Definition of resilience

"In the context of exposure to significant adversity, resilience is both the capacity of individuals to navigate their way to the psychological, social, cultural, and physical resources that sustain their well-being, and their capacity individually and collectively to negotiate for these resources to be provided in culturally meaningful ways" (www.resilienceproject.org)

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Consequências psicossociais do desastre

O texto abaixo é uma livre tradução minha do capítulo I do livro Lidando com desastres – um guia para intervenção psicossocial (COPING WITH DISASTERS - A GUIDEBOOK TO PSYCHOSOCIAL INTERVENTION, byJohn H. Ehrenreich, Ph.D. October 2001). Quem desejar o texto original, é só me solicitar.

Capítulo I

Consequências psicossociais do desastre

Um resumo das consequências psicológicas do desastre

Num domingo, 05 de março de 1987, dois terremotos atingiram o Equador, aproximadamente 85 km da capital Quito. Fortes chuvas nas semanas anteriores tinham deixado o solo macio na área ao redor e o terremoto causou fortes deslizamentos de terra nas encostas das montanhas. Detritos ficaram represados nos rios, causando enchentes que destruíram cidades ao longo de suas margens e poluíram o suprimento de água de toda a região. A principal via ligando a região ao resto do Equador, assim como as estradas secundárias, foram destruídas. Os oleodutos ligando os principais pontos de extração de óleo aos portos estavam inoperantes, derrubando em 50% as receitas com as vendas desse produto. Milhares de pessoas tiveram sua sobrevivência prejudicada pela falta de água e comida, pela falta de transporte e de terra cultivável. Aproximadamente 70 mil casas, assim como escolas, hospitais e prédios públicos foram demolidos. Mil pessoas morreram e outras cinco mil ficaram sem teto.
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Na noite de 2 para 3 de dezembro de 1984 a cidade de Bhopal, na parte central da Índia, foi coberta por uma nuvem de isocianato de metila, um gás venenoso que tinha sido vazado de um tanque da fábrica Union Carbide India Ltd. Por volta da meia-noite as pessoas acordaram se sentindo sufocadas, com intensa irritação e vomitando. O pânico se espalhou: as pessoas corriam desesperadas para escapar do gás, muitas morreram no local, pisoteadas quando caíram ao tentar fugir. Outras só conseguiram ficar seguras depois de horas correndo. Aproximadamente 300 mil pessoas foram expostas ao gás mortífero; cerca de 2.500 morreram.
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Centenas de pessoas construíram sua vida revolvendo o lixo do principal depósito onde eram despejadas as 10 mil toneladas diárias de lixo produzidas em Manila, nas Filipinas. Em 17 de julho de 2000, após uma semana de chuvas, a grande montanha de lixo de 15 metros de altura desmoronou. Embora o número de mortos tenha sido incerto, pelo menos oitocentas pessoas morreram sufocadas. As fumaças venenosas emitidas pelo lixo apodrecido e pela putrefação dos corpos dificultaram os esforços de resgate.

Imagine você e sua família vítimas de um desastre: um terremoto, um tornado, uma enchente, a queda de um avião em sua comunidade, um acidente com usina nuclear, um ataque terrorista. O que nos acontece quando somos acometidos por um desastre? O que sentimos e experienciamos sob tais circunstâncias? Quase que instantaneamente, em resposta às imagens e sons do evento em si mesmo, nosso coração dispara, nossa boca seca, nossos músculos ficam tensos, nossos nervos entram em alerta, sentimos intensa ansiedade, medo ou terror. Se houve pouco ou nenhum aviso, podemos não entender o que está acontecendo com a gente. O choque, uma sensação de não realidade e o medo dominam. Muito depois do evento, as imagens, sons, cheiros e sentimentos persistem como lembranças indeléveis em nossa memória.

Assim que o choque imediato e o terror desaparecem, surgem efeitos de longo prazo. O desastre desafia nossos pressupostos básicos e nossas crenças. A maioria de nós, na maior parte do tempo, acredita que nosso mundo pessoal é previsível, benevolente e cheio de significados. Supomos que acreditamos em nós mesmos e em outras pessoas e que nós podemos lidar com a adversidade. O desastre destrói essas crenças e nos tornamos conscientes de nossa vulnerabilidade. Ao mesmo tempo nos sentimos sem esperança e sem possibilidade de ajuda. Desesperamo-nos com nossa inabilidade para tomar decisões e de agir de maneira que faça diferença para nossa família e para nós mesmos.

Na sequência do desastre, nós sofremos pela morte dos nossos entes queridos e nos admiramos pelo fato de estarmos vivos (e nos sentimos indignos e culpados por termos sobrevivido). Nós também sentimos por nossa casa, pelos objetos de valor pessoal, por documentos perdidos, pela perda de vizinhos queridos. Se o desastre destruiu nossas atividades tradicionais de subsistência na comunidade ou a comunidade em si mesma, podemos ter sentimentos intensos de laços rompidos com nossa identidade social e cultural. A perda de nosso mundo pessoal, do sentido de segurança, da crença em nós mesmos, na fidelidade dos outros ou até mesmo na benevolência de Deus não são apenas pensamentos; eles disparam sentimentos profundos de perda e dor.

Nos dias e semanas seguintes ao desastre nós podemos vivenciar uma grande variedade de distúrbios emocionais. Por exemplo, sofrimento crônico, depressão, ansiedade e culpa predominam. Para outros, dificuldades para controlar a raiva, suspeitas, irritabilidade e hostilidade prevalecem. Outros, ainda, evitam ou se escondem de outras pessoas. Para muitos, o sono é perturbado por pesadelos, as horas acordadas por lembranças nas quais sentem como se o desastre estivesse ocorrendo novamente. Não poucos começam a abusar de álcool e outras drogas.

Podem existir variações culturais nos padrões precisos nos quais sintomas relacionados a desastres aparecem, mas relatórios de países como China, Japão, Sri Lanka, México, Colômbia, Armênia, Ruanda, África do Sul, Filipinas, Fiji, Bósnia, Inglaterra, Austrália e Estados Unidos, entre outros, mostram que as respostas emocionais ao desastre são bastante parecidas ao redor do mundo.

Traumatismo secundário: não são somente aqueles que experimentam diretamente o desastre (as vítimas “primárias”) que sentem os efeitos emocionais. Vítimas “secundárias” – a família dos diretamente afetados, espectadores e observadores e o pessoal de resgate (os pagos e os voluntários) que procuram resgatar as vítimas primárias também experimentam sérios efeitos emocionais. Médicos e trabalhadores da saúde mental e oficiais de resgate que trabalham posteriormente com as vítimas primárias e secundárias são constantemente expostos a efeitos físicos e emocionais dos outros, ou podem ser eles mesmos as vítimas de “traumas por contaminação”. Mesmo aqueles que estão investigando o desastre (jornalistas, trabalhadores de organizações humanitárias avaliando as necessidades, representantes de direitos humanos) podem ficar traumatizados.

O “segundo desastre”: a primeira fonte do trauma emocional é, com certeza, o desastre em si mesmo. Mas as fontes de traumatismo não terminam quando o desastre acaba (num sentido literal) e quando as vítimas foram resgatadas. Após o desastre surge “o segundo desastre” – os efeitos da resposta ao desastre. O influxo rápido de voluntários bem-intencionados, que precisam ser alimentados e abrigados, se adicionam à confusão e competição por escassos recursos. Em algumas instâncias, pessoas pobres vindas de fora da região do desastre inundam essa área, procurando eles mesmos dividirem a comida e outros suprimentos que as organizações de resgate providenciam para as vítimas do desastre. Isso aumenta ainda mais o fardo nos profissionais que realizam o resgate e nas comunidades atingidas.

Aqueles que são forçados a se refugiar num acampamento ou num campo de refugiados por longos períodos de tempo são forçados a se confrontar com as consequências do desastre de forma contínua e implacável. Às perdas pessoais e materiais nós adicionamos agora a perda de privacidade, perda da comunidade, perda da independência, perda da familiaridade com o meio-ambiente e perda da certeza com relação ao futuro. Papéis familiares e funções de trabalho do dia-a-dia são interrompidos.

Higiene precária, abrigos inadequados, água e comida contaminadas produzem epidemias, com disseminação de doenças resultando em mortes. No abrigo, roubos pessoais e estupros podem colocar as mulheres, os mais velhos e outros mais vulneráveis em perigo. Conforme as semanas e os meses passam, a raiva com relação à lentidão da reconstrução ou a corrupção que evitam a chegada de suprimentos às vítimas pode se adicionar ao estresse. Em alguns casos, como na Nicarágua após o terremoto de 1972, e no México após o terremoto de 1985, tal insatisfação produziu instabilidade política generalizada.

Efeitos retardados do desastre: alguns efeitos emocionais dos desastres podem não aparecer até depois de um tempo considerável. Para algumas vítimas, o alívio inicial de ter sido resgatado e o otimismo inicial sobre as perspectivas de recuperação podem produzir uma “fase de lua de mel” (honeymoon stage). Após um período de meses ou anos isso pode dar lugar à sensação de que as perdas pessoais e materiais são irrecuperáveis. Pessoas queridas que morreram não retornam. As rupturas na família são permanentes. Empregos antigos não são recuperados. Uma longa redução na qualidade de vida continua. Depressão e ansiedade agora aparecem pela primeira vez em algumas vítimas e a taxa de suicídio pode aumentar.

Outras vítimas de desastres parecem estar inicialmente bem. Todavia, isso pode ser ilusório. Para proteger a si mesmas elas podem suprimir ou inibir o processamento do impacto do desastre sobre elas. Após um tempo (muitas vezes considerável), estímulos associados com o desastre podem disparar lembranças, trazendo de volta à consciência materiais previamente suprimidos. Como resultado disso, respostas psicológicas ao desastre podem “subitamente” aparecer, meses ou até mesmo anos depois do acontecido.

Prevalência de efeitos psicológicos adversos após a ocorrência de desastres

Embora os números precisos variem de situação para situação, espera-se que acima de 90% das vítimas apresentem pelo menos algum tipo de efeito psicológico que incomoda nas primeiras horas seguintes ao desastre. Muitas vezes, os sintomas diminuem gradualmente nas semanas que se seguem. Por volta da décima segunda semana após o desastre, no entanto, 20 a 50% ou mais podem ainda mostrar sinais significantes de estresse. Os números mostrando sintomas geralmente continuam caindo, mas respostas atrasadas e respostas a consequências tardias do desastre continuam a aparecer. Enquanto a maior parte das vítimas do desastre está relativamente livre do estresse por volta de um a dois anos após o evento, um quarto ou mais das vítimas podem ainda mostrar sintomas significantes, enquanto outras, que tinham previamente estado livre de sintomas, podem mostrar sinais de estresse um ou dois anos após o desastre. Aniversários do desastre podem ser momentos especialmente difíceis para muitos sobreviventes, com uma reaparição temporária e inesperada de sintomas dos quais eles pensavam ter se livrado. Relatos de sofrimento emocional generalizado dez anos ou mais após desastres como o de 1972, que inundou Buffalo Creek (EUA) e a internação em campos de concentração tem sido bem fundamentados.

A extraordinária prevalência de tais intensas respostas psicológicas, cognitivas e emocionais, a desastres indicam que elas são normais a situações extremas e não um sinal de “doença mental” ou de “fraqueza moral”. Contudo, os sintomas vivenciados por muitas vítimas nos dias e semanas seguintes ao desastre são uma fonte de sofrimento significante e podem interferir com sua habilidade para reconstruir suas vidas. Se não forem encaminhadas e resolvidas relativamente rápidas, tais reações podem se tornar uma fonte contínua de estresse e disfunções, com efeitos devastadores para o indivíduo, sua família e sua comunidade.

Fatores que afetam a vulnerabilidade a efeitos psicológicos adversos

Nem todo mundo é igualmente afetado por um desastre e nem todos os desastres são igualmente devastadores em termos psicológicos. Muitos fatores podem aumentar o risco de conseqüências psicológicas adversas:

- Quanto mais severo o desastre e mais terríveis ou extremas são as experiências do indivíduo, maior a probabilidade generalizada e duradoura dos efeitos psicológicos. Em casos extremos (por exemplo, os campos de concentração nazistas, o genocídio de Ruanda, os “campos da morte” cambojanos), virtualmente todos que estão expostos a eventos traumáticos sofrem efeitos duradouros.

- Alguns tipos de desastres tem maior probabilidade de produzir efeitos adversos que outros. No geral, as consequências psicológicas dos desastres que são intencionalmente infligidos por outros (exemplo: assaltos, ataques terroristas, guerras) são provavelmente maiores que aqueles desastres que podem ser produzidos por atividades humanas, mas que não são intencionais (exemplos: acidentes de avião, explosões industriais). Esses, por sua vez, tem uma maior probabilidade de produzir efeitos adversos que os desastres naturais puros (exemplo: furacões, tornados).

- Mulheres (especialmente mães de crianças pequenas), crianças entre 5 e 10 anos de idade e pessoas com uma história de doença mental pregressa ou ajustamento social pobre parecem ser mais vulneráveis que outros grupos. Aqueles com uma experiência pessoal anterior de trauma, tanto individual (exemplo: estupro) quanto coletiva (exemplo: terremoto, genocídio) geralmente são também mais vulneráveis.

- Vários tipos específicos de experiências de desastre são especialmente traumáticos. Eles incluem testemunhar a morte de pessoas queridas, perder um filho adolescente ou jovem adulto, ser soterrado, ferido seriamente ou hospitalizado como resultado do desastre.

- Em adição aos efeitos “psicológicos” do desastre, alguns dos efeitos físicos (exemplo: ferimentos na cabeça, queimaduras, lesões por esmagamento, exposição a toxinas, dores prolongadas) podem produzir diretamente, através dos processos fisiológicos, efeitos psicológicos adversos, tais como dificuldade de concentração, dificuldade de memorização, depressão e instabilidade emocional.

- Refugiados de guerra, de repressão política, ou violência política, são também de alto risco para efeitos adversos. Em adição aos efeitos de eventos que podem tê-los expulsados de casa, experiências negativas em abrigos e campos de concentração (exemplo: má nutrição, epidemias de doenças infecciosas, estupro e outras agressões físicas) podem eles mesmos produzir efeitos psicológicos adversos e desordens psicológicas.

- A “estigmatização” das vítimas de desastres pode tornar difícil sua recuperação. Uma situação infelizmente comum na qual isso ocorre é quando parte da experiência traumatizante foi causada por estupro. Em muitas guerras atuais, o estupro tem servido como uma arma. Estupro é também o maior risco para mulheres em campos de refugiados. As vítimas podem ser incapazes de contar para suas famílias e amigos sobre o que lhes aconteceu, por medo de serem culpabilizadas ou mesmo punidas.

- De forma inversa, a disponibilidade de redes de apoio social – famílias suportivas, amigos e comunidade – reduz a probabilidade da duração dos efeitos adversos. E aqueles que enfrentaram com sucesso traumas no passado podem suportar melhor os desastres subseqüentes, como se tivessem sido “inoculados” contra o estresse. Para uma minoria de vítimas, o desafio do desastre pode realmente ser positivo e levar ao aumento da habilidade para lidar com desafios futuros na vida.

- Quanto mais grave o desastre, menos importa as características individuais. Em muitos desastres graves, todos podem potencialmente apresentar respostas emocionais adversas. Em desastres relativamente brandos, diferenças de vulnerabilidade ou diferenças individuais podem ser de grande importância.

OS ESTÁGIOS DA RESPOSTA PSICOLÓGICA AOS DESASTRES

Costuma-se conceitualizar as consequências do desastre em termos de uma série de estágios ou fases, cada uma das quais com suas próprias características. As fases, apressamo-nos a dizer, não são rígidas. Ocorrem muitas variações em cada estágio e os estágios se superpõem.

O estágio do “resgate”

Nas primeiras horas ou dias após o desastre a maioria das atividades de resgate é focada em resgatar vítimas e procurar estabilizar a situação. As vítimas devem ser alojadas, vestidas, receber atenção médica, providas de comida e água.

Durante o estágio de resgate vários tipos de resposta emocional podem ser vistas. As vítimas podem variar de um para outro tipo de resposta, ou podem não apresentar uma resposta “típica”, das que pareceriam mais evidentes.

• “Insensibilidade” psíquica: as vítimas podem parecer aturdidas, confusas, apáticas. Uma calma superficial é seguida de negação ou tentativa de se isolar. As vítimas podem reportar sentimentos de irrealidade: “isso não está acontecendo”. Elas podem responder ao resgate de uma forma passiva, dócil, ou podem se rebelar e se defender quando tentam reconquistar um senso de controle pessoal. Elas podem parecer como autômatas em suas atividades diárias. Essa resposta padrão é geralmente transitória e pode ser seguida por (ou precedida de) excitação aumentada.

• Excitação aumentada: as vítimas podem experienciar intensos sentimentos de medo, acompanhados de excitação fisiológica: aceleração cardíaca, tensão muscular, dores musculares, distúrbios gastrointestinais. Elas podem se engajar em atividades excessivas e podem expressar uma variedade de medos racionais e irracionais. Essa resposta padrão é geralmente transitória e pode ser seguida por (ou precedida de) insensibilidade psíquica.

• Ansiedade difusa: as vítimas podem apresentar sinais difusos de ansiedade: resposta exageradamente surpreendente, incapacidade de relaxar, incapacidade para tomar decisões. Elas podem expressar sentimentos de abandono, ansiedade de separação de seus entes queridos, perda de sentido de segurança e ânsia por alívio.

• Culpa do sobrevivente: as vítimas podem culpar a si mesmas ou sentir vergonha por terem sobrevivido enquanto outros não sobreviveram. Pode haver uma preocupação com pensamentos sobre o desastre e ruminação sobre suas próprias ações: elas poderiam ter agido de forma diferente? Elas podem se sentir responsáveis pelo infortúnio dos outros.

• Conflitos sobre os cuidados: as vítimas podem ficar dependentes dos outros, ainda que desconfiadas, e podem sentir que ninguém pode entender o que elas passaram. Algumas vítimas podem sentir a necessidade de distanciar-se emocionalmente e para manter-se “duronas” podem-se irritar frente à simpatia dos outros. Outras podem sentir um desejo intenso de estar com pessoas o tempo todo.

• Ambivalência: algumas vítimas podem demonstrar ambivalência sobre a aprendizagem do que aconteceu com suas famílias e seus bens.

• Instabilidade afetiva e cognitiva: algumas vítimas podem apresentar raiva repentina e agressividade, e, inversamente, apatia e falta de energia e habilidade para movimentar-se. Elas podem ficar desleixadas e chorar facilmente. Sentimentos de vulnerabilidade e ilusões sobre o que aconteceu são comuns.

• Ocasionalmente, as vítimas parecem estar em um estado confusional agudo. Reações histéricas e sintomas psicóticos como delírios e alucinações, fala desorganizada e comportamento bastante desorganizado podem também aparecer. Eles podem estar isolados e ser de pouca duração ou podem constituir uma “psicose reativa breve”.

• A maioria das vítimas age de forma apropriada para proteger a si mesmas e as pessoas queridas. Na maioria dos desastres, apesar da crença no contrário, as vítimas podem demonstrar pouco pânico e podem se engajar em atitudes heróicas e altruístas.

Muitos desses comportamentos possuem uma qualidade adaptativa. Os comportamentos da maioria dos afetados por desastres, mesmo quando eles parecem anormalmente intensos ou inteiramente não familiares, devem ser entendidos como reações normais a condições ou eventos anormais e devastadores. Eles asseguram uma sobrevivência em curto prazo e permitem à vítima digerir informações a uma taxa controlável. Mas os sintomas em si mesmos podem ser percebidos pelas vítimas como socialmente condenáveis, como uma fonte de vergonha, culpa e falha, como uma evidência de inadequação. Cuidadores e profissionais do resgate, em troca, podem responder com irritação ou afastamento dessas vítimas.

Estágio do “inventário”

Uma vez que a situação estiver estabilizada, a atenção se volta para soluções em longo prazo. Os esforços heróicos de resgate dão lugar a formas burocratizadas de ajuda. Por volta de 12 a 18 meses, a assistência organizada de fora da comunidade diminui gradualmente e a realidade de suas perdas cai sobre as vítimas.

Nas primeiras semanas após o desastre as vítimas podem entrar numa fase de “lua de mel”, caracterizada pelo alívio de estarem seguros e estar otimistas quanto ao futuro. Mas nas semanas que se seguem, elas devem realizar uma avaliação realista sobre as conseqüências duradouras do desastre. A desilusão pode prevalecer. Os efeitos do “segundo desastre” são sentidos.

Durante essa fase, nenhuma da ampla variedade de sintomas pós-traumáticos aparece. Nenhum desses sintomas pode aparecer de forma isolada, mas frequentemente as vítimas demonstram alguns desses sintomas. Vários grupos distintos de sintomas são comuns. Muitas desses “transtornos de estresse pós-traumático”, “transtornos de ansiedade generalizada”, “luto anormal”, “depressão pós-traumática” merecem atenção. Somando-se a isso, muitos padrões restritos a culturas particulares podem aparecer.

SINTOMAS PÓS-TRAUMÁTICOS

- Dor, luto, depressão, desespero, desesperança

- Ansiedade, nervosismo, amedrontar-se facilmente, preocupar-se

- Desorientação, confusão

- Rigidez e obsessão ou vacilação e ambivalência

- Sentimentos de abandono e vulnerabilidade

- Dependência, apego excessivo; ou, alternadamente, afastamento social

- Suspeitas, supervigilância, medo de ser prejudicada, paranóia

- Distúrbios do sono: insônia, sonhos ruins, pesadelos

- Irritabilidade, hostilidade, raiva

- Ausência de humor, explosões repentinas de emoção

- Inquietação

- Dificuldades de concentração; perda de memória

- Queixas somáticas: dores de cabeça, sintomas gastrointestinais, suores e calafrios, tremores, fadiga, queda de cabelo, mudanças no ciclo menstrual, perda do desejo sexual, mudanças na visão e audição, dor muscular difusa

- Pensamentos intrusivos: lembranças, sentir-se “revivendo” a experiência, geralmente acompanhado por ansiedade

- Esquiva de pensamentos sobre o desastre e esquiva de lugares, figuras, sons que relembrem à vítima do desastre; esquiva de discussão a respeito disso

- Problemas no funcionamento interpessoal; conflito conjugal aumentado

- Aumentado uso de álcool e drogas

- Queixas cognitivas: dificuldade de concentração e de relembrar; lerdeza no pensamento

- Dificuldade de tomar decisões e de planejar

- Sentimento de isolamento e abandono

- Experiências “dissociativas”: sentimento de desprender-se de seu corpo ou de suas experiências, como se elas não estivessem acontecendo consigo mesmo; sentir as coisas como sendo “irreais”; sentindo-se como se estivesse “vivendo num sonho”

- Sentimento de inutilidade, vergonha, desânimo

- Comportamento impulsivo e autodestrutivo

- Ideação suicida ou tentativas de suicídio

- A “marca da morte”: preocupação com imagens de morte

Transtornos de estresse pós-traumático: as características do sintomas de estresse pós-traumático incluem:

(a) Reexperiências persistentes do evento traumático: lembranças recorrentes e incômodas dos eventos do desastre; sonhos estressantes recorrentes nos quais o desastre é revivido; estresse psicológico intenso ou reação fisiológica à exposição de sinais internos e externos que simbolizam ou se assemelham em aspecto ao evento traumático; ou experiências nas quais a vítima age ou sente como se o evento estivesse ocorrendo novamente (em crianças, podem ocorrer brincadeiras repetitivas nas quais os temas e aspectos do trauma são expressos; reconstituições do trauma específico dos eventos podem ocorrer, e podem acontecer sonhos assustadores sem conteúdo reconhecível).

(b) Esquiva persistente de estímulos associados com o trauma e entorpecimento continuado da responsividade geral: esforços por evitar pensamentos, sentimentos e conversas sobre o desastre; esforços por evitar atividades, lugares ou pessoas que lembram à vítima sobre o trauma; inabilidade para lembrar partes importantes da experiência do desastre; interesse acentuadamente diminuído por participar em atividades significantes; sentimentos de distanciamento e estranhamento dos outros; capacidade restrita de afeto; ou uma sensação de futuro abreviado, sem expectativas de viver uma vida normal.

(c) Sintomas persistentes de excitabilidade aumentada: dificuldade de iniciar ou manter o sono; irritabilidade ou explosões de raiva; dificuldade de concentração; hipervigilância; resposta de surpresa exagerada.

Esse grupo geral de sintomas tem sido reportado em todas as partes do mundo. Em partes menos industrializadas e entre pessoas vindo dessas áreas, a esquiva e os sintomas de entorpecimento são indicados como sendo menos comuns e os estados dissociativos e estados de transe, nos quais os componentes do evento são revividos e a pessoa se comporta como se estivesse passando novamente pelo evento, podem ser mais comuns.

Transtorno de ansiedade generalizada: os sintomas característicos da ansiedade generalizada incluem:

(a) Ansiedade e preocupação persistentes e excessivas sobre uma variedade de eventos ou atividades (não exclusivamente ligados ao desastre e suas consequências).

(b) A pessoa acha difícil controlar a preocupação e essa preocupação é desproporcional à realidade. Ela interfere na atenção às tarefas disponíveis.

(c) A ansiedade e a preocupação estão associadas com sintomas tais como agitação ou sentir-se “com os nervos à flor da pele”; sentir cansaço fácil; dificuldade de concentração ou com a mente em branco; irritabilidade; tensão muscular; e dificuldade de iniciar e manter o sono.

Embora alguns indivíduos com transtorno de ansiedade generalizada nem sempre identifiquem suas preocupações como “excessivas”, eles narram estresses subjetivos devido a sua constante preocupação e isso pode afetá-los nas áreas social, ocupacional, conjugal, entre outras. Sintomas somáticos (exemplo: mãos úmidas, boca seca, náusea ou diarréia, frequência urinária) e sintomas depressivos estão geralmente presentes.

Há uma considerável variação cultural em como a ansiedade é expressa. Em algumas culturas, ela pode ser expressa mais através de sintomas somáticos, enquanto em outras através de sintomas cognitivos. As crianças podem revelar sua ansiedade através de preocupação sobre sua competência (por exemplo, na escola), preocupação excessiva sobre pontualidade, excesso de zelo na busca de aprovação e um estilo pessoal de conformidade e perfeccionismo.

Luto anormal: normalmente após a morte de alguém querido uma sequência de estágios de luto é esperada. Geralmente a primeira resposta é de descrença e negação. Sentimentos de dormência podem dar trégua e permite à realização infiltrar devagar. Então, como se começássemos a perceber a realidade e o significado da perda, pode aparecer sensação de estresse, saudade da pessoa perdida, raiva dessa perda e ansiedade sobre nossa habilidade para lidar com esses sentimentos. Um período de melancolia se sucede, como se revíssemos nossas lembranças da perda da pessoa querida, e então, gradualmente, soltam-se os laços psicológicos, o que nos permite viver sem a pessoa perdida. Todas as culturas possuem rituais que, apesar da variação, parecem pretender facilitar esse processo.

O trauma, todavia, pode interferir com a habilidade para passar normalmente por esse processo. Os ferimentos da própria vítima, a perda dos suportes sociais, familiares e comunitários, culpa por ter sobrevivido e o próprio trauma psicológico da vítima podem interferir com os rituais esperados e os processos internos de luto. Lembranças do morto podem disparar outras lembranças da vítima em relação ao desastre. Ruminação pós-traumática pode não permitir que a vítima confronte as lembranças e pensamentos que são centrais para o luto. Entorpecimento pós-traumático pode interferir com o engajamento da vítima em interações sociais suportivas.

Pode haver ainda outros obstáculos práticos para essa despedida do morto. Por exemplo, processos legais podem atrasar os procedimentos do funeral ou preocupações sobre o enlutado ver o corpo do morto devido aos ferimentos que este pode ter sofrido no desastre podem levá-lo a não ter a oportunidade de ver esse corpo. Muitos estudos tem indicado que não ver o corpo do morto pode contribuir para um luto anormal e que ver o corpo, mesmo quando desconfigurado, não é inerentemente prejudicial. Poucas vítimas a quem foram permitidas e aceitaram ver os restos mortais se arrependeram depois.

Esses obstáculos psicológicos e práticos a uma resposta “normal” à morte de um ente querido podem contribuir para uma sensação de falta de terminar o luto ou permitem fantasias mágicas de que a pessoa morta não morreu de fato. Qualquer uma das muitas síndromes de luto anormal pode aparecer (Nota: diferentes culturas variam largamente com respeito a o que é “esperado” após a morte de um ente querido. Entre alguns povos, a expressão aberta de emoção é desaprovada. Entre outros, demonstrações em público são esperadas e a falta dessas demonstrações é considerada suspeita. Em algumas culturas, espera-se que as pessoas demonstrem sua dor de forma breve e então retornem a suas atividades normais. Em outras, espera-se um período longo de luto. A avaliação do significado desses padrões depende da consciência do que são as normas culturais em determinada cultura).

(a) Luto inibido: o luto exibe um padrão caracterizado por entorpecimento, contenção e controle exagerado das emoções, pouca demonstração de afeto. As pessoas parecem estar se “saindo bem”, mas este padrão está associado com posterior depressão e ansiedade.

(b) Luto distorcido: o enlutado demonstra intensa raiva e hostilidade, que dominam a sua tristeza e culpa. Essa raiva pode ser direcionada para qualquer pessoa que o enlutado associar com a morte do ente querido (exemplo: equipe de resgate).

(c) Luto crônico: os sentimentos de tristeza e perda não desaparecem. Choros freqüentes, preocupação com a perda são recorrentes.

(d) Depressão: o enlutado cai em depressão, com luto prolongado, desespero e a sensação de que a vida não vale à pena. Distúrbios de sono e apetite podem ocorrer. O enlutado pode ter fantasias ativas de ser reunido com o morto e ideação e tentativas de suicídio podem ocorrer.

(e) Culpa excessiva: o enlutado pode demonstrar excessiva auto-recriminação e preocupação com culpa, que eclipsam sua tristeza. Podem ocorrer comportamentos autodestrutivos, mas não claramente suicidas, como acidentes freqüentes ou uso excessivo de bebida alcoólica.

Depressão pós-traumática: depressão prolongada é um dos mais comuns achados dos estudos de pessoas traumatizadas de forma aguda ou crônica. Ela geralmente ocorre em combinação com transtorno de estresse pós-traumático. O trauma pode produzir ou exarcebar uma depressão já existente.

Sintomas comuns de depressão incluem tristeza, lerdeza nos movimentos, insônia (ou sono exagerado), fadiga ou perda de energia, diminuição do apetite (ou apetite excessivo), dificuldades de concentração, apatia e sentimentos de desamparo e anedonia (diminuição acentuada do interesse ou prazer nas atividades cotidianas), retraimento social, ruminações de culpa, abandono e mudança de vida irreversível, preocupações com perda e irritabilidade. Em alguns casos a pessoa pode negar sua tristeza ou pode se queixar, em vez disso, de sentir-se vazia ou sem nenhum sentimento. Alguns indivíduos apresentam queixas somáticas, incluindo dores generalizadas, ao invés de tristeza. Ideação ou tentativas de suicídio podem ocorrer. Em crianças, queixas somáticas, irritabilidade, retraimento social são particularmente comuns.

Em algumas culturas, a depressão pode ser largamente experienciada em termos somáticos, em vez de na forma de tristeza ou culpa. Queixas de “nervosismo”, dores de cabeça, dor crônica generalizada, fraqueza, cansaço, “desequilíbrio”, problemas no “coração”, sensações de “calor” ou preocupações sobre estar sendo amaldiçoado ou enfeitiçado podem aparecer.

Transtornos culturais específicos: as fronteiras entre ansiedade, depressão, dissociação e transtornos emocionais que tem predominantemente sintomas somáticos são bastante porosas. As vítimas geralmente apresentam sintomas que se encaixam em algumas dessas categorias. Em muitas sociedades e grupos culturais, padrões tradicionais de expressão do estresse tomam a forma de combinações de sintomas que não tem um equivalente exato no padrão internacional das categorias de doenças mentais. Uma resposta possível para o desastre pode tomar a forma de um desses “transtornos culturais específicos”. Eles podem incluir, por exemplo, susto e ataque de niervos (na América Latina e no Caribe), amok (Pacífico Sul), dhat (India), latah (Sudoeste da Ásia e Pacífico Sul) e khoucheraug (Camboja).

Em muitas partes do mundo o idioma convencional para expressar emoção pode ser o somático (exemplo: fadiga crônica, dores generalizadas, distúrbios gastrointestinais, sensações de “calor” ou medo de doenças somáticas (exemplo: hipocondria, medos de infecção). Em alguns grupos culturais o estresse do desastre pode assumir a forma de um “transtorno de transe”. Um “transe” é uma alteração transitória e acentuada no estado de consciência ou uma perda do habitual senso de identidade pessoal, associado com comportamentos estereotipados ou movimentos que são vividos como estando além do controle da pessoa ou por um estreitamento da consciência dos arredores.

O estágio de “reconstrução”

Por volta de um ano ou mais depois do desastre o foco muda novamente. Um novo padrão estável de vida começa a emergir. Em todo caso, a distinção entre o alívio em relação ao desastre e um padrão amplo de desenvolvimento social e econômico começa a diminuir e eventualmente desaparece.

Durante essa fase, embora muitas vítimas possam ter se recuperado por si mesmas, um número substancial continua a mostrar sintomas, muitos parecidos com os da fase precedente (“inventário”). Um número significante que não eram sintomáticas anteriormente podem agora exibir sérios sintomas de ansiedade e depressão, como se a realidade e a continuidade de suas perdas ficassem evidentes. O risco de suicídio pode, na verdade, aumentar nesse período. Outra característica do aparecimento tardio dos sintomas inclui fadiga crônica, sintomas gastrointestinais crônicos, incapacidade para o trabalho, perda de interesse pelas atividades diárias e dificuldade de pensar claramente.

A noção de “transtorno de estresse pós-traumático” descrito anteriormente deriva principalmente de observações de sintomas de sobreviventes de eventos traumáticos relativamente circunscritos. Um número de estúdios sugere que síndromes mais complexas podem aparecer em sobreviventes de traumas intensos, prolongados e repetitivos, como aqueles que foram feitos reféns, quem foi torturado repetidamente ou expostos a abuso físico ou a abuso sexual, que foi internado em um campo de concentração ou que viveu por muitos meses ou anos numa sociedade sob estado de guerra civil crônica.

Entre as vítimas de tais desastres pode aparecer a “síndrome do sobrevivente”. As pessoas que apresentam essa síndrome se descrevem como se caminhassem pela vida “sem nenhuma chama”. Depressão crônica, ansiedade e culpa por ter sobrevivido podem aparecer, ou, alternativamente, agressão crônica e “ódio constante”. Retraimento social, distúrbios de sono, queixas somáticas, fadiga crônica, labilidade emocional, perda de iniciativa, má adaptação social, pessoal e sexual se fazem presentes. O “prazer da vida” se foi, substituído por um “padrão pervasivo de lento desespero”. Relacionamentos conjugais e com os filhos ficam perturbados, geralmente criando distúrbios significativos nas gerações posteriores.

Outras vítimas de traumas prolongados, severos e repetitivos são descritos como exibindo “complexos de transtorno pós-traumático”, cujos sintomas incluem:

• Dificuldades em regular afeto (exemplo: depressão persistente, pensamento suicida, auto-agressão, raiva explosiva)

• Alternâncias na auto-percepção (exemplo: vergonha, culpa, sentido de profanação, sensação de ser diferente dos outros ou de desamparo).

• Alternâncias na consciência (exemplo: amnésia, estados dissociativos transitórios, pensamentos intrusivos, preocupações ruminativas)

• Dificuldades na relação com os outros (exemplo: isolamento, perturbação das relações íntimas, desconfiança persistente)

• Perturbação nos sistemas de acepções (exemplo: perda da fé, uma sensação de desamparo e desespero)

• Alterações na percepção do autor das atrocidades (exemplo: preocupação com vingança, atribuições irrealistas de poder total ao perpetrador, ou, paradoxalmente, gratidão por ele).

IMPACTOS COMUNITÁRIOS E SOCIAIS DOS DESASTRES

Os desastres atingem diretamente suas vítimas, mas criam também rasgos no tecido da vida social. Às vezes isso ocorre de forma direta e total, quando, como resultado do desastre, as pessoas são forçadas a deixar suas terras e migrar para um lugar qualquer. Em outros casos, o influxo rápido de equipes de resgate, a presença de representantes governamentais, imprensa e outros agentes de fora (incluindo meros curiosos), o fluxo de pessoas de fora da área atingida pelo desastre procurando pela comida trazida pelas equipes de resgate para provir às vítimas do desastre, somam-se para perturbar ainda mais a comunidade.

Até mesmo quando a estrutura formal da comunidade é mantida, o desastre pode desfazer os laços que mantinham as pessoas unidas, em famílias, comunidades, grupos de trabalho e a sociedade como um todo. Quando aqueles laços são destruídos, os indivíduos que fazem parte dos grupos afetados perdem amigos, vizinhos, uma comunidade, uma identidade social. Esses efeitos coletivos do desastre acabarão por ser tão devastadores quanto os efeitos individuais. As conseqüências do desastre para famílias, vizinhanças, comunidades e sociedades são muitas:

Dinâmicas familiares podem ser alteradas. Os desastres produzem mortes ou deficiências, separações familiares e dependência de doações podem minar a autoridade do provedor da família, suplantar as atividades tradicionais em casa e forçar as pessoas ou a sair de papéis antigos ou a começar novos. Sintomas de membros da família afetam suas interações com outros membros da mesma família. A entrada na intimidade da comunidade por pessoas de fora pode perturbar ou desafiar as práticas de educação das crianças e os padrões tradicionais de relacionamentos entre homem-mulher. Na sequência do desastre, conflitos conjugais e estresse aumentam; pode ocorrer aumento da taxa de divórcios após os desastres. Conflitos entre pais e filhos também se intensificam. São relatados aumento da violência intra-familiar (abuso infantil, abuso conjugal).

Desastres podem destruir fisicamente instituições importantes da comunidade, como escolas e igrejas, ou minar seu funcionamento devido aos efeitos diretos do desastre nas responsabilidades pessoais por essas instituições, como professores e padres. Padrões tradicionais de autoridade são destruídos, juntamente com formas de controle sobre os comportamentos individuais. Muitos estudos indicam um aumento nas taxas de violência comunitária, na taxa de agressão, abuso de álcool e drogas e na taxa de condenações legais após o desastre.

Os desastres minam a habilidade da comunidade de continuar com suas costumeiras ou tradicionais atividades centrais para os indivíduos, comunidade e identidade social, variando do trabalho até atividades recreativas para os rituais costumeiros. Algumas dessas rupturas são temporárias, mas outras são difíceis de reverter. Por exemplo, uma cheia pode danificar permanentemente a terra de uma fazenda e provocar um retorno a uma tradicional agricultura insustentável, ou um vazamento de óleo na costa afetar permanentemente os pesqueiros tradicionais. Com as pessoas forçadas a sair de suas casas e de suas terras por um curto ou longo período, e com registros pessoais e da comunidade perdidos devido ao desastre, aparecem oportunidades para saques. Isso pode ser limitado a posses pessoais ou a perdas permanentes de ferramentas, animais e terras. A comunidade cujos membros não podem continuar cultivando a terra, realizar atividades de produção do artesanato local, ou caçar e pescar de forma tradicional está destruída e seu sentido de identidade atacado.

Os desastres colocam uma pressão social sobre os papéis sociais das comunidades tradicionais, padrões de status social e liderança. Policia, agências locais de alojamento, instalações de saúde locais são sobrecarregados e encaram uma nova tarefa de integrar seu trabalho com a dos voluntários, frequentemente de fora da comunidade. Pode ocorrer irritação com a desigualdade na distribuição da ajuda após o desastre. Essas desigualdades podem exarcebar a diferença entre ricos e pobres. Especialistas externos podem representar uma ameaça para os profissionais locais. Na sequencia do desastre, novos líderes podem emergir na comunidade, devido ao papel dessas pessoas em responder ao desastre. Conflitos entre esses novos líderes e os líderes comunitários tradicionais podem aparecer.

A assistência externa pode ser necessária na sequência do desastre, mas pode também promover uma sensação de dependência da comunidade. Na medida em que as necessidades diárias são supridas de fora, os incentivos para retomar as atividades tradicionais são reduzidos. Essa não é uma questão de “dependência” psicológica. A provisão de comida e outros suprimentos podem competir com a produção local, perturbando os preços e salários tradicionais e prejudicando as tentativas para recriar os padrões antigos de produtividade. Acrescente-se a isso que o desastre em si mesmo pode ter destruído as ferramentas, oficinas, animais ou outras necessidades de produção.

Os desastres podem levar, direta ou indiretamente, a mudanças permanentes no processo de produção, especialmente processos de posse e uso da terra. A mudança da agricultura de subsistência para trabalho assalariado, o saque da terra, migração e desenraizamento e reassentamento tem um papel importante.

Cisões podem aparecer na comunidade conforme a coesão é perdida. Um dos perigos é o do bode expiatório, seja de indivíduos ou usando as divisões tradicionais da comunidade (exemplo: seguindo as linhas étnicas e religiosas).

Em comunidades com história de desastres anteriores, ou por causas naturais ou provocados pelo homem, o trauma produzido por um novo desastre pode reacender velhos sentimentos. Memórias do genocídio, guerra civil, opressão social, ou divisão étnico-racial e os sentimentos que eles produzem, e sentimentos de marginalização e desamparo podem ser exarcebados.

Em algumas comunidades que tiveram que lidar com desastres naturais repetidos, tais como enchentes, numa base mais ou menos regular, os desastres e as respostas a eles podem ser integradas pelos rituais da comunidade e seu sistema de crenças. As comunidades podem ter rituais tradicionais para lidar com os efeitos do desastre. Não apenas o desastre, mas as intervenções externas podem interferir com esses rituais tradicionais, com as respostas e com os significados atribuídos ao desastre; e essas intervenções podem ser vivenciadas como uma bênção ambígua ou até mesmo como uma fonte adicional de estresse.

Os desastres causam impactos nos indivíduos, nas famílias e nas comunidades. Esses impactos não são distintos, com efeitos separáveis. Os efeitos devastadores nos indivíduos que integram uma família ou uma comunidade exercem um papel maior em criar os efeitos nessa família e nessa comunidade. Mais importante, os sistemas de suporte sociais desempenham um papel extremamente importante em proteger os indivíduos do impacto do desastre e do impacto do estresse em geral. Desrupções sociais podem reduzir e interferir nos efeitos de cura da família e da comunidade e são elas mesmas fontes enormes de estresse nos indivíduos que fazem parte dessa família ou comunidade. Desrupção na família ou na comunidade podem ser mais devastadores, num curto, e especialmente num longo prazo, do que o desastre em si mesmo.

terça-feira, 29 de março de 2011

Influências genéticas no processo de resiliência individual


Reginaldo Branco da Silva

Nos últimos anos estudos sobre resiliência que tem levado em conta a análise de condições multifatoriais para chegar a conclusões do por que algumas pessoas sucumbem a situações de adversidade, e outras não, mostram o equívoco de análises que se baseiam somente em características individuais como fatores de enfrentamento e superação de situações de tensão. Levar em conta também os fatores comunitários, culturais, ambientais e genéticos facilita a abordagem nos estudos sobre resiliência, bem como a intervenção como promoção de possibilidades de enfrentamento (coping), tirando das costas do indivíduo a responsabilidade única pelo sucesso ou insucesso na superação das situações de adversidade.

Este texto é sobre a defesa da participação dos aspectos biológicos no processo de resiliência, mais ainda, sobre como a plasticidade cerebral influencia, e é influenciada, pelos aspectos sociais, culturais, espirituais e psicológicos do indivíduo; ou seja, como o cérebro muda e pode ser mudado pelas experiências do dia a dia. Essa plasticidade tem, comprovadamente, um componente genético importante na sua construção e é vista como um dinâmico processo do sisterma nervoso central (CNC) que orquestra constantemente alterações neuroquímicas, estruturais e funcionais em resposta à experiência. De fato, tem sido sugerido que a plasticidade do cérebro humano é um dos mecanismos centrais que definem o sucesso evolutivo da espécie humana.

O progresso continuado das pesquisas sobre as experiências de enfrentamento que os indivíduos realizam e como os componentes biológicos, mormente a genética, atuam facilitando ou dificultando essas experiências permitem que se tenha uma imagem mais abrangente e sofisticada do processo de resiliência. No entanto, é preciso ter claro que essa perspectiva não deve ser interpretada erroneamente como se a resiliência fosse um fruto somente da biologia. Além disso, a inclusão de medidas biológicas da pesquisa em resiliência não deve dar ouvidos a cientistas que pensam que isso seria voltar para o momento em que alguns defendiam a ideia de que havia crianças ´invulneráveis´ (CHICHETTI & BLENDER, 2006, p. 250). Por tudo isso, tem havido cientistas que tem fechado os olhos à importância da genética e não incorporado esse componente em seus estudos sobre os determinantes da resiliência, não levando em conta que o conhecimento da variação genética pode auxiliar na identificação de quais indivíduos seriam mais vulneráveis aos efeitos adversos e quais as função protetoras por genes estariam presentes, através da investigação da interação gene × meio ambiente (G × E). Essa negação pode aumentar a possibilidade de serem apontados fatores emocionais em determinados casos de resiliência que na verdade são obtidos por fatores genéticos (Rutter, 2007, p. 497).

A participação dos componentes biológicos como determinantes do processo de resiliência é evidenciada na função do sistema neural e neuroendócrino em relação ao enfrentamento da adversidade, e pesquisas sobre genética molecular podem revelar os elementos genéticos que servem como proteção para os indivíduos que experimentam tensões significativas, tais como crianças que sofrem maus tratos familiares, abandono, violência sexual, etc. Além disso, uma poderosa ferramenta para a identificação dos genes da vulnerabilidade e da proteção poderá ser em breve utilizada, que é o mapa de haplótipos humanos, “o que permitirá fornecer informações valiosas sobre a variação genética individual que, em interação com experiências ambientais específicas, podem levar a distúrbio mental ou resiliência, respectivamente” (CHICHETTI & BLENDER, 2006, p. 250).

A análise múltifatorial enfatiza a importância fundamental das inter-relações de diversos fatores em seus estudos, não relegando os resultados a um único fator, o biológico ou psicológico, por exemplo, nas pesquisas sobre resiliência. Assim como a expressão do gene altera o comportamento social, as experiências psicossociais alteram a expressão do gene. Exemplo são os maus tratos a crianças, que exercem transformações no desenvolvimento do cérebro, modificando sua expressão gênica, sua estrutura e seu funcionamento, assim como alterações na expressão gênica induzidas pelo aprendizado e pelas experiências sociais e psicológicas produzem mudanças nos padrões de conexões neuronais e sinápticas e na função das células nervosas. “Tais modificações neuronal e sináptica não só exercem um papel proeminente em iníciar e manter as mudanças de comportamento que são provocadas pela experiência, mas também contribuem para as bases biológicas da individualidade, assim como evidenciam indivíduos que estão sendo diferentemente afetados por experiências semelhantes, independentemente da sua valência” (CHICHETTI & BLENDER, 2006, p. 251). No entanto, nada é determinístico, pois é provável que a experiência de abuso e negligência de crianças possa exercer efeitos diferentes sobre a estrutura, função e organização neurobiológicas em crianças maltratadas que deram a volta por cima e superaram essa dificuldade, do que em crianças maltratadas que não se recuperaram psicologicamente.

Há pequeno, mas crescente, corpo de resultados de estudos genéticos moleculares em que as variações genéticas particulares foram encontradas associadas com acentuadas diferenças na suscetibilidade a determinados fatores de risco. Como exemplos dessa interação gene-meio ambiente (GxE) estão os resultados da investigação de Caspi (CASPI et. alli, 2002, p. 851), sugerindo que essa interação ajuda a explicar porque algumas crianças maltratadas, mas não outras, desenvolvem comportamentos anti-sociais através do efeito que essas experiências de adversidade exercem sobre o desenvolvimento do sistema neurotransmissor. Esses achados permitem explicar parcialmente porque nem todas as vítimas de maus tratos repetem esses maus tratos quando crescem e produzem evidências epidemiológicas de que os genótipos podem moderar a sensibilidade das crianças para as agressões do meio ambiente. Estudos sobre essas associações são citados por Rutter (RUTTER, 2007 p. 492), sobre transmissão genética do uso de álcool e outras drogas e por Chichetti e Blender (CHICHETTI & BLENDER, 2004, p. 17.326), em que a resposta de um indivíduo às agressões ambientais é moderada pela sua composição genética.

Essas investigações de análises de múltiplos níveis podem revelar os elementos genéticos que estão probabilisticamente associados às conseqüências do mau desenvolvimento e da psicopatologia, e, alternativamente, os genes que servem como função de proteção para os indivíduos que experimentam adversidade significativa (CHICHETTI & BLENDER, 2004, p. 17.325). As evidências surgidas sobre a influência dos fatores genéticos servem para destacar a importância de se considerar a ampla variedade de possíveis mecanismos de mediação e moderação na resiliência. Será essencial distinguir com vistas ao entendimento da resiliência quais indivíduos, por causa do seu genótipo, podem responder de forma mais competente e vantajosa às adversidades em condições ótimas de desenvolvimento.

Rutter (RUTTER, 2007 p. 494) aponta que os genes não operam em apenas um caminho, situando quatro pontos dessa questão: primeiro, os genes que afetam E (meio ambiente) podem não ser os mesmos que fornecem o principal efeito sobre o transtorno principal; e o G (fatores genéticos) que carrega o risco de P (fenótipo psicológico) pode não ser o mesmo G que cria a susceptibilidade para E (meio ambiente); segundo, o efeito precisa estar somente (ou principalmente) no ambiente de criação; terceiro, existem algumas circunstâncias em que pode haver transmissão intergeracional de experiências adversas maternas, um efeito que servirá para simular a transmissão genética; e quarto, assume-se que a interação gene-meio ambiente passiva (considerada puramente genética) envolve riscos ambientais que afetam todas as crianças da mesma forma.

Futuras pesquisas sobre resiliência com bases biológicas terão o desafio de tentar relacionar a plasticidade neural a fenômenos particulares de comportamento, tentando encontrar associações entre comportamentos e alterações específicas nos processos neurais, provocadas por fosforilação e expressão de genes. Para isso, é de suma importância que as investigações sobre os correlatos e determinantes

de adaptação resiliente comecem a incorporar métodos de genética molecular e neurobiológicos em suas ferramentas de medição predominantemente psicológicas. Por exemplo, postular se algumas das dificuldades apresentadas por pessoas que sofreram adversidades significativas em suas vidas são irreversíveis, ou se existem períodos sensíveis particulares, quando é mais provável que a plasticidade neural e comportamental ocorra. Embora o debate continue em torno da veracidade dos modelos da intereção gene-meio ambiente, e futuros estudos são necessários antes que essas hipóteses possam ser definitivamente confirmadas, existem fortes indicações de uma associação direta entre variações genéticas e consequências na saúde mental (KIM-COHEN & GOLD, on line, p. 4).

Do ponto de vista da intervenção, três conclusões inter-relacionadas que derivam da visão geral dos efeitos GxE são importantes: 1- É evidente que alguns riscos podem ser geneticamente determinados, porém, exercem seus efeitos através de diversos mediadores ambientais; 2- De forma análoga, alguns mediadores ou moderadores podem parecer moldados pelo ambiente, quando na realidade são em grande parte influenciados geneticamente; e 3- É uma ressalva importante para o segundo, isto é, mesmo atributos sujeitos a fortes influências genéticas não são necessariamente fixos ou imutáveis para as intervenções (efeitos genéticos são probabilísticos, não deterministas ...) (RUTTER, 2007, p. 502).

Por fim, é necessário lembrar que não há garantias de que mesmo crianças de lares amorosos irão desenvolver resiliência de forma tranqüila. Certas crianças podem nascer com uma grande capacidade para resiliência, em oposição a outros jovens que, mesmo quando providos de amor, uma boa educação e atividades comunitárias, podem debater-se com situações típicas de adversidade. Por exemplo, crianças defrontadas com problemas como depressão, ansiedade e dificuldades para aprendizagem, todos com uma forte base biológica (genética), travarão uma grande luta para se tornarem resilientes. Não é que biologia seja destino, mas ela tem uma grande influência no desenvolvimento da criança.



BIBLIOGRAFIA

BROOKS, R., GOLDSTEIN, S. Nurturing resiliente in our children, McGraw Hill, NY, 2003;

CASPI, A. et alli. Role of Genotype in the Cycle of Violence in Maltreated Children, Science, vol 297 2 August 2002;

CICCHETTI, D., BENDER, J. A multiple-levels-of-analysis approach to the study of developmental processes inmaltreated children, PNAS December 14, 2004 vol. 101 no. 50;

CICCHETTI, D., BENDER, J. A Multiple-Levels-of-Analysis Perspective on Resilience Implications for the Developing Brain, Neural Plasticity, and Preventive Interventions, Ann. N.Y. Acad. Sci. 1094: 248–258 (2006). C 2006 New York Academy of Sciences.doi: 10.1196/annals.1376.029;

KIM-COHEN, J., GOLD, A. Gene–Environment Interactions and Resilience, disponível em www.psychologicalscience.org/journals/cd/18_3_inpress/kim-cohen.pdf, acessado em 20 de março de 2011;

RUTTER, M. Genetic Influences on risk and protection, implications for understanding resilience, in LUTHAR, S. (editor), RESILIENCE AND VULNERABILITY, adaptation in the context of childhood adversities, Cambidge University Press, New York, 2007.



domingo, 20 de março de 2011

A resiliência do povo japonês

After a Disaster, What Defines a Country's Resilience?
By Dr. Sheri Fink Wednesday, Mar. 16, 2011

The unfolding crisis in Japan is marked by uncertainty, but seasoned emergency responders have a clear mission: to promote resilience in survivors. Resilience, in this sense, is a metaphor for the quality of an elastic object that springs back into shape after being deformed. Resilient people and communities are those that recover readily from trauma.

In the acute phase of a disaster, fostering resilience has more to do with social than psychological assistance. Not long ago, it was common to find therapists rushing to a disaster zone, engaging survivors in a discussion about the trauma they had just experienced, and sometimes indiscriminately dispensing sedatives. So-called "critical incident stress debriefing," which still has its adherents, has fallen out of vogue. It's "been found to be ineffective," says Dr. Leslie Snider, a psychiatrist and senior technical adviser for the War Trauma Foundation in the Netherlands. What about Japan's psychological scars?

Research and experience have led experts to focus instead on promoting social interventions that decrease stress and restore a sense of control, safety and normality whenever possible. That includes ensuring that survivors have social support and access to information about the emergency. It also means arming people with practical knowledge about how to help themselves and those around them, a sort of emotional first aid that anyone can offer to a neighbor, friend or loved one. Helping others "is good for the people being helped as well as the people providing that help," says Dr. Irwin Redlener, director of the National Center for Disaster Preparedness at Columbia University's Mailman School of Public Health. "The more people know what they're supposed to do and what they can expect, the more capable they will be in responding to a disaster."

By the measure of self-help, the Japanese have already shown great signs of resilience, which benefits from good disaster preparedness. The government is working with private companies such as supermarkets to increase food aid to disaster survivors. Hundreds of disaster medical teams have been deployed, and many localities are drawing upon pre-existing agreements to aid each other in times of need. Many regular citizens have also stepped forward to assist, including offering private buildings to shelter the displaced.

With an estimated 15,000 people still missing, reuniting family members with surviving relatives as quickly as possible, and bringing those without families into social networks, is also important for recovery, particularly among children. "Having a buffering adult who's protective, who's reassuring and is confident, can help children get through the most traumatic situations relatively unscathed," Redlener says.

The United Nations estimates that about half a million people have moved to evacuation centers in Japan, almost half of them from areas around nuclear plants. Aid workers from the nonprofit organization Save the Children USA have set up a play area in one center in Sendai and are planning for more. "The most simple interventions really change lives," says Deb Barry, global director for child protection at the organization.

Save the Children trains disaster-affected volunteers to staff these "child friendly spaces" in emergencies. The idea is to give children a safe place to be kids. Barry says she has seen "children who just literally don't speak, who are really afraid of things, even the sound of a truck going by because it reminds them of an earthquake. All the sudden, [they] get this confidence back where they can really express themselves."

Quickly restarting school may be an even stronger way to promote resilience in children. "In Japan, children's lives are very structured," Barry says. "We're already getting a sense children want to be back in school."

Cultural insights like that are important for responders from overseas. The Japanese government has officially accepted assistance from 14 countries, and hundreds of international relief and search and rescue workers have already arrived. In particular, acts of mourning and recovery often draw on specific religious and spiritual practices and beliefs; in Japan, naming and identifying those who have died will be particularly important. When it comes to offering counseling, Japanese nationals are the best ones to provide it, says Yukie Osa, a professor of sociology at Rikkyo University in Tokyo and board chair of the Association for Aid and Relief, Japan. "It will be difficult for foreigners," she says. "The culture will be very different."

Osa, whose organization is assisting survivors in Japan after having provided emergency relief around the world, including in war-ravaged Afghanistan and after the 2004 tsunami in Indonesia, says Japanese people are used to giving overseas disaster aid, not getting it. "It's our first time to be helped," she says, but with such a vast area of devastation, ongoing displacement, harsh weather, and some places yet to be reached, the help is welcome. "I think people are ready to receive foreign assistance." She adds: "It's not only the goods, but also the people that are a help."

A recent newscast showed Pakistani residents of Japan cooking boiled rice for displaced people in a school. "The Pakistani person interviewed said, 'Since we were helped by Japanese people five years ago when the earthquake hit [Pakistan], now it is our turn to help Japanese people,'" Osa says. A child eating food in the gymnasium said that the curry was spicy, but delicious. "She was smiling," Osa says. "It was a very touching scene."

Psychiatrist Snider says that profound events lead not only to losses, but also to unexpected gains, including new knowledge and skills. "Our lives are all about how we make meaning of events," she says. "How we pull the thread of our life's story through a very tragic or significant event is particularly important, because [the event] becomes a part of that life story." Promoting resilience, she said, is about helping survivors search for and find their own meaning.

Dr. Fink is a Pulitzer Prize-winning investigative journalist, author of War Hospital: A True Story of Surgery and Survival, and a Senior Fellow at the New America Foundation and at the Harvard Humanitarian Initiative. She has worked with humanitarian aid organizations in more than a half dozen emergencies in the U.S. and overseas.


 








quinta-feira, 17 de março de 2011

Resiliência em crianças

QUESTÃO

Eu tenho um filho de dez anos de idade e observando-o eu poderia dizer que ele é resiliente. Se ele perde um jogo, ele treina duas vezes mais na semana seguinte. Se ele não se sai bem em um teste, ele gastará tempo extra estudando para o próximo. Mas eu também noto que ele às vezes rebaixa seus colegas de equipe quando eles cometem algum erro. Uma vez ele comentou o quanto era estúpida uma garota de sua classe, pois ela tirava somente C nas provas. Se por um lado ele parece resiliente, eu não entendo por que ele faz troça dos outros.

RESPOSTA

Você levantou um ponto interessante. Nós acreditamos que se as crianças são resilientes, elas não tem a necessidade de rebaixar seus colegas. Ser resiliente não significa sentir-se superior ou melhor do que os outros. Na verdade, a nosso ver, resiliência está associada com uma grande empatia, cuidado e compaixão. Resiliência não equivale à insensibilidade. As crianças que enfrentam e superam as adversidades não deixam de ser afetadas por suas experiências; na verdade, são bastante afetadas. Todavia, possuindo uma mentalidade resiliente e, em particular, tendo certos suportes à sua disposição durante os tempos de adversidade, elas serão capazes de transformar essas experiências negativas em conseqüências positivas, momentos em que geralmente serão mais compreensivos e tolerantes com seus colegas.

Baseado na sua descrição, seu filho parece possuir muitas qualidades resilientes. Ele enxerga os erros como desafios e aceita que se ele não se sair bem em algo é sua responsabilidade trabalhar de forma mais intensa para ter sucesso na próxima vez. Nós suspeitamos, ainda, que seu filho desenvolveu uma razoável auto-disciplina e ilhas de competência. Devido às poucas informações que temos sobre ele, não estamos certos se suas auto-expectativas são muito altas, dando lugar para que coloque muita pressão sobre si mesmo para alcançar o sucesso. Contudo, o que parece mais aparente é que, qualquer seja o motivo, seu filho não está demonstrando um componente essencial da mentalidade resiliente, algo que desejamos que você possa ajudá-lo a desenvolver, que é a empatia. Indivíduos empáticos são capazes de “se colocar no lugar do outro” (walk in the shoes of others). Eles se identificam com os sentimentos, pensamentos e atitudes dos outros e não diriam para seus colegas o que não desejariam que fosse dito a eles. Devido aos sucessos que ele tem vivenciado, nós acreditamos que seu foco enquanto mãe deveria ser nutrir empatia em seu filho.

Qual a melhor maneira de se fazer isso? Começando por tentar entender e refletir a partir da perspectiva de seu filho. Não confundir empatia com desistência, estrago ou indecisão. Poderia parecer que neste ponto seu filho está puxando alguém para o seu padrão: se ele comete um erro ou não se sai bem, ele se dedica mais para um melhor desempenho. Isso é bom se ele não colocar muita pressão sobre si mesmo para vencer. Se este é o caso, você poderia ajudá-lo a desenvolver expectativas mais realistas e descobrir que todo mundo comete erros e a melhor maneira de aprender a partir deles é não se sentir humilhado ou intimidado pelos outros. De uma forma não acusatória, você pode se perguntar como que uma colega de equipe que comete um erro ou uma colega de classe que só tira nota C se sente e o que seu filho diria a eles como forma de encorajamento.

Muitas vezes quando nos engajamos nesse tipo de conversa nossos filhos irão responder que é o caso particular de um colega de classe que sempre faz tudo errado e é incapaz de melhorar. Novamente, a empatia deveria ser nossa linha mestra, tentando ajudar seu filho a entender que embora ele possua as habilidades para aprender a partir de suas performances mal sucedidas e atingir altos escores, outros não conseguem. Lembre-se que ensinar empatia leva tempo, semelhante a reforçar qualquer um dos componentes de uma mentalidade resiliente (Tradução livre de Nurturing resilience in our children, Robert Brooks & Sam Goldstein, 2003, p. 9-11).

segunda-feira, 7 de março de 2011

Resiliência e mecanismos de proteção da criança e do adolescente

Viver num mundo em que as demandas são cada vez mais intensas e as adversidades exigem respostas prontas e diferentes pode ser demasiado para a maioria das pessoas. Essas situações acabam gerando tensão, rebaixamento da imunidade e, conseqüentemente, adoecimento físico. Dependendo da estrutura do sujeito, esses enfrentamentos cotidianos podem causar algum tipo de transtorno psíquico (leves e passageiros ou graves e duradouros), exigindo tratamento adequado.

As crianças e os adolescentes, além de sofrerem tensão indireta, através da tensão dos adultos, levando-as também a algum tipo de adoecimento, sofrem também das demandas dos adultos sobre elas, possuem suas próprias exigências e tentam se adaptar a essas situações. A intensidade da tensão sobre elas e a forma como reagem e tentam responder ao ambiente em que vivem vai depender da constituição desse mesmo ambiente, de como ele cobra, mas apóia, de como ele impõe um viver, mas também o ensina, de como oprime, mas ao mesmo tempo alivia.

A sociedade muda o tempo todo, mas ao mesmo tempo tenta se conservar. Novos aspectos sociais, culturais, econômicos, jurídicos são introduzidos no cotidiano das pessoas; no entanto, parte da sociedade luta para manter velhos hábitos, velhas regras, antigas visões de como as pessoas devem se comportar, causando um embate acalorado, e algumas vezes violento, entre os grupos inovadores e os grupos conservadores.

Dentro do campo das idéias inovadoras está o conceito de resiliência, demonstrando que adaptar-se à realidade não é ceder totalmente a ela, submeter-se, usar somente respostas prontas e universais, acreditar no que a maioria impõe como crença: é sim encontrar seu próprio caminho em meio às turbulências pessoais e sociais, construindo suas próprias respostas e mantendo-se vivo, em todos os sentidos.

A resiliência mostra ainda que o foco nas potencialidades é a melhor maneira de promover enfrentamentos saudáveis e adequados às adversidades do dia-a-dia e da vida como um todo; as pessoas possuem fraquezas e às vezes ficam presas a elas, sem enxergarem, e não permitindo que se enxerguem nelas, suas fortalezas e como fazer uso adequado delas. Esse novo jeito de olhar, surgido a partir dos anos 80, permite visualizar que, independentemente da adversidade presente em algumas situações, existem mecanismos protetores que logram proteger os sujeitos, criando neles a possibilidade de ser tanto vulneráveis aos efeitos da adversidade quanto resistir e construir positivamente a partir dela, revertendo seu caráter de negatividade.

Os estudos de resiliência em geral, portanto também com crianças e adolescentes, apontam sempre para uma dualidade que movimenta a vida do sujeito, balançando ora para o saudável, ora para o adoecimento. Essa dualidade gira entre o que se considera risco e o seu oposto, proteção. Afirma que existem fatores de risco e sua contraposição, fatores de proteção, atuando sempre na vida do sujeito. Mostra ainda que esses fatores são flutuantes, não atuam por si mesmos, mas necessitam estar intrincados e contextualizados, levando-se em conta a cultura, o tempo e a estrutura da comunidade em que o sujeito vive. Ou seja, que um risco não é em si mesmo, mas é dentro de certas prerrogativas; que a proteção não é em si mesma, mas sempre focada. Ambos possuem uma construção social, variando de época e de cultura.

O que o conceito de risco indica é que existem fatores que podem predispor o sujeito para o adoecimento; o que o conceito de proteção indica é que existem influências que modificam e melhoram a resposta de uma pessoa a uma situação de adversidade e operam em pontos críticos durante a vida do sujeito (no caso dos fatores de proteção, não significa necessariamente que eles representem somente experiências agradáveis; eles modificam de forma positiva a resposta do sujeito, mas não necessariamente diminuindo seu sofrimento). Nesse cenário, a resiliência é considerada como o resultado final de mecanismos de proteção que não eliminam os riscos experimentados, mas encorajam o indivíduo a lidar efetivamente com a situação e a sair fortalecido da mesma.

O que as pesquisas mostram é que diferentes fatores interagem entre si ao longo do tempo, alterando a trajetória do sujeito. Nesse sentido, opta-se por utilizar os termos mecanismos de risco e mecanismos de proteção, mecanismo tendo essa idéia de algo que está sempre em movimento, em ebulição, dando voltas, fixando-se, confluindo-se e mobilizando-se. São esses mecanismos que vão apontar se determinados fatores em um determinado sujeito (indivíduo, família ou comunidade), com sua cultura, no seu tempo, serão considerados ou não como risco; se numa determinada família, para uma determinada criança, se alguns fatores podem ser considerados de proteção ou não.

Mecanismos são processos que ligam determinado risco às suas conseqüências, possibilitando sua compreensão mesmo quando as conseqüências variam, permitindo essa visão de duas maneiras: como mediadores (nesse caso os mecanismos são dinâmicos e não diretamente observáveis) ou moderadores (amplificando, reduzindo ou mudando a direção da correlação entre riscos e respostas). Nem sempre isso é claro para o observador, pois os mecanismos de risco envolvem uma rede complexa de acontecimentos anteriores e posteriores ao evento-chave (por exemplo, uma tentativa de suicídio do adolescente e todos os fatores que o levaram a esse momento).

Considera-se importante identificar os mecanismos de risco e mecanismos de proteção como forma de antecipar resultados negativos ou positivos no processo de desenvolvimento da criança e do adolescente, não se esquecendo de levar em conta os fatores culturais e comunitários com relação a que tipo de variável se considera risco ou proteção. Talvez o mais adequado fosse investigar os mecanismos situacionais e do desenvolvimento que possam indicar o modo como os fatores de risco e de proteção funcionam, pois esses fatores atuam em momentos e em situações pontuais da existência do sujeito, exigindo dele uma resposta que geralmente não é contextualizada, mas fruto de suas experiências com situações de adversidade anteriores, pois tanto a vulnerabilidade quanto a proteção são processos interativos que se relacionam com momentos específicos da vida de cada pessoa, assim como acontece com a resiliência. A resiliência e a vulnerabilidade são, portanto, resultados de combinações entre os variados processos de risco e de proteção que interagem em contextos específicos da vida de cada um.

Apesar dessas considerações colocadas pelos estudiosos de resiliência, podem-se apontar alguns mecanismos de risco e mecanismos de proteção que podem ser gerais, aceitos em todas as comunidades e em todas as culturas, e girando em torno das crianças e dos adolescentes. Mecanismos familiares, da escola, da comunidade proximal são os mais citados.

Nesse sentido, pode-se afirmar o seguinte: mesmo em meio a adversidades constantes, as crianças e adolescentes que se desenvolvem adequadamente são aquelas que contam com laços afetivos positivos com pelo menos um cuidador familiar (um dos pais, um irmão, avós ou pais substitutos); experienciam poucos e curtos distanciamentos de seu cuidador primário, principalmente durante o primeiro ano de vida; encontram apoio emocional na comunidade, geralmente de um professor, de amigos íntimos ou de um pastor ou padre; possuem atributos individuais, como flexibilidade, confiança e capacidade para buscar apoio na família ou na comunidade; e possuem sentido de humor e de criatividade. Os fatores individuais e os familiares ou comunitários sem complementam, pois nada adianta uma criança ter habilidades pessoais se não consegue respostas positivas no ambiente em que vive.

Dinamicamente isso representa os cuidados constantes dirigidos às crianças e aos adolescentes por seus responsáveis (em todos os níveis de sua sociabilidade), as expectativas positivas neles depositadas, suas relações de apego seguro, a coesão entre os membros da família, a existência de pelo menos um tutor de resiliência interessado no cuidado da criança e do adolescente, capaz de substituir, momentânea ou permanentemente, os seus responsáveis diretos.

Podemos citar ainda alguns fatores de risco familiares, tais como comunicação crítica exagerada e falta de respeito, indução de sentimentos de culpa como forma de controle, supervisão deficiente por parte dos pais, falta de limites ou limites não claros, etc; e seus opostos, funcionando como fatores de proteção, como paternidade democrática, adultos sempre acessíveis, responsáveis e atentos às necessidades das crianças e dos adolescentes, regras claras e realistas, expectativas altas, porém apropriadas à idade, fortalecimento do autocontrole, da competência social e da auto-estima, etc.

Por fim, pensando em medidas de prevenção de adoecimento de crianças e adolescentes, uma intervenção psicossocial deve considerar os fatores proximais de uma forma integral, ou seja, visualizar não somente os atributos do indivíduo, mas também da família, da escola e da comunidade como um todo.

O papel da comunidade e da sociedade deve sempre ser levado em conta e ser cobrado, pois essas medidas preventivas para serem exitosas dependem que o desenvolvimento da criança e do adolescente se dê em um ambiente em que eles possam experimentar, calculando os riscos e ao mesmo tempo sendo protegidos pelo seu entorno.

Para promover a resiliência em crianças e adolescentes é possível de se identificar quatro mecanismos gerais de proteção que podem ser fortalecidos por meio de intervenções: 1-reduzir os mecanismos de risco; 2-reduzir as reações em cadeia que aumentam a possibilidade de outras crises; 3-fortalecer os mecanismos protetores e reduzir as vulnerabilidades; 4-encorajar a estima e a eficácia familiares e individuais com o enfrentamento bem sucedido do problema.

Podemos citar como características da criança e do adolescente resiliente a capacidade de enfrentar de forma pró-ativa os problemas cotidianos, controle adequado das emoções em situações difíceis, demonstrando otimismo e persistência frente ao fracasso, habilidade para manejar de maneira construtiva a dor, a frustração e outros sentimentos perturbadores, habilidade para obter apoio dos demais e para estabelecer amizades duradouras no cuidado e apoio mútuos, competência nas áreas social, escolar e cognitiva, que lhes permitem enfrentar criativamente os problemas, uma maior autonomia e capacidade de observação e sentido de humor.

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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Coping e Resiliência


Podemos definir resiliência como um conjunto de respostas do sujeito (indivíduo, família ou comunidade) a situações de adversidade, sendo que essa adversidade pode ser experienciada de maneira diferente por diferentes sujeitos, gerando diferentes formas do sujeito se posicionar. Essa resiliência nunca é diretamente percebida, mas inferida a partir dos componentes de uma “adaptação positiva” (limpando o ranço ideológico dessa expressão), em função de um jogo de força entre mecanismos de risco e mecanismos de proteção. Essa adaptação é fruto de características individuais (psicológicas, fisiológicas, genéticas), familiares e sociais com o qual o sujeito pode contar frente às situações de adversidade.

Coping (cuja tradução ruim em português seria enfrentamento) pode, por sua vez, ser definido como um conjunto de habilidades cognitivas, comportamentais e sociais utilizadas na solução de conflitos internos ou externos, que surgem em situações de adversidade que sobrecarregam os recursos do sujeito (indivíduo, família ou comunidade). Essa definição supõe que o enfrentamento pode ser realizado através de ações voluntárias que podem ser aprendidas e, depois, abandonadas.

Nesse sentido, coping é um processo que permeia o sujeito em seu meio ambiente, em que o sujeito tenta administrar e não controlar a situação de adversidade, reavaliando constantemente essa situação e mobilizando esforços cognitivos e comportamentais para reduzir ou tolerar os componentes e as conseqüências da adversidade (composta por demandas internas e externas ao sujeito). Essa reavaliação depende da percepção que ele possui da situação e da interpretação que realiza da mesma, que podem ser afetadas pela disponibilidade de recursos a seu dispor.

Reforçando: devemos entender coping como sendo todos aqueles esforços que o sujeito realiza para manejar as demandas que causam tensão, independentemente do resultado. Nesse sentido, nenhuma estratégia é inerentemente melhor que a outra, considerando-se que a melhor forma de coping deve ser analisada em função do sujeito, da situação, do problema e da cultura.

As estratégias de coping podem ser classificadas em dois tipos, dependendo de sua função: focalizadas na emoção ou focalizadas no problema. O coping focalizado na emoção (atuação sobre uma fonte interna) é definido como um esforço para regular o estado emocional que é associado à situação de adversidade, sendo direcionado para o corpo ou para os sentimentos, objetivando alterar o estado emocional do sujeito (aceitar ou negar, expressar ou conter os sentimentos). Exemplo, contar até dez e respirar profundamente antes de tomar uma decisão rápida ou tentar entender a situação de outra forma. A função desse tipo de estratégia é reduzir a sensação física desagradável de um estado de tensão.

O coping focalizado no problema (agir sobre uma fonte externa) é uma tentativa de atuar sobre a causa da situação de adversidade, reduzindo ou eliminando sua ação (nesse sentido, é um tipo de confrontação). A função desta estratégia é alterar a tensão existente na relação entre o sujeito e seu ambiente. Exemplo: negociar para resolver um conflito interpessoal ou solicitar ajuda prática de outras pessoas.

Um dos componentes-chave de um efetivo enfrentamento é o sentimento de confiança no sujeito de que os obstáculos podem ser superados. Também importantes são os estilos de coping, ou seja, os tipos de estratégias de enfrentamento utilizadas pelo sujeito, por exemplo, de forma ativa ou passiva. Em geral, os estilos de coping têm sido mais relacionados a características de personalidade, enquanto as estratégias se referem a ações cognitivas ou de comportamento tomadas no curso de um episódio particular de tensão.

Conceitualmente, as estratégias de coping podem ser definidas em fisiológicas (lutar/fugir), cognitivas (como encarar a situação), comportamentais (relacionadas a processos mentais), aprendidas (a partir de modelos e de observação) e intencionadas (de forma voluntária e involuntária)

Finalizando, é preciso diferenciar coping de resiliência: o primeiro é um momento no tempo, a solução pontual de uma situação de tensão, enquanto que resiliência é a totalidade da experiência do sujeito. Uma soma de enfrentamentos bem sucedidos não necessariamente torna um sujeito resiliente.

Obs: quem desejar as fontes utilizadas para a confecção deste texto, pode me solicitar.