente restaurar um estado de auto-suficiência após uma crise. Tendo em conta estes atributos, o envolvimento do cidadão participativo na tomada de decisões para atividades de planejamento, resposta e recuperação é especificamente identificada como um tema-chave, implicando a participação ativa de moradores da comunidade na resposta e no planejamento dessa recuperação (CHANDRA et all, 2011).

Por fim, é preciso um olhar renovado das políticas públicas para as fortalezas existentes na comunidade, utilizando-se da resiliência comunitária para prepará-la para a prevenção e o enfrentamento de crises, propiciando uma saúde física e psicológica que previnam seu adoecimento.

BIBLIOGRAFIA

CHANDRA, A. et all. Building Community Resilience to Disasters A Way Forward to Enhance National Health Security, Randy Corporation, 2011;

VANBREDA, A. Resilience Theory: A Literature Review with special chapters on deployment resilience in military families. South African Military Health Service, Military Psychological Institute, Social Work Research & Development, October 2001.



quinta-feira, 14 de julho de 2011

MEDICALIZAÇÃO DE CRIANÇAS

Abaixo texto traduzido por mim do livro "Nutrindo resiliência em nossos filhos" (no final está o texto original em inglês), que reflete sobre a necessidade de alguns pais quanto à medicalização de suas crianças.

QUESTÃO

Eu tenho um filho de nove anos de idade. Ele é hiperativo e muito sensível a desapontamentos e apresenta problemas com organização. Ele nunca fica pronto a tempo. Por causa desses seus comportamentos muitas crianças não querem brincar com ele. Ele está sempre sozinho e reclama que as pessoas não gostam dele. Está claro que ele está infeliz. Eu sei que há diferentes medicamentos para ajudar as crianças. Eles podem ajudar meu filho? Parece ser uma questão tola, mas como eu desejo ardentemente ajudar meu filho a ser resiliente, existe alguma medicação que possa ajudá-lo a ser resiliente?

RESPOSTA

Vamos começar primeiro com sua última questão. Tanto quanto sabemos não há atualmente medicamento no mercado ou pesquisas de medicamentos dirigidos para aumentar a resiliência. No entanto, para você não perder a esperança de seu filho aumentar suas perspectivas, podemos dizer que há medicamentos aprovados para melhorar certos problemas da infância, problemas que podem de fato reduzir a capacidade da criança para desenvolver uma mentalidade resiliente. A forte sensibilidade de seu filho a desapontamentos também reflete seu baixo limite emocional e alta intensidade de reação, típica de muitos jovens com um temperamento “difícil”. Problemas com hiperatividade e organização geralmente acompanham esse perfil. Crianças com esses comportamentos geralmente experimentam dificuldades para fazer e manter amizades a partir do momento em que suas habilidades interpessoais são afetadas adversamente por esses comportamentos. Alguns podem inicialmente procurar desesperadamente por amizades, mas quando se deparam com um fracasso, eles se recolhem para seus quartos, convencidos de que ninguém pode gostar deles. Não é de admirar que muitas crianças parecidas com seus filhos relatem estarem sozinhos e se sentirem solitários. Um garoto nos contou em lágrimas, “eu chamo outras crianças para brincar, mas elas estão sempre ocupadas e ninguém nunca me chama”.

Em ambientes clínicos, crianças com esse padrão também são frequentemente descritos como tendo problemas para manter a atenção, frequentemente levando a um diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Quando as crianças recebem esse diagnóstico, a questão sobre qual o papel que os medicamentos podem ter em seu plano de tratamento é rapidamente colocada. Mantenha em mente que nós acreditamos fortemente que pílulas não substituirão as habilidades. Uma pílula não é uma substituta para pais carinhosos e disponíveis, um grupo de amigos, um professor competente ou experiências de vida satisfatórias. Medicamentos estimulantes, em particular, são, no entanto, efetivos em reduzir os sintomas do TDAH e as consequências adversas apresentadas por essas crianças. O uso desses medicamentos para TDAH está bem demonstrado por cerca de quatrocentos estudos apontando melhora nos sintomas em curto prazo. Mas melhora dos sintomas não quer dizer mudanças em longo prazo. Assim, não existe um único estudo sequer sugerindo que quando crianças com TDAH tomam medicamentos eles se tornam melhor quando adultos que outras crianças que não fazem uso. Ao contrário, portanto, quando eles fazem uso de medicamentos que melhoram seu comportamento, é mais provável que seus professores e pais os apreciarão mais e gritarão menos com eles.

Estudos envolvendo milhares de crianças tratadas com medicamentos estimulantes tem demonstrado que eles são efetivos em mais do que setenta por cento do tempo. Outras classes de remédios, como antidepressivos, algumas vezes são efetivos, mas não tem provado serem tão efetivos quanto os estimulantes, incluindo metilfenidato (comercializado como Ritalin®, Concerta® e Mthylin®), sais mistos de sulfato de anfetamina (comercializado como Adderall®) e dexedrine (comercializado como Dextrostat®).

Pais frequentemente se preocupam que os medicamentos sedam seus filhos, mas esse não é o caso. Ao invés disso, quando usados adequadamente, esses medicamentos aumentam a capacidade da criança para o autocontrole. Estimulantes tem-se demonstrado aumentando o autocontrole em até mesmo crianças e adultos sem comportamentos alterados. Todavia, crianças que recebem o diagnóstico de TDAH se beneficiam em um grau muito maior. Esses remédios aumentam a capacidade para o pensar antes de agir, controlar impulsos e regular o comportamento. O mecanismo exato desses medicamentos não é compreendido, mas eles parecem estimular partes do cérebro que estão com baixa estimulação, em particular o córtex pré-frontal direito, gânglios de base e cerebelo. Os elos entre esses três órgãos no cérebro parecem ser criticamente importantes para o autocontrole. Esses medicamentos não mascaram os sintomas de TDAH, mas agem diretamente na causa do problema pelo ajuste da condição bioquímica com as capacidades das crianças para desenvolver e demonstrar autocontrole, evitando um comportamento impulsivo e atenção sustentada empobrecida.

Estima-se que mais de três milhões de crianças (EUA) recebem atualmente medicamento estimulante para TDAH. Não existe uma evidência conclusiva que esse tipo de tratamento leve à dependência ou adição. Ou nenhuma evidência que isso afete negativamente a elevação do potencial da criança ou cause mudanças de personalidade a longo prazo ou outras complicações mais sérias. O efeito negativo mais comum para as crianças é a perda do apetite e insônia conforme o medicamento perde o efeito.

Nós acreditamos que o uso desses medicamentos para tratar crianças com TDAH é importante em muitos casos. Mas de novo, tenha em mente que os remédios não ajustam magicamente o comportamento desafiador da criança ou problemas de aprendizagem, nem levarão magicamente a criança a desenvolver uma mente resiliente na ausência do cuidado e suporte dos pais. Ainda, a decisão de colocar a criança sob o efeito desses medicamentos deverá ser baseada numa aprofundada avaliação psicológica e neuropsicológica, incluindo a conclusão de uma lista, realizada por professores e pais, sobre os comportamentos da criança.

Queremos enfatizar que mesmo se uma criança se beneficie de medicamentos, eles não deverão ser utilizados como uma única abordagem de intervenção. Algumas crianças com sintomas de leves a moderados de TDAH geralmente respondem bem a um manejo coerente do comportamento, ou a uma abordagem de solução de problemas em casa e na escola; algumas dessas crianças podem não responder com sucesso à medicação. O programa de solução de problemas que advogamos é baseado em grande parte no trabalho de Myrna Shure, autora de Raising a Thinking Child e Raising a Thinking Pretten. Essa abordagem, na qual a criança é chamada para identificar seu problema, pensar as possíveis soluções e conseqüências e selecionar a solução que parecer a melhor possível de ter sucesso, é um programa que pode ser utilizado com ou sem a criança fazer uso de medicação.

Mais especificamente, no caso do seu filho, seria importante você discutir com ele o problema de ser organizado e estar pronto a tempo. Inicie com ele um diálogo sobre (a) os problemas que resultam dele não estar pronto a tempo, (b) o que interfere para estar pronto e (c) possíveis soluções. Por exemplo, nós trabalhamos com famílias nas quais as crianças selecionam na noite anterior as roupas que querem usar na manhã seguinte e tenham seus livros e trabalhos de escola colocados em suas mochilas antes de irem para cama. Tão simples como parece ser, quanto mais as coisas estão preparadas na noite anterior, menor a probabilidade de uma criança ficar procurando freneticamente coisas na manhã seguinte.

Outras famílias usarão uma lista elaborada pela criança e pais para lembrar à criança que necessidades precisam ser satisfeitas de manhã. Uma criança, preocupada se poderia esquecer o que estava na lista que foi colocada na porta de seu quarto, pediu para que essa lista fosse colocada também no quadro de recados da cozinha e na porta do banheiro. Essa criança apreciava suas dificuldades conseguindo se organizar e seguindo a rotina e entendendo que no momento ela precisava de tantos apoios visuais quanto possível. A partir do momento em que ela ajudou a criar esses apoios visuais, sentiu-se empoderada e, assim, relembrava de checar as listas. Muito importante, seu envolvimento em uma abordagem de solução de problemas nutriu uma mentalidade resiliente. Mas lembre-se que não toda intervenção será sucedida e muitas levarão tempo para serem abraçadas.

A presença desses tipos de abordagens comportamentais para aumentar o auto-controle e deixar mais satisfatórios os relacionamentos prontificou-nos para enfatizar um outro ponto. Muitos pais acreditam incorretamente que se as crianças com TDAH tomarem remédio por um número de anos, elas desenvolverão autocontrole mais rapidamente e que até certo ponto elas podem parar a medicação e continuarem bem. Infelizmente, o dia em que a medicação for retirada as crianças ficarão parecidas com o dia em que começaram a fazer uso. Portanto, tratar muitas crianças com TDHA com medicamentos é similar a tratar diabetes com insulina. Quando o remédio é tomado, o funcionamento melhora; removendo a medicação, o funcionamento regride, mesmo após um longo período de sucesso no tratamento. Assim, acreditamos piamente que junto com a medicação nós devemos continuar ajudando as crianças com atraso no desenvolvimento do autocontrole a acelerar suas habilidades para desenvolver autodisciplina e habilidades para solução de problemas (Nurturing resilience in our children, Robert Brooks & Sam Goldstein, 2003, p. 125).


QUESTION

I have a nine-year-old son. He is hyperactive and overly sensitive to disappointment and has trouble with organization. He is never ready on time. Because of these behaviors most children don´t want to play with him. He is often by himself and complains that people don´t like him. Clearly he is unhappy. I know there are different medications to help kids. Can medication help my son? This may also seem like a silly question but since I desperately want my son to be resilient, is there a medication that can help him to be resilient?

ANSWER

Let´s start with your last question first. As far as we are aware, there are no medications currently on the market or in research directed at improved resilience. However, lest you lose hope for your son improving his outlook, we can say there are medications approved to ameliorate certain childhood problems, problems that may in fact reduce a child´s capacity to develop a resilient mindset. Your son´s oversensitivity to disappointment likely reflects his low emotional threshold and high intensity of reaction, typical of many youngsters with a “difficult” temperament. Problems with hyperactivity and organization often accompany this profile. Children with these behaviors typically experience struggles making and keeping friendships since their interpersonal skills are adversely affected by these behaviors. Some may at first desperately seek friendships but when they met with failure, they may retreat to their rooms, convinced that no one will ever like them. It is little wonder that many children similar to your son report being all alone and lonely. One boy told us with tears, “I call other kids to ask them to play but they are always busy and no one ever calls me”.

In clinic settings, children with this pattern are also frequently described as having problems with sustained attention and impulsivity, frequently leading to a diagnosis of Attention Deficit Hyperactivity Disorder (ADHD). When children receive this diagnosis the question about the role medications may play as part of their treatment plan is quickly raised. Keep in mind that we believe strongly that pills will not substitute for skills. A pill is not a substitute for an available, caring parent, a set of friends, a competent teacher, or successful life experiences. Stimulant medications, in particular, however, are effective in reducing the symptoms and adverse consequences children with ADHD demonstrate. The use of these medications for ADHD is well established with nearly four hundred studies demonstrating short-term symptom relief. But symptom relief is not synonymous with changing long-term outcome. Thus, there is not a single study suggesting that when children with ADHD take medicine they turn out better as adults than those children who do not. In contrast, however, when they take medicine and it improves their behavior, it is more likely their teachers and parents will appreciate them more and yell at them less.

Studies involving thousands of children treated with stimulant medications have demonstrated that medication is effective more than 70 percent of the time. Other classes of medicines such as antidepressants sometimes are effective but have not proven to be as effective as the stimulants, including methylphenidate (marketed as Ritalin®, Concerta®, and Mthylin®), mixed salts of amphetamine sulfate (marketed as Adderall®), and dexedrine (marketed as Dextrostat®).

Parents often worry that medications sedate children but this is not the case. Instead when used appropriately, these medications increase children´s capacity for self-control. Stimulants have been demonstrated to increase self-control in even unaffected children and adults. However, children receiving the diagnosis of ADHD benefit to a much greater degree. These medicines increase the capacity to think before acting, control impulses, and regulate behavior. The exact mechanism of these medications is not well understood, but they appear to stimulate parts of the brain that are understimulated, in particular, the right prefrontal cortex, basal ganglia, and cerebellum. The pathways between these three organs in the brain appear critically important for self-control. These medications don´t mask the symptoms of ADHD but directly act on a cause of the problem by adjusting a biochemical condition that interferes with children´s capacity to develop and demonstrate self-control leading to impulsive behavior and poor sustained attention.

It is estimated that more than three million children now receive stimulant medication for ADHD. There is no conclusive evidence that treatment leads to chemical dependence or addiction. Nor is there any evidence that it negatively affects a child´s potential height or causes long-term personality change or other serious illness. The most common negative side effects for children are loss appetite and insomnia as the medicine wears off.

We believe that the use of these medications to treat children with ADHD is important in many cases. But again, keep in mind that the medicine will not magically fix poor classroom or defiant behavior or learning problems, nor will it magically lead children to develop a resilient mindset in the absence of parental care and support. Also, the decision to place a child on medication should be based on a thorough psychological and neuropsychological evaluation, including the completion of checklist about the child´s behavior from parents and teachers.

We want to emphasize that even if a child benefits from medication, it should not be used as the only intervention approach. Some children with more mild to moderate symptoms of ADHD often respond well to a consistent, behavior management or problem-solving approach at home and school; some of these children may not have responded successfully to medication. The problem-solving program we advocate is based in great part on the work of Myrna Shure, author of Raising a Thinking Child and Raising a Thinking Preteen. This approach, in which children are enlisted to identify the problem, think of possible solutions and their outcomes, and then select the solution that appears to have the best possible chance of success, is a program that can be utilized with or without a child taking medication.

More specifically, in terms of your son, it would be important to discuss with him the problem of being organized and getting ready on time. Engage him in a dialogue of (a) the problems resulting from not being ready on time, (b) what interferes with his getting ready, and (c) possible solutions. For example, we have worked with families in which children select the evening before what clothes to wear the next day, and they have their books and homework placed in their book bags before they go to bed. As simple as this might seem, the more that things are prepared the evening before, the less the likelihood of a child frantically running around looking for things the next morning.

Other households will use a list drawn up by the child and parents to remind the child what needs to be done in the morning. One child, concerned he would forget what was on the list that was placed on the door of his room, requested that the list also be placed on the bulletin board in the kitchen and on the door of bathroom. This child appreciated his difficulties getting organized and following a routine and realized that at present he required as many visual aids as possible. Since he helped to create these visual aids, he felt more empowered and, thus, remembered to check the lists. Very important, his involvement in a problem-solving approach nurtured a resilient mindset. But remember, not every intervention will be successful and many will take time before they take hold.

The presence of these kinds of behavioral approaches to increase self-control and hopefully, more satisfying peer relationships prompts us to emphasize another point. Many parents incorrectly believe that if children with ADHD take medicine for a number of years, they will develop self-control more rapidly and at some point they can stop the medication and continue functioning well. Unfortunately, the day medicine stopped for many children appears similar to the day before it was started. Thus, treating many children with ADHD with medication is similar to treating diabetics with insulin. When the medicine is taken, functioning improves. Remove the medication and functioning quickly regresses, even after a long period of successful treatment. Thus, we believe strongly that along with medication we must continue helping children with delayed development of self-control accelerate their abilities to develop self-discipline and problem-solving skills (Nurturing resilience in our children, Robert Brooks & Sam Goldstein, 2003, p. 125).



quinta-feira, 14 de abril de 2011

Consequências psicossociais do desastre

O texto abaixo é uma livre tradução minha do capítulo I do livro Lidando com desastres – um guia para intervenção psicossocial (COPING WITH DISASTERS - A GUIDEBOOK TO PSYCHOSOCIAL INTERVENTION, byJohn H. Ehrenreich, Ph.D. October 2001). Quem desejar o texto original, é só me solicitar.

Capítulo I

Consequências psicossociais do desastre

Um resumo das consequências psicológicas do desastre

Num domingo, 05 de março de 1987, dois terremotos atingiram o Equador, aproximadamente 85 km da capital Quito. Fortes chuvas nas semanas anteriores tinham deixado o solo macio na área ao redor e o terremoto causou fortes deslizamentos de terra nas encostas das montanhas. Detritos ficaram represados nos rios, causando enchentes que destruíram cidades ao longo de suas margens e poluíram o suprimento de água de toda a região. A principal via ligando a região ao resto do Equador, assim como as estradas secundárias, foram destruídas. Os oleodutos ligando os principais pontos de extração de óleo aos portos estavam inoperantes, derrubando em 50% as receitas com as vendas desse produto. Milhares de pessoas tiveram sua sobrevivência prejudicada pela falta de água e comida, pela falta de transporte e de terra cultivável. Aproximadamente 70 mil casas, assim como escolas, hospitais e prédios públicos foram demolidos. Mil pessoas morreram e outras cinco mil ficaram sem teto.
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Na noite de 2 para 3 de dezembro de 1984 a cidade de Bhopal, na parte central da Índia, foi coberta por uma nuvem de isocianato de metila, um gás venenoso que tinha sido vazado de um tanque da fábrica Union Carbide India Ltd. Por volta da meia-noite as pessoas acordaram se sentindo sufocadas, com intensa irritação e vomitando. O pânico se espalhou: as pessoas corriam desesperadas para escapar do gás, muitas morreram no local, pisoteadas quando caíram ao tentar fugir. Outras só conseguiram ficar seguras depois de horas correndo. Aproximadamente 300 mil pessoas foram expostas ao gás mortífero; cerca de 2.500 morreram.
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Centenas de pessoas construíram sua vida revolvendo o lixo do principal depósito onde eram despejadas as 10 mil toneladas diárias de lixo produzidas em Manila, nas Filipinas. Em 17 de julho de 2000, após uma semana de chuvas, a grande montanha de lixo de 15 metros de altura desmoronou. Embora o número de mortos tenha sido incerto, pelo menos oitocentas pessoas morreram sufocadas. As fumaças venenosas emitidas pelo lixo apodrecido e pela putrefação dos corpos dificultaram os esforços de resgate.

Imagine você e sua família vítimas de um desastre: um terremoto, um tornado, uma enchente, a queda de um avião em sua comunidade, um acidente com usina nuclear, um ataque terrorista. O que nos acontece quando somos acometidos por um desastre? O que sentimos e experienciamos sob tais circunstâncias? Quase que instantaneamente, em resposta às imagens e sons do evento em si mesmo, nosso coração dispara, nossa boca seca, nossos músculos ficam tensos, nossos nervos entram em alerta, sentimos intensa ansiedade, medo ou terror. Se houve pouco ou nenhum aviso, podemos não entender o que está acontecendo com a gente. O choque, uma sensação de não realidade e o medo dominam. Muito depois do evento, as imagens, sons, cheiros e sentimentos persistem como lembranças indeléveis em nossa memória.

Assim que o choque imediato e o terror desaparecem, surgem efeitos de longo prazo. O desastre desafia nossos pressupostos básicos e nossas crenças. A maioria de nós, na maior parte do tempo, acredita que nosso mundo pessoal é previsível, benevolente e cheio de significados. Supomos que acreditamos em nós mesmos e em outras pessoas e que nós podemos lidar com a adversidade. O desastre destrói essas crenças e nos tornamos conscientes de nossa vulnerabilidade. Ao mesmo tempo nos sentimos sem esperança e sem possibilidade de ajuda. Desesperamo-nos com nossa inabilidade para tomar decisões e de agir de maneira que faça diferença para nossa família e para nós mesmos.

Na sequência do desastre, nós sofremos pela morte dos nossos entes queridos e nos admiramos pelo fato de estarmos vivos (e nos sentimos indignos e culpados por termos sobrevivido). Nós também sentimos por nossa casa, pelos objetos de valor pessoal, por documentos perdidos, pela perda de vizinhos queridos. Se o desastre destruiu nossas atividades tradicionais de subsistência na comunidade ou a comunidade em si mesma, podemos ter sentimentos intensos de laços rompidos com nossa identidade social e cultural. A perda de nosso mundo pessoal, do sentido de segurança, da crença em nós mesmos, na fidelidade dos outros ou até mesmo na benevolência de Deus não são apenas pensamentos; eles disparam sentimentos profundos de perda e dor.

Nos dias e semanas seguintes ao desastre nós podemos vivenciar uma grande variedade de distúrbios emocionais. Por exemplo, sofrimento crônico, depressão, ansiedade e culpa predominam. Para outros, dificuldades para controlar a raiva, suspeitas, irritabilidade e hostilidade prevalecem. Outros, ainda, evitam ou se escondem de outras pessoas. Para muitos, o sono é perturbado por pesadelos, as horas acordadas por lembranças nas quais sentem como se o desastre estivesse ocorrendo novamente. Não poucos começam a abusar de álcool e outras drogas.

Podem existir variações culturais nos padrões precisos nos quais sintomas relacionados a desastres aparecem, mas relatórios de países como China, Japão, Sri Lanka, México, Colômbia, Armênia, Ruanda, África do Sul, Filipinas, Fiji, Bósnia, Inglaterra, Austrália e Estados Unidos, entre outros, mostram que as respostas emocionais ao desastre são bastante parecidas ao redor do mundo.

Traumatismo secundário: não são somente aqueles que experimentam diretamente o desastre (as vítimas “primárias”) que sentem os efeitos emocionais. Vítimas “secundárias” – a família dos diretamente afetados, espectadores e observadores e o pessoal de resgate (os pagos e os voluntários) que procuram resgatar as vítimas primárias também experimentam sérios efeitos emocionais. Médicos e trabalhadores da saúde mental e oficiais de resgate que trabalham posteriormente com as vítimas primárias e secundárias são constantemente expostos a efeitos físicos e emocionais dos outros, ou podem ser eles mesmos as vítimas de “traumas por contaminação”. Mesmo aqueles que estão investigando o desastre (jornalistas, trabalhadores de organizações humanitárias avaliando as necessidades, representantes de direitos humanos) podem ficar traumatizados.

O “segundo desastre”: a primeira fonte do trauma emocional é, com certeza, o desastre em si mesmo. Mas as fontes de traumatismo não terminam quando o desastre acaba (num sentido literal) e quando as vítimas foram resgatadas. Após o desastre surge “o segundo desastre” – os efeitos da resposta ao desastre. O influxo rápido de voluntários bem-intencionados, que precisam ser alimentados e abrigados, se adicionam à confusão e competição por escassos recursos. Em algumas instâncias, pessoas pobres vindas de fora da região do desastre inundam essa área, procurando eles mesmos dividirem a comida e outros suprimentos que as organizações de resgate providenciam para as vítimas do desastre. Isso aumenta ainda mais o fardo nos profissionais que realizam o resgate e nas comunidades atingidas.

Aqueles que são forçados a se refugiar num acampamento ou num campo de refugiados por longos períodos de tempo são forçados a se confrontar com as consequências do desastre de forma contínua e implacável. Às perdas pessoais e materiais nós adicionamos agora a perda de privacidade, perda da comunidade, perda da independência, perda da familiaridade com o meio-ambiente e perda da certeza com relação ao futuro. Papéis familiares e funções de trabalho do dia-a-dia são interrompidos.

Higiene precária, abrigos inadequados, água e comida contaminadas produzem epidemias, com disseminação de doenças resultando em mortes. No abrigo, roubos pessoais e estupros podem colocar as mulheres, os mais velhos e outros mais vulneráveis em perigo. Conforme as semanas e os meses passam, a raiva com relação à lentidão da reconstrução ou a corrupção que evitam a chegada de suprimentos às vítimas pode se adicionar ao estresse. Em alguns casos, como na Nicarágua após o terremoto de 1972, e no México após o terremoto de 1985, tal insatisfação produziu instabilidade política generalizada.

Efeitos retardados do desastre: alguns efeitos emocionais dos desastres podem não aparecer até depois de um tempo considerável. Para algumas vítimas, o alívio inicial de ter sido resgatado e o otimismo inicial sobre as perspectivas de recuperação podem produzir uma “fase de lua de mel” (honeymoon stage). Após um período de meses ou anos isso pode dar lugar à sensação de que as perdas pessoais e materiais são irrecuperáveis. Pessoas queridas que morreram não retornam. As rupturas na família são permanentes. Empregos antigos não são recuperados. Uma longa redução na qualidade de vida continua. Depressão e ansiedade agora aparecem pela primeira vez em algumas vítimas e a taxa de suicídio pode aumentar.

Outras vítimas de desastres parecem estar inicialmente bem. Todavia, isso pode ser ilusório. Para proteger a si mesmas elas podem suprimir ou inibir o processamento do impacto do desastre sobre elas. Após um tempo (muitas vezes considerável), estímulos associados com o desastre podem disparar lembranças, trazendo de volta à consciência materiais previamente suprimidos. Como resultado disso, respostas psicológicas ao desastre podem “subitamente” aparecer, meses ou até mesmo anos depois do acontecido.

Prevalência de efeitos psicológicos adversos após a ocorrência de desastres

Embora os números precisos variem de situação para situação, espera-se que acima de 90% das vítimas apresentem pelo menos algum tipo de efeito psicológico que incomoda nas primeiras horas seguintes ao desastre. Muitas vezes, os sintomas diminuem gradualmente nas semanas que se seguem. Por volta da décima segunda semana após o desastre, no entanto, 20 a 50% ou mais podem ainda mostrar sinais significantes de estresse. Os números mostrando sintomas geralmente continuam caindo, mas respostas atrasadas e respostas a consequências tardias do desastre continuam a aparecer. Enquanto a maior parte das vítimas do desastre está relativamente livre do estresse por volta de um a dois anos após o evento, um quarto ou mais das vítimas podem ainda mostrar sintomas significantes, enquanto outras, que tinham previamente estado livre de sintomas, podem mostrar sinais de estresse um ou dois anos após o desastre. Aniversários do desastre podem ser momentos especialmente difíceis para muitos sobreviventes, com uma reaparição temporária e inesperada de sintomas dos quais eles pensavam ter se livrado. Relatos de sofrimento emocional generalizado dez anos ou mais após desastres como o de 1972, que inundou Buffalo Creek (EUA) e a internação em campos de concentração tem sido bem fundamentados.

A extraordinária prevalência de tais intensas respostas psicológicas, cognitivas e emocionais, a desastres indicam que elas são normais a situações extremas e não um sinal de “doença mental” ou de “fraqueza moral”. Contudo, os sintomas vivenciados por muitas vítimas nos dias e semanas seguintes ao desastre são uma fonte de sofrimento significante e podem interferir com sua habilidade para reconstruir suas vidas. Se não forem encaminhadas e resolvidas relativamente rápidas, tais reações podem se tornar uma fonte contínua de estresse e disfunções, com efeitos devastadores para o indivíduo, sua família e sua comunidade.

Fatores que afetam a vulnerabilidade a efeitos psicológicos adversos

Nem todo mundo é igualmente afetado por um desastre e nem todos os desastres são igualmente devastadores em termos psicológicos. Muitos fatores podem aumentar o risco de conseqüências psicológicas adversas:

- Quanto mais severo o desastre e mais terríveis ou extremas são as experiências do indivíduo, maior a probabilidade generalizada e duradoura dos efeitos psicológicos. Em casos extremos (por exemplo, os campos de concentração nazistas, o genocídio de Ruanda, os “campos da morte” cambojanos), virtualmente todos que estão expostos a eventos traumáticos sofrem efeitos duradouros.

- Alguns tipos de desastres tem maior probabilidade de produzir efeitos adversos que outros. No geral, as consequências psicológicas dos desastres que são intencionalmente infligidos por outros (exemplo: assaltos, ataques terroristas, guerras) são provavelmente maiores que aqueles desastres que podem ser produzidos por atividades humanas, mas que não são intencionais (exemplos: acidentes de avião, explosões industriais). Esses, por sua vez, tem uma maior probabilidade de produzir efeitos adversos que os desastres naturais puros (exemplo: furacões, tornados).

- Mulheres (especialmente mães de crianças pequenas), crianças entre 5 e 10 anos de idade e pessoas com uma história de doença mental pregressa ou ajustamento social pobre parecem ser mais vulneráveis que outros grupos. Aqueles com uma experiência pessoal anterior de trauma, tanto individual (exemplo: estupro) quanto coletiva (exemplo: terremoto, genocídio) geralmente são também mais vulneráveis.

- Vários tipos específicos de experiências de desastre são especialmente traumáticos. Eles incluem testemunhar a morte de pessoas queridas, perder um filho adolescente ou jovem adulto, ser soterrado, ferido seriamente ou hospitalizado como resultado do desastre.

- Em adição aos efeitos “psicológicos” do desastre, alguns dos efeitos físicos (exemplo: ferimentos na cabeça, queimaduras, lesões por esmagamento, exposição a toxinas, dores prolongadas) podem produzir diretamente, através dos processos fisiológicos, efeitos psicológicos adversos, tais como dificuldade de concentração, dificuldade de memorização, depressão e instabilidade emocional.

- Refugiados de guerra, de repressão política, ou violência política, são também de alto risco para efeitos adversos. Em adição aos efeitos de eventos que podem tê-los expulsados de casa, experiências negativas em abrigos e campos de concentração (exemplo: má nutrição, epidemias de doenças infecciosas, estupro e outras agressões físicas) podem eles mesmos produzir efeitos psicológicos adversos e desordens psicológicas.

- A “estigmatização” das vítimas de desastres pode tornar difícil sua recuperação. Uma situação infelizmente comum na qual isso ocorre é quando parte da experiência traumatizante foi causada por estupro. Em muitas guerras atuais, o estupro tem servido como uma arma. Estupro é também o maior risco para mulheres em campos de refugiados. As vítimas podem ser incapazes de contar para suas famílias e amigos sobre o que lhes aconteceu, por medo de serem culpabilizadas ou mesmo punidas.

- De forma inversa, a disponibilidade de redes de apoio social – famílias suportivas, amigos e comunidade – reduz a probabilidade da duração dos efeitos adversos. E aqueles que enfrentaram com sucesso traumas no passado podem suportar melhor os desastres subseqüentes, como se tivessem sido “inoculados” contra o estresse. Para uma minoria de vítimas, o desafio do desastre pode realmente ser positivo e levar ao aumento da habilidade para lidar com desafios futuros na vida.

- Quanto mais grave o desastre, menos importa as características individuais. Em muitos desastres graves, todos podem potencialmente apresentar respostas emocionais adversas. Em desastres relativamente brandos, diferenças de vulnerabilidade ou diferenças individuais podem ser de grande importância.

OS ESTÁGIOS DA RESPOSTA PSICOLÓGICA AOS DESASTRES

Costuma-se conceitualizar as consequências do desastre em termos de uma série de estágios ou fases, cada uma das quais com suas próprias características. As fases, apressamo-nos a dizer, não são rígidas. Ocorrem muitas variações em cada estágio e os estágios se superpõem.

O estágio do “resgate”

Nas primeiras horas ou dias após o desastre a maioria das atividades de resgate é focada em resgatar vítimas e procurar estabilizar a situação. As vítimas devem ser alojadas, vestidas, receber atenção médica, providas de comida e água.

Durante o estágio de resgate vários tipos de resposta emocional podem ser vistas. As vítimas podem variar de um para outro tipo de resposta, ou podem não apresentar uma resposta “típica”, das que pareceriam mais evidentes.

• “Insensibilidade” psíquica: as vítimas podem parecer aturdidas, confusas, apáticas. Uma calma superficial é seguida de negação ou tentativa de se isolar. As vítimas podem reportar sentimentos de irrealidade: “isso não está acontecendo”. Elas podem responder ao resgate de uma forma passiva, dócil, ou podem se rebelar e se defender quando tentam reconquistar um senso de controle pessoal. Elas podem parecer como autômatas em suas atividades diárias. Essa resposta padrão é geralmente transitória e pode ser seguida por (ou precedida de) excitação aumentada.

• Excitação aumentada: as vítimas podem experienciar intensos sentimentos de medo, acompanhados de excitação fisiológica: aceleração cardíaca, tensão muscular, dores musculares, distúrbios gastrointestinais. Elas podem se engajar em atividades excessivas e podem expressar uma variedade de medos racionais e irracionais. Essa resposta padrão é geralmente transitória e pode ser seguida por (ou precedida de) insensibilidade psíquica.

• Ansiedade difusa: as vítimas podem apresentar sinais difusos de ansiedade: resposta exageradamente surpreendente, incapacidade de relaxar, incapacidade para tomar decisões. Elas podem expressar sentimentos de abandono, ansiedade de separação de seus entes queridos, perda de sentido de segurança e ânsia por alívio.

• Culpa do sobrevivente: as vítimas podem culpar a si mesmas ou sentir vergonha por terem sobrevivido enquanto outros não sobreviveram. Pode haver uma preocupação com pensamentos sobre o desastre e ruminação sobre suas próprias ações: elas poderiam ter agido de forma diferente? Elas podem se sentir responsáveis pelo infortúnio dos outros.

• Conflitos sobre os cuidados: as vítimas podem ficar dependentes dos outros, ainda que desconfiadas, e podem sentir que ninguém pode entender o que elas passaram. Algumas vítimas podem sentir a necessidade de distanciar-se emocionalmente e para manter-se “duronas” podem-se irritar frente à simpatia dos outros. Outras podem sentir um desejo intenso de estar com pessoas o tempo todo.

• Ambivalência: algumas vítimas podem demonstrar ambivalência sobre a aprendizagem do que aconteceu com suas famílias e seus bens.

• Instabilidade afetiva e cognitiva: algumas vítimas podem apresentar raiva repentina e agressividade, e, inversamente, apatia e falta de energia e habilidade para movimentar-se. Elas podem ficar desleixadas e chorar facilmente. Sentimentos de vulnerabilidade e ilusões sobre o que aconteceu são comuns.

• Ocasionalmente, as vítimas parecem estar em um estado confusional agudo. Reações histéricas e sintomas psicóticos como delírios e alucinações, fala desorganizada e comportamento bastante desorganizado podem também aparecer. Eles podem estar isolados e ser de pouca duração ou podem constituir uma “psicose reativa breve”.

• A maioria das vítimas age de forma apropriada para proteger a si mesmas e as pessoas queridas. Na maioria dos desastres, apesar da crença no contrário, as vítimas podem demonstrar pouco pânico e podem se engajar em atitudes heróicas e altruístas.

Muitos desses comportamentos possuem uma qualidade adaptativa. Os comportamentos da maioria dos afetados por desastres, mesmo quando eles parecem anormalmente intensos ou inteiramente não familiares, devem ser entendidos como reações normais a condições ou eventos anormais e devastadores. Eles asseguram uma sobrevivência em curto prazo e permitem à vítima digerir informações a uma taxa controlável. Mas os sintomas em si mesmos podem ser percebidos pelas vítimas como socialmente condenáveis, como uma fonte de vergonha, culpa e falha, como uma evidência de inadequação. Cuidadores e profissionais do resgate, em troca, podem responder com irritação ou afastamento dessas vítimas.

Estágio do “inventário”

Uma vez que a situação estiver estabilizada, a atenção se volta para soluções em longo prazo. Os esforços heróicos de resgate dão lugar a formas burocratizadas de ajuda. Por volta de 12 a 18 meses, a assistência organizada de fora da comunidade diminui gradualmente e a realidade de suas perdas cai sobre as vítimas.

Nas primeiras semanas após o desastre as vítimas podem entrar numa fase de “lua de mel”, caracterizada pelo alívio de estarem seguros e estar otimistas quanto ao futuro. Mas nas semanas que se seguem, elas devem realizar uma avaliação realista sobre as conseqüências duradouras do desastre. A desilusão pode prevalecer. Os efeitos do “segundo desastre” são sentidos.

Durante essa fase, nenhuma da ampla variedade de sintomas pós-traumáticos aparece. Nenhum desses sintomas pode aparecer de forma isolada, mas frequentemente as vítimas demonstram alguns desses sintomas. Vários grupos distintos de sintomas são comuns. Muitas desses “transtornos de estresse pós-traumático”, “transtornos de ansiedade generalizada”, “luto anormal”, “depressão pós-traumática” merecem atenção. Somando-se a isso, muitos padrões restritos a culturas particulares podem aparecer.

SINTOMAS PÓS-TRAUMÁTICOS

- Dor, luto, depressão, desespero, desesperança

- Ansiedade, nervosismo, amedrontar-se facilmente, preocupar-se

- Desorientação, confusão

- Rigidez e obsessão ou vacilação e ambivalência

- Sentimentos de abandono e vulnerabilidade

- Dependência, apego excessivo; ou, alternadamente, afastamento social

- Suspeitas, supervigilância, medo de ser prejudicada, paranóia

- Distúrbios do sono: insônia, sonhos ruins, pesadelos

- Irritabilidade, hostilidade, raiva

- Ausência de humor, explosões repentinas de emoção

- Inquietação

- Dificuldades de concentração; perda de memória

- Queixas somáticas: dores de cabeça, sintomas gastrointestinais, suores e calafrios, tremores, fadiga, queda de cabelo, mudanças no ciclo menstrual, perda do desejo sexual, mudanças na visão e audição, dor muscular difusa

- Pensamentos intrusivos: lembranças, sentir-se “revivendo” a experiência, geralmente acompanhado por ansiedade

- Esquiva de pensamentos sobre o desastre e esquiva de lugares, figuras, sons que relembrem à vítima do desastre; esquiva de discussão a respeito disso

- Problemas no funcionamento interpessoal; conflito conjugal aumentado

- Aumentado uso de álcool e drogas

- Queixas cognitivas: dificuldade de concentração e de relembrar; lerdeza no pensamento

- Dificuldade de tomar decisões e de planejar

- Sentimento de isolamento e abandono

- Experiências “dissociativas”: sentimento de desprender-se de seu corpo ou de suas experiências, como se elas não estivessem acontecendo consigo mesmo; sentir as coisas como sendo “irreais”; sentindo-se como se estivesse “vivendo num sonho”

- Sentimento de inutilidade, vergonha, desânimo

- Comportamento impulsivo e autodestrutivo

- Ideação suicida ou tentativas de suicídio

- A “marca da morte”: preocupação com imagens de morte

Transtornos de estresse pós-traumático: as características do sintomas de estresse pós-traumático incluem:

(a) Reexperiências persistentes do evento traumático: lembranças recorrentes e incômodas dos eventos do desastre; sonhos estressantes recorrentes nos quais o desastre é revivido; estresse psicológico intenso ou reação fisiológica à exposição de sinais internos e externos que simbolizam ou se assemelham em aspecto ao evento traumático; ou experiências nas quais a vítima age ou sente como se o evento estivesse ocorrendo novamente (em crianças, podem ocorrer brincadeiras repetitivas nas quais os temas e aspectos do trauma são expressos; reconstituições do trauma específico dos eventos podem ocorrer, e podem acontecer sonhos assustadores sem conteúdo reconhecível).

(b) Esquiva persistente de estímulos associados com o trauma e entorpecimento continuado da responsividade geral: esforços por evitar pensamentos, sentimentos e conversas sobre o desastre; esforços por evitar atividades, lugares ou pessoas que lembram à vítima sobre o trauma; inabilidade para lembrar partes importantes da experiência do desastre; interesse acentuadamente diminuído por participar em atividades significantes; sentimentos de distanciamento e estranhamento dos outros; capacidade restrita de afeto; ou uma sensação de futuro abreviado, sem expectativas de viver uma vida normal.

(c) Sintomas persistentes de excitabilidade aumentada: dificuldade de iniciar ou manter o sono; irritabilidade ou explosões de raiva; dificuldade de concentração; hipervigilância; resposta de surpresa exagerada.

Esse grupo geral de sintomas tem sido reportado em todas as partes do mundo. Em partes menos industrializadas e entre pessoas vindo dessas áreas, a esquiva e os sintomas de entorpecimento são indicados como sendo menos comuns e os estados dissociativos e estados de transe, nos quais os componentes do evento são revividos e a pessoa se comporta como se estivesse passando novamente pelo evento, podem ser mais comuns.

Transtorno de ansiedade generalizada: os sintomas característicos da ansiedade generalizada incluem:

(a) Ansiedade e preocupação persistentes e excessivas sobre uma variedade de eventos ou atividades (não exclusivamente ligados ao desastre e suas consequências).

(b) A pessoa acha difícil controlar a preocupação e essa preocupação é desproporcional à realidade. Ela interfere na atenção às tarefas disponíveis.

(c) A ansiedade e a preocupação estão associadas com sintomas tais como agitação ou sentir-se “com os nervos à flor da pele”; sentir cansaço fácil; dificuldade de concentração ou com a mente em branco; irritabilidade; tensão muscular; e dificuldade de iniciar e manter o sono.

Embora alguns indivíduos com transtorno de ansiedade generalizada nem sempre identifiquem suas preocupações como “excessivas”, eles narram estresses subjetivos devido a sua constante preocupação e isso pode afetá-los nas áreas social, ocupacional, conjugal, entre outras. Sintomas somáticos (exemplo: mãos úmidas, boca seca, náusea ou diarréia, frequência urinária) e sintomas depressivos estão geralmente presentes.

Há uma considerável variação cultural em como a ansiedade é expressa. Em algumas culturas, ela pode ser expressa mais através de sintomas somáticos, enquanto em outras através de sintomas cognitivos. As crianças podem revelar sua ansiedade através de preocupação sobre sua competência (por exemplo, na escola), preocupação excessiva sobre pontualidade, excesso de zelo na busca de aprovação e um estilo pessoal de conformidade e perfeccionismo.

Luto anormal: normalmente após a morte de alguém querido uma sequência de estágios de luto é esperada. Geralmente a primeira resposta é de descrença e negação. Sentimentos de dormência podem dar trégua e permite à realização infiltrar devagar. Então, como se começássemos a perceber a realidade e o significado da perda, pode aparecer sensação de estresse, saudade da pessoa perdida, raiva dessa perda e ansiedade sobre nossa habilidade para lidar com esses sentimentos. Um período de melancolia se sucede, como se revíssemos nossas lembranças da perda da pessoa querida, e então, gradualmente, soltam-se os laços psicológicos, o que nos permite viver sem a pessoa perdida. Todas as culturas possuem rituais que, apesar da variação, parecem pretender facilitar esse processo.

O trauma, todavia, pode interferir com a habilidade para passar normalmente por esse processo. Os ferimentos da própria vítima, a perda dos suportes sociais, familiares e comunitários, culpa por ter sobrevivido e o próprio trauma psicológico da vítima podem interferir com os rituais esperados e os processos internos de luto. Lembranças do morto podem disparar outras lembranças da vítima em relação ao desastre. Ruminação pós-traumática pode não permitir que a vítima confronte as lembranças e pensamentos que são centrais para o luto. Entorpecimento pós-traumático pode interferir com o engajamento da vítima em interações sociais suportivas.

Pode haver ainda outros obstáculos práticos para essa despedida do morto. Por exemplo, processos legais podem atrasar os procedimentos do funeral ou preocupações sobre o enlutado ver o corpo do morto devido aos ferimentos que este pode ter sofrido no desastre podem levá-lo a não ter a oportunidade de ver esse corpo. Muitos estudos tem indicado que não ver o corpo do morto pode contribuir para um luto anormal e que ver o corpo, mesmo quando desconfigurado, não é inerentemente prejudicial. Poucas vítimas a quem foram permitidas e aceitaram ver os restos mortais se arrependeram depois.

Esses obstáculos psicológicos e práticos a uma resposta “normal” à morte de um ente querido podem contribuir para uma sensação de falta de terminar o luto ou permitem fantasias mágicas de que a pessoa morta não morreu de fato. Qualquer uma das muitas síndromes de luto anormal pode aparecer (Nota: diferentes culturas variam largamente com respeito a o que é “esperado” após a morte de um ente querido. Entre alguns povos, a expressão aberta de emoção é desaprovada. Entre outros, demonstrações em público são esperadas e a falta dessas demonstrações é considerada suspeita. Em algumas culturas, espera-se que as pessoas demonstrem sua dor de forma breve e então retornem a suas atividades normais. Em outras, espera-se um período longo de luto. A avaliação do significado desses padrões depende da consciência do que são as normas culturais em determinada cultura).

(a) Luto inibido: o luto exibe um padrão caracterizado por entorpecimento, contenção e controle exagerado das emoções, pouca demonstração de afeto. As pessoas parecem estar se “saindo bem”, mas este padrão está associado com posterior depressão e ansiedade.

(b) Luto distorcido: o enlutado demonstra intensa raiva e hostilidade, que dominam a sua tristeza e culpa. Essa raiva pode ser direcionada para qualquer pessoa que o enlutado associar com a morte do ente querido (exemplo: equipe de resgate).

(c) Luto crônico: os sentimentos de tristeza e perda não desaparecem. Choros freqüentes, preocupação com a perda são recorrentes.

(d) Depressão: o enlutado cai em depressão, com luto prolongado, desespero e a sensação de que a vida não vale à pena. Distúrbios de sono e apetite podem ocorrer. O enlutado pode ter fantasias ativas de ser reunido com o morto e ideação e tentativas de suicídio podem ocorrer.

(e) Culpa excessiva: o enlutado pode demonstrar excessiva auto-recriminação e preocupação com culpa, que eclipsam sua tristeza. Podem ocorrer comportamentos autodestrutivos, mas não claramente suicidas, como acidentes freqüentes ou uso excessivo de bebida alcoólica.

Depressão pós-traumática: depressão prolongada é um dos mais comuns achados dos estudos de pessoas traumatizadas de forma aguda ou crônica. Ela geralmente ocorre em combinação com transtorno de estresse pós-traumático. O trauma pode produzir ou exarcebar uma depressão já existente.

Sintomas comuns de depressão incluem tristeza, lerdeza nos movimentos, insônia (ou sono exagerado), fadiga ou perda de energia, diminuição do apetite (ou apetite excessivo), dificuldades de concentração, apatia e sentimentos de desamparo e anedonia (diminuição acentuada do interesse ou prazer nas atividades cotidianas), retraimento social, ruminações de culpa, abandono e mudança de vida irreversível, preocupações com perda e irritabilidade. Em alguns casos a pessoa pode negar sua tristeza ou pode se queixar, em vez disso, de sentir-se vazia ou sem nenhum sentimento. Alguns indivíduos apresentam queixas somáticas, incluindo dores generalizadas, ao invés de tristeza. Ideação ou tentativas de suicídio podem ocorrer. Em crianças, queixas somáticas, irritabilidade, retraimento social são particularmente comuns.

Em algumas culturas, a depressão pode ser largamente experienciada em termos somáticos, em vez de na forma de tristeza ou culpa. Queixas de “nervosismo”, dores de cabeça, dor crônica generalizada, fraqueza, cansaço, “desequilíbrio”, problemas no “coração”, sensações de “calor” ou preocupações sobre estar sendo amaldiçoado ou enfeitiçado podem aparecer.

Transtornos culturais específicos: as fronteiras entre ansiedade, depressão, dissociação e transtornos emocionais que tem predominantemente sintomas somáticos são bastante porosas. As vítimas geralmente apresentam sintomas que se encaixam em algumas dessas categorias. Em muitas sociedades e grupos culturais, padrões tradicionais de expressão do estresse tomam a forma de combinações de sintomas que não tem um equivalente exato no padrão internacional das categorias de doenças mentais. Uma resposta possível para o desastre pode tomar a forma de um desses “transtornos culturais específicos”. Eles podem incluir, por exemplo, susto e ataque de niervos (na América Latina e no Caribe), amok (Pacífico Sul), dhat (India), latah (Sudoeste da Ásia e Pacífico Sul) e khoucheraug (Camboja).

Em muitas partes do mundo o idioma convencional para expressar emoção pode ser o somático (exemplo: fadiga crônica, dores generalizadas, distúrbios gastrointestinais, sensações de “calor” ou medo de doenças somáticas (exemplo: hipocondria, medos de infecção). Em alguns grupos culturais o estresse do desastre pode assumir a forma de um “transtorno de transe”. Um “transe” é uma alteração transitória e acentuada no estado de consciência ou uma perda do habitual senso de identidade pessoal, associado com comportamentos estereotipados ou movimentos que são vividos como estando além do controle da pessoa ou por um estreitamento da consciência dos arredores.

O estágio de “reconstrução”

Por volta de um ano ou mais depois do desastre o foco muda novamente. Um novo padrão estável de vida começa a emergir. Em todo caso, a distinção entre o alívio em relação ao desastre e um padrão amplo de desenvolvimento social e econômico começa a diminuir e eventualmente desaparece.

Durante essa fase, embora muitas vítimas possam ter se recuperado por si mesmas, um número substancial continua a mostrar sintomas, muitos parecidos com os da fase precedente (“inventário”). Um número significante que não eram sintomáticas anteriormente podem agora exibir sérios sintomas de ansiedade e depressão, como se a realidade e a continuidade de suas perdas ficassem evidentes. O risco de suicídio pode, na verdade, aumentar nesse período. Outra característica do aparecimento tardio dos sintomas inclui fadiga crônica, sintomas gastrointestinais crônicos, incapacidade para o trabalho, perda de interesse pelas atividades diárias e dificuldade de pensar claramente.

A noção de “transtorno de estresse pós-traumático” descrito anteriormente deriva principalmente de observações de sintomas de sobreviventes de eventos traumáticos relativamente circunscritos. Um número de estúdios sugere que síndromes mais complexas podem aparecer em sobreviventes de traumas intensos, prolongados e repetitivos, como aqueles que foram feitos reféns, quem foi torturado repetidamente ou expostos a abuso físico ou a abuso sexual, que foi internado em um campo de concentração ou que viveu por muitos meses ou anos numa sociedade sob estado de guerra civil crônica.

Entre as vítimas de tais desastres pode aparecer a “síndrome do sobrevivente”. As pessoas que apresentam essa síndrome se descrevem como se caminhassem pela vida “sem nenhuma chama”. Depressão crônica, ansiedade e culpa por ter sobrevivido podem aparecer, ou, alternativamente, agressão crônica e “ódio constante”. Retraimento social, distúrbios de sono, queixas somáticas, fadiga crônica, labilidade emocional, perda de iniciativa, má adaptação social, pessoal e sexual se fazem presentes. O “prazer da vida” se foi, substituído por um “padrão pervasivo de lento desespero”. Relacionamentos conjugais e com os filhos ficam perturbados, geralmente criando distúrbios significativos nas gerações posteriores.

Outras vítimas de traumas prolongados, severos e repetitivos são descritos como exibindo “complexos de transtorno pós-traumático”, cujos sintomas incluem:

• Dificuldades em regular afeto (exemplo: depressão persistente, pensamento suicida, auto-agressão, raiva explosiva)

• Alternâncias na auto-percepção (exemplo: vergonha, culpa, sentido de profanação, sensação de ser diferente dos outros ou de desamparo).

• Alternâncias na consciência (exemplo: amnésia, estados dissociativos transitórios, pensamentos intrusivos, preocupações ruminativas)

• Dificuldades na relação com os outros (exemplo: isolamento, perturbação das relações íntimas, desconfiança persistente)

• Perturbação nos sistemas de acepções (exemplo: perda da fé, uma sensação de desamparo e desespero)

• Alterações na percepção do autor das atrocidades (exemplo: preocupação com vingança, atribuições irrealistas de poder total ao perpetrador, ou, paradoxalmente, gratidão por ele).

IMPACTOS COMUNITÁRIOS E SOCIAIS DOS DESASTRES

Os desastres atingem diretamente suas vítimas, mas criam também rasgos no tecido da vida social. Às vezes isso ocorre de forma direta e total, quando, como resultado do desastre, as pessoas são forçadas a deixar suas terras e migrar para um lugar qualquer. Em outros casos, o influxo rápido de equipes de resgate, a presença de representantes governamentais, imprensa e outros agentes de fora (incluindo meros curiosos), o fluxo de pessoas de fora da área atingida pelo desastre procurando pela comida trazida pelas equipes de resgate para provir às vítimas do desastre, somam-se para perturbar ainda mais a comunidade.

Até mesmo quando a estrutura formal da comunidade é mantida, o desastre pode desfazer os laços que mantinham as pessoas unidas, em famílias, comunidades, grupos de trabalho e a sociedade como um todo. Quando aqueles laços são destruídos, os indivíduos que fazem parte dos grupos afetados perdem amigos, vizinhos, uma comunidade, uma identidade social. Esses efeitos coletivos do desastre acabarão por ser tão devastadores quanto os efeitos individuais. As conseqüências do desastre para famílias, vizinhanças, comunidades e sociedades são muitas:

Dinâmicas familiares podem ser alteradas. Os desastres produzem mortes ou deficiências, separações familiares e dependência de doações podem minar a autoridade do provedor da família, suplantar as atividades tradicionais em casa e forçar as pessoas ou a sair de papéis antigos ou a começar novos. Sintomas de membros da família afetam suas interações com outros membros da mesma família. A entrada na intimidade da comunidade por pessoas de fora pode perturbar ou desafiar as práticas de educação das crianças e os padrões tradicionais de relacionamentos entre homem-mulher. Na sequência do desastre, conflitos conjugais e estresse aumentam; pode ocorrer aumento da taxa de divórcios após os desastres. Conflitos entre pais e filhos também se intensificam. São relatados aumento da violência intra-familiar (abuso infantil, abuso conjugal).

Desastres podem destruir fisicamente instituições importantes da comunidade, como escolas e igrejas, ou minar seu funcionamento devido aos efeitos diretos do desastre nas responsabilidades pessoais por essas instituições, como professores e padres. Padrões tradicionais de autoridade são destruídos, juntamente com formas de controle sobre os comportamentos individuais. Muitos estudos indicam um aumento nas taxas de violência comunitária, na taxa de agressão, abuso de álcool e drogas e na taxa de condenações legais após o desastre.

Os desastres minam a habilidade da comunidade de continuar com suas costumeiras ou tradicionais atividades centrais para os indivíduos, comunidade e identidade social, variando do trabalho até atividades recreativas para os rituais costumeiros. Algumas dessas rupturas são temporárias, mas outras são difíceis de reverter. Por exemplo, uma cheia pode danificar permanentemente a terra de uma fazenda e provocar um retorno a uma tradicional agricultura insustentável, ou um vazamento de óleo na costa afetar permanentemente os pesqueiros tradicionais. Com as pessoas forçadas a sair de suas casas e de suas terras por um curto ou longo período, e com registros pessoais e da comunidade perdidos devido ao desastre, aparecem oportunidades para saques. Isso pode ser limitado a posses pessoais ou a perdas permanentes de ferramentas, animais e terras. A comunidade cujos membros não podem continuar cultivando a terra, realizar atividades de produção do artesanato local, ou caçar e pescar de forma tradicional está destruída e seu sentido de identidade atacado.

Os desastres colocam uma pressão social sobre os papéis sociais das comunidades tradicionais, padrões de status social e liderança. Policia, agências locais de alojamento, instalações de saúde locais são sobrecarregados e encaram uma nova tarefa de integrar seu trabalho com a dos voluntários, frequentemente de fora da comunidade. Pode ocorrer irritação com a desigualdade na distribuição da ajuda após o desastre. Essas desigualdades podem exarcebar a diferença entre ricos e pobres. Especialistas externos podem representar uma ameaça para os profissionais locais. Na sequencia do desastre, novos líderes podem emergir na comunidade, devido ao papel dessas pessoas em responder ao desastre. Conflitos entre esses novos líderes e os líderes comunitários tradicionais podem aparecer.

A assistência externa pode ser necessária na sequência do desastre, mas pode também promover uma sensação de dependência da comunidade. Na medida em que as necessidades diárias são supridas de fora, os incentivos para retomar as atividades tradicionais são reduzidos. Essa não é uma questão de “dependência” psicológica. A provisão de comida e outros suprimentos podem competir com a produção local, perturbando os preços e salários tradicionais e prejudicando as tentativas para recriar os padrões antigos de produtividade. Acrescente-se a isso que o desastre em si mesmo pode ter destruído as ferramentas, oficinas, animais ou outras necessidades de produção.

Os desastres podem levar, direta ou indiretamente, a mudanças permanentes no processo de produção, especialmente processos de posse e uso da terra. A mudança da agricultura de subsistência para trabalho assalariado, o saque da terra, migração e desenraizamento e reassentamento tem um papel importante.

Cisões podem aparecer na comunidade conforme a coesão é perdida. Um dos perigos é o do bode expiatório, seja de indivíduos ou usando as divisões tradicionais da comunidade (exemplo: seguindo as linhas étnicas e religiosas).

Em comunidades com história de desastres anteriores, ou por causas naturais ou provocados pelo homem, o trauma produzido por um novo desastre pode reacender velhos sentimentos. Memórias do genocídio, guerra civil, opressão social, ou divisão étnico-racial e os sentimentos que eles produzem, e sentimentos de marginalização e desamparo podem ser exarcebados.

Em algumas comunidades que tiveram que lidar com desastres naturais repetidos, tais como enchentes, numa base mais ou menos regular, os desastres e as respostas a eles podem ser integradas pelos rituais da comunidade e seu sistema de crenças. As comunidades podem ter rituais tradicionais para lidar com os efeitos do desastre. Não apenas o desastre, mas as intervenções externas podem interferir com esses rituais tradicionais, com as respostas e com os significados atribuídos ao desastre; e essas intervenções podem ser vivenciadas como uma bênção ambígua ou até mesmo como uma fonte adicional de estresse.

Os desastres causam impactos nos indivíduos, nas famílias e nas comunidades. Esses impactos não são distintos, com efeitos separáveis. Os efeitos devastadores nos indivíduos que integram uma família ou uma comunidade exercem um papel maior em criar os efeitos nessa família e nessa comunidade. Mais importante, os sistemas de suporte sociais desempenham um papel extremamente importante em proteger os indivíduos do impacto do desastre e do impacto do estresse em geral. Desrupções sociais podem reduzir e interferir nos efeitos de cura da família e da comunidade e são elas mesmas fontes enormes de estresse nos indivíduos que fazem parte dessa família ou comunidade. Desrupção na família ou na comunidade podem ser mais devastadores, num curto, e especialmente num longo prazo, do que o desastre em si mesmo.

terça-feira, 29 de março de 2011

Influências genéticas no processo de resiliência individual


Reginaldo Branco da Silva

Nos últimos anos estudos sobre resiliência que tem levado em conta a análise de condições multifatoriais para chegar a conclusões do por que algumas pessoas sucumbem a situações de adversidade, e outras não, mostram o equívoco de análises que se baseiam somente em características individuais como fatores de enfrentamento e superação de situações de tensão. Levar em conta também os fatores comunitários, culturais, ambientais e genéticos facilita a abordagem nos estudos sobre resiliência, bem como a intervenção como promoção de possibilidades de enfrentamento (coping), tirando das costas do indivíduo a responsabilidade única pelo sucesso ou insucesso na superação das situações de adversidade.

Este texto é sobre a defesa da participação dos aspectos biológicos no processo de resiliência, mais ainda, sobre como a plasticidade cerebral influencia, e é influenciada, pelos aspectos sociais, culturais, espirituais e psicológicos do indivíduo; ou seja, como o cérebro muda e pode ser mudado pelas experiências do dia a dia. Essa plasticidade tem, comprovadamente, um componente genético importante na sua construção e é vista como um dinâmico processo do sisterma nervoso central (CNC) que orquestra constantemente alterações neuroquímicas, estruturais e funcionais em resposta à experiência. De fato, tem sido sugerido que a plasticidade do cérebro humano é um dos mecanismos centrais que definem o sucesso evolutivo da espécie humana.

O progresso continuado das pesquisas sobre as experiências de enfrentamento que os indivíduos realizam e como os componentes biológicos, mormente a genética, atuam facilitando ou dificultando essas experiências permitem que se tenha uma imagem mais abrangente e sofisticada do processo de resiliência. No entanto, é preciso ter claro que essa perspectiva não deve ser interpretada erroneamente como se a resiliência fosse um fruto somente da biologia. Além disso, a inclusão de medidas biológicas da pesquisa em resiliência não deve dar ouvidos a cientistas que pensam que isso seria voltar para o momento em que alguns defendiam a ideia de que havia crianças ´invulneráveis´ (CHICHETTI & BLENDER, 2006, p. 250). Por tudo isso, tem havido cientistas que tem fechado os olhos à importância da genética e não incorporado esse componente em seus estudos sobre os determinantes da resiliência, não levando em conta que o conhecimento da variação genética pode auxiliar na identificação de quais indivíduos seriam mais vulneráveis aos efeitos adversos e quais as função protetoras por genes estariam presentes, através da investigação da interação gene × meio ambiente (G × E). Essa negação pode aumentar a possibilidade de serem apontados fatores emocionais em determinados casos de resiliência que na verdade são obtidos por fatores genéticos (Rutter, 2007, p. 497).

A participação dos componentes biológicos como determinantes do processo de resiliência é evidenciada na função do sistema neural e neuroendócrino em relação ao enfrentamento da adversidade, e pesquisas sobre genética molecular podem revelar os elementos genéticos que servem como proteção para os indivíduos que experimentam tensões significativas, tais como crianças que sofrem maus tratos familiares, abandono, violência sexual, etc. Além disso, uma poderosa ferramenta para a identificação dos genes da vulnerabilidade e da proteção poderá ser em breve utilizada, que é o mapa de haplótipos humanos, “o que permitirá fornecer informações valiosas sobre a variação genética individual que, em interação com experiências ambientais específicas, podem levar a distúrbio mental ou resiliência, respectivamente” (CHICHETTI & BLENDER, 2006, p. 250).

A análise múltifatorial enfatiza a importância fundamental das inter-relações de diversos fatores em seus estudos, não relegando os resultados a um único fator, o biológico ou psicológico, por exemplo, nas pesquisas sobre resiliência. Assim como a expressão do gene altera o comportamento social, as experiências psicossociais alteram a expressão do gene. Exemplo são os maus tratos a crianças, que exercem transformações no desenvolvimento do cérebro, modificando sua expressão gênica, sua estrutura e seu funcionamento, assim como alterações na expressão gênica induzidas pelo aprendizado e pelas experiências sociais e psicológicas produzem mudanças nos padrões de conexões neuronais e sinápticas e na função das células nervosas. “Tais modificações neuronal e sináptica não só exercem um papel proeminente em iníciar e manter as mudanças de comportamento que são provocadas pela experiência, mas também contribuem para as bases biológicas da individualidade, assim como evidenciam indivíduos que estão sendo diferentemente afetados por experiências semelhantes, independentemente da sua valência” (CHICHETTI & BLENDER, 2006, p. 251). No entanto, nada é determinístico, pois é provável que a experiência de abuso e negligência de crianças possa exercer efeitos diferentes sobre a estrutura, função e organização neurobiológicas em crianças maltratadas que deram a volta por cima e superaram essa dificuldade, do que em crianças maltratadas que não se recuperaram psicologicamente.

Há pequeno, mas crescente, corpo de resultados de estudos genéticos moleculares em que as variações genéticas particulares foram encontradas associadas com acentuadas diferenças na suscetibilidade a determinados fatores de risco. Como exemplos dessa interação gene-meio ambiente (GxE) estão os resultados da investigação de Caspi (CASPI et. alli, 2002, p. 851), sugerindo que essa interação ajuda a explicar porque algumas crianças maltratadas, mas não outras, desenvolvem comportamentos anti-sociais através do efeito que essas experiências de adversidade exercem sobre o desenvolvimento do sistema neurotransmissor. Esses achados permitem explicar parcialmente porque nem todas as vítimas de maus tratos repetem esses maus tratos quando crescem e produzem evidências epidemiológicas de que os genótipos podem moderar a sensibilidade das crianças para as agressões do meio ambiente. Estudos sobre essas associações são citados por Rutter (RUTTER, 2007 p. 492), sobre transmissão genética do uso de álcool e outras drogas e por Chichetti e Blender (CHICHETTI & BLENDER, 2004, p. 17.326), em que a resposta de um indivíduo às agressões ambientais é moderada pela sua composição genética.

Essas investigações de análises de múltiplos níveis podem revelar os elementos genéticos que estão probabilisticamente associados às conseqüências do mau desenvolvimento e da psicopatologia, e, alternativamente, os genes que servem como função de proteção para os indivíduos que experimentam adversidade significativa (CHICHETTI & BLENDER, 2004, p. 17.325). As evidências surgidas sobre a influência dos fatores genéticos servem para destacar a importância de se considerar a ampla variedade de possíveis mecanismos de mediação e moderação na resiliência. Será essencial distinguir com vistas ao entendimento da resiliência quais indivíduos, por causa do seu genótipo, podem responder de forma mais competente e vantajosa às adversidades em condições ótimas de desenvolvimento.

Rutter (RUTTER, 2007 p. 494) aponta que os genes não operam em apenas um caminho, situando quatro pontos dessa questão: primeiro, os genes que afetam E (meio ambiente) podem não ser os mesmos que fornecem o principal efeito sobre o transtorno principal; e o G (fatores genéticos) que carrega o risco de P (fenótipo psicológico) pode não ser o mesmo G que cria a susceptibilidade para E (meio ambiente); segundo, o efeito precisa estar somente (ou principalmente) no ambiente de criação; terceiro, existem algumas circunstâncias em que pode haver transmissão intergeracional de experiências adversas maternas, um efeito que servirá para simular a transmissão genética; e quarto, assume-se que a interação gene-meio ambiente passiva (considerada puramente genética) envolve riscos ambientais que afetam todas as crianças da mesma forma.

Futuras pesquisas sobre resiliência com bases biológicas terão o desafio de tentar relacionar a plasticidade neural a fenômenos particulares de comportamento, tentando encontrar associações entre comportamentos e alterações específicas nos processos neurais, provocadas por fosforilação e expressão de genes. Para isso, é de suma importância que as investigações sobre os correlatos e determinantes

de adaptação resiliente comecem a incorporar métodos de genética molecular e neurobiológicos em suas ferramentas de medição predominantemente psicológicas. Por exemplo, postular se algumas das dificuldades apresentadas por pessoas que sofreram adversidades significativas em suas vidas são irreversíveis, ou se existem períodos sensíveis particulares, quando é mais provável que a plasticidade neural e comportamental ocorra. Embora o debate continue em torno da veracidade dos modelos da intereção gene-meio ambiente, e futuros estudos são necessários antes que essas hipóteses possam ser definitivamente confirmadas, existem fortes indicações de uma associação direta entre variações genéticas e consequências na saúde mental (KIM-COHEN & GOLD, on line, p. 4).

Do ponto de vista da intervenção, três conclusões inter-relacionadas que derivam da visão geral dos efeitos GxE são importantes: 1- É evidente que alguns riscos podem ser geneticamente determinados, porém, exercem seus efeitos através de diversos mediadores ambientais; 2- De forma análoga, alguns mediadores ou moderadores podem parecer moldados pelo ambiente, quando na realidade são em grande parte influenciados geneticamente; e 3- É uma ressalva importante para o segundo, isto é, mesmo atributos sujeitos a fortes influências genéticas não são necessariamente fixos ou imutáveis para as intervenções (efeitos genéticos são probabilísticos, não deterministas ...) (RUTTER, 2007, p. 502).

Por fim, é necessário lembrar que não há garantias de que mesmo crianças de lares amorosos irão desenvolver resiliência de forma tranqüila. Certas crianças podem nascer com uma grande capacidade para resiliência, em oposição a outros jovens que, mesmo quando providos de amor, uma boa educação e atividades comunitárias, podem debater-se com situações típicas de adversidade. Por exemplo, crianças defrontadas com problemas como depressão, ansiedade e dificuldades para aprendizagem, todos com uma forte base biológica (genética), travarão uma grande luta para se tornarem resilientes. Não é que biologia seja destino, mas ela tem uma grande influência no desenvolvimento da criança.



BIBLIOGRAFIA

BROOKS, R., GOLDSTEIN, S. Nurturing resiliente in our children, McGraw Hill, NY, 2003;

CASPI, A. et alli. Role of Genotype in the Cycle of Violence in Maltreated Children, Science, vol 297 2 August 2002;

CICCHETTI, D., BENDER, J. A multiple-levels-of-analysis approach to the study of developmental processes inmaltreated children, PNAS December 14, 2004 vol. 101 no. 50;

CICCHETTI, D., BENDER, J. A Multiple-Levels-of-Analysis Perspective on Resilience Implications for the Developing Brain, Neural Plasticity, and Preventive Interventions, Ann. N.Y. Acad. Sci. 1094: 248–258 (2006). C 2006 New York Academy of Sciences.doi: 10.1196/annals.1376.029;

KIM-COHEN, J., GOLD, A. Gene–Environment Interactions and Resilience, disponível em www.psychologicalscience.org/journals/cd/18_3_inpress/kim-cohen.pdf, acessado em 20 de março de 2011;

RUTTER, M. Genetic Influences on risk and protection, implications for understanding resilience, in LUTHAR, S. (editor), RESILIENCE AND VULNERABILITY, adaptation in the context of childhood adversities, Cambidge University Press, New York, 2007.



domingo, 20 de março de 2011

A resiliência do povo japonês

After a Disaster, What Defines a Country's Resilience?
By Dr. Sheri Fink Wednesday, Mar. 16, 2011

The unfolding crisis in Japan is marked by uncertainty, but seasoned emergency responders have a clear mission: to promote resilience in survivors. Resilience, in this sense, is a metaphor for the quality of an elastic object that springs back into shape after being deformed. Resilient people and communities are those that recover readily from trauma.

In the acute phase of a disaster, fostering resilience has more to do with social than psychological assistance. Not long ago, it was common to find therapists rushing to a disaster zone, engaging survivors in a discussion about the trauma they had just experienced, and sometimes indiscriminately dispensing sedatives. So-called "critical incident stress debriefing," which still has its adherents, has fallen out of vogue. It's "been found to be ineffective," says Dr. Leslie Snider, a psychiatrist and senior technical adviser for the War Trauma Foundation in the Netherlands. What about Japan's psychological scars?

Research and experience have led experts to focus instead on promoting social interventions that decrease stress and restore a sense of control, safety and normality whenever possible. That includes ensuring that survivors have social support and access to information about the emergency. It also means arming people with practical knowledge about how to help themselves and those around them, a sort of emotional first aid that anyone can offer to a neighbor, friend or loved one. Helping others "is good for the people being helped as well as the people providing that help," says Dr. Irwin Redlener, director of the National Center for Disaster Preparedness at Columbia University's Mailman School of Public Health. "The more people know what they're supposed to do and what they can expect, the more capable they will be in responding to a disaster."

By the measure of self-help, the Japanese have already shown great signs of resilience, which benefits from good disaster preparedness. The government is working with private companies such as supermarkets to increase food aid to disaster survivors. Hundreds of disaster medical teams have been deployed, and many localities are drawing upon pre-existing agreements to aid each other in times of need. Many regular citizens have also stepped forward to assist, including offering private buildings to shelter the displaced.

With an estimated 15,000 people still missing, reuniting family members with surviving relatives as quickly as possible, and bringing those without families into social networks, is also important for recovery, particularly among children. "Having a buffering adult who's protective, who's reassuring and is confident, can help children get through the most traumatic situations relatively unscathed," Redlener says.

The United Nations estimates that about half a million people have moved to evacuation centers in Japan, almost half of them from areas around nuclear plants. Aid workers from the nonprofit organization Save the Children USA have set up a play area in one center in Sendai and are planning for more. "The most simple interventions really change lives," says Deb Barry, global director for child protection at the organization.

Save the Children trains disaster-affected volunteers to staff these "child friendly spaces" in emergencies. The idea is to give children a safe place to be kids. Barry says she has seen "children who just literally don't speak, who are really afraid of things, even the sound of a truck going by because it reminds them of an earthquake. All the sudden, [they] get this confidence back where they can really express themselves."

Quickly restarting school may be an even stronger way to promote resilience in children. "In Japan, children's lives are very structured," Barry says. "We're already getting a sense children want to be back in school."

Cultural insights like that are important for responders from overseas. The Japanese government has officially accepted assistance from 14 countries, and hundreds of international relief and search and rescue workers have already arrived. In particular, acts of mourning and recovery often draw on specific religious and spiritual practices and beliefs; in Japan, naming and identifying those who have died will be particularly important. When it comes to offering counseling, Japanese nationals are the best ones to provide it, says Yukie Osa, a professor of sociology at Rikkyo University in Tokyo and board chair of the Association for Aid and Relief, Japan. "It will be difficult for foreigners," she says. "The culture will be very different."

Osa, whose organization is assisting survivors in Japan after having provided emergency relief around the world, including in war-ravaged Afghanistan and after the 2004 tsunami in Indonesia, says Japanese people are used to giving overseas disaster aid, not getting it. "It's our first time to be helped," she says, but with such a vast area of devastation, ongoing displacement, harsh weather, and some places yet to be reached, the help is welcome. "I think people are ready to receive foreign assistance." She adds: "It's not only the goods, but also the people that are a help."

A recent newscast showed Pakistani residents of Japan cooking boiled rice for displaced people in a school. "The Pakistani person interviewed said, 'Since we were helped by Japanese people five years ago when the earthquake hit [Pakistan], now it is our turn to help Japanese people,'" Osa says. A child eating food in the gymnasium said that the curry was spicy, but delicious. "She was smiling," Osa says. "It was a very touching scene."

Psychiatrist Snider says that profound events lead not only to losses, but also to unexpected gains, including new knowledge and skills. "Our lives are all about how we make meaning of events," she says. "How we pull the thread of our life's story through a very tragic or significant event is particularly important, because [the event] becomes a part of that life story." Promoting resilience, she said, is about helping survivors search for and find their own meaning.

Dr. Fink is a Pulitzer Prize-winning investigative journalist, author of War Hospital: A True Story of Surgery and Survival, and a Senior Fellow at the New America Foundation and at the Harvard Humanitarian Initiative. She has worked with humanitarian aid organizations in more than a half dozen emergencies in the U.S. and overseas.